
Afonso Capelas Jr.
Revista National Geographic - 10/2007
A agenda de Carlos Nobre está sempre tomada por compromissos que parecem intermináveis - não é fácil encontrá-lo sem que esteja com viagem marcada para algum lugar no Brasil ou no exterior. Assim tem sido a rotina desse doutor em meteorologia, climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e renomado especialista em assuntos da Amazônia.
O brasileiro Nobre ocupa uma cadeira cativa entre os 2,5 mil cientistas dos mais diversos países reunidos no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), cujos relatórios sobre as conseqüências do aquecimento global têm deixado o planeta em alerta.
Por causa disso, o cientista vem realizando palestras mundo afora, falando sobre as mudanças climáticas e os perigos do desmatamento da maior floresta tropical da Terra. Como presidente do comitê de avaliação do Programa Piloto de Proteção das Florestas Tropicais do Brasil - vinculado ao G7, o grupo dos sete países mais ricos do globo -, Nobre visitou a Amazônia, em agosto, com a missão de investigar se o Plano de Combate ao desmatamento do governo federal realmente está funcionando.
Ele traz boas notícias e reflete como nossa floresta pode ajudar o Brasil a se tornar o primeiro "país tropical desenvolvido".
O senhor foi à Amazônia e constatou uma diminuição nos índices de desmatamento. O que aconteceu?
Nas regiões críticas que visitei, o norte do Mato Grosso, Rondônia e o sul do Pará, observei que houve uma queda de 30% nos desmatamentos nos últimos três anos. A desaceleração na derrubada da floresta é conseqüência da fiscalização maciça da Polícia Federal em locais em que os desmatamentos se expandem.
Mas é bom ressaltar que as atividades ilegais não se encerraram. Elas estão retraídas por causa das ações fiscalizadoras. Este é o momento ideal para aumentar ainda mais a vigilância e promover uma mudança cultural na Amazônia, onde ainda se acredita que desmatar para vender madeira, ou fazer pasto, é sinônimo de progresso.
O que deve ser feito para motivar essa mudança cultural?
É necessário buscar um novo modelo de desenvolvimento para a Amazônia que não dependa da derrubada da floresta. E essa consciência tem de começar com educação ambiental dentro das escolas. Além disso, para tornar as atividades ilícitas reprováveis pela gente do lugar é preciso que a presença do Estado seja mais efetiva nas áreas em que os desmatamentos acontecem. É importante que os índices de derrubada da floresta continuem despencando, pelo menos, nos próximos dez anos. Só assim é possível dar chance para que outras atividades econômicas menos predatórias se estabeleçam.
Por que o futuro da Amazônia é preocupante mesmo com a diminuição do desmatamento?
A biodiversidade da Amazônia é bastante vulnerável. Naquela imensidão verde há inúmeras espécies endêmicas - muitas ainda desconhecidas pela ciência - que evoluíram durante dezenas, centenas de milhões de anos em determinada condição climática.
Se o clima é alterado lentamente, essas espécies conseguem, aos poucos, migrar e adaptar-se em outro ambiente mais apropriado.Mas, quando o clima sofre alterações rápidas, a migração lenta é inviabilizada. Ou seja, muitas espécies desaparecerão porque não vão conseguir se adaptar. Um exemplo desse fenômeno pode ocorrer com as araucárias.
Se as temperaturas subirem até 2,5ºC, essas árvores vão desaparecer da Serra da Mantiqueira, no trecho entre São Paulo e Minas Gerais. Se o aumento for entre 4ºC e 5ºC, elas deixarão de existir no Paraná para sobreviver apenas nos picos mais altos das serras gaúchas e catarinenses. E serão relíquias.
As temperaturas na Amazônia já têm aumentado?
Sim, como no restante do Brasil, entre 0,7ºC e 0,8ºC nos últimos 50 anos.
Quais as regiões da floresta Amazônica que deverão afetadas a curto e médio prazos?
Será a Amazônia centro-oriental, do oeste de Belém ao leste de Manaus, com exceção da faixa atlântica, onde o índice pluviométrico é mais elevado. Provavelmente vamos observar as primeiras mudanças ambientais daqui a 20 ou 30 anos. Depois disso, se o aquecimento global continuar, o processo de degradação da natureza estará bem visível em 50 anos.
Em relação ao litoral brasileiro, o que deve ocorrer quanto à elevação do nível dos oceanos?
Nesse caso, o Brasil está longe de ser o país mais vulnerável. Mesmo com seus 8,5 mil quilômetros, a costa brasileira é relativamente íngreme.
Provavelmente ocorrerão problemas em lugares localizados até 10 metros acima do nível do mar. Há 122 mil quilômetros quadrados de nosso litoral em tais condições. Essa área não é assim tão grande ao observarmos que ela equivale a cerca de 2% do território brasileiro.
O Vietnã, por exemplo, tem 65% de seu território nessa cota dos 10 metros. Bangladesh tem 40% na faixa dos 6 metros. O problema é que, no Brasil, naqueles 2% se encontram grandes cidades, como Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e Santos.
Quais os riscos imediatos para os brasileiros que vivem em outras regiões?
Com o planeta mais quente, tudo leva a crer que haverá secas mais intensas. A escassez de água e a irregularidade das chuvas devem acentuar-se no semiárido nordestino. O aquecimento também pode causar muitos problemas nas megacidades.
Uma das conseqüências mais fáceis de entender - da qual não se fala muito - é que, quando a temperatura aumenta, as reações químicas que levam à formação de poluentes ocorrem em maior velocidade.
Dessa forma, a poluição do ar nas grandes cidades se tornará ainda mais grave. E, com ondas de calor mais freqüentes, é possível que aumente a área de transmissão de doenças tropicais. Além disso, regiões hoje pouco afetadas por doenças como malária e dengue poderão desenvolvê-las.
No Brasil, a emissão de carbono per capita é de 1,4 tonelada por ano, maior que a da África e quase igual à da França. Por que ainda não estamos, de fato, preocupados em buscar alternativas para nos adaptarmos às mudanças climáticas?
Demoramos muito para perceber que as mudanças climáticas já haviam passado do ponto em que era possível revertê-las 100%. Agora todos os países têm a obrigação de buscar alternativas para minimizar os impactos.
O Brasil, em primeiro lugar, precisa assumir um compromisso de longo prazo com as gerações futuras e buscar um novo modelo de desenvolvimento que minimize as emissões de CO2.
Também deve mapear as nossas vulnerabilidades para criar uma política nacional de enfrentamento das mudanças climáticas - da mesma forma que há planos para acabar com o analfabetismo ou com a fome.
Há algo errado com os padrões de consumo dos brasileiros?
O brasileiro de classe média e média alta padece do consumismo típico do mundo moderno - até mais próximo dos hábitos do americano do que dos do europeu. O nosso sistema de transporte público é deficiente, é para os pobres.
Ou seja, como não há transporte público decente, quem pode prefere dirigir seu próprio veículo, que geralmente é grande, pesado e poluente. Entretanto, vemos atitudes positivas. Os sistemas de reciclagem estão avançando e gerando empregos, renda e eficiência na economia, diminuindo as emissões.
O grande teste para o Brasil é que não há como eliminar ou ao menos reduzir a pobreza sem elevar o consumo de energia, de materiais básicos e de alimentos para os 70% de brasileiros pobres. Como melhorar o padrão de vida dessas pessoas sem causar um aumento muito grande das emissões é um desafio e tanto.
O programa brasileiro do etanol e do biocombustível vai bem?
Cerca de 45% das matrizes energéticas do Brasil vêm de fontes renováveis, um dos índices mais altos do mundo, ao passo que a média mundial é de menos de 15%. O país já tem larga experiência no uso do etanol e é também o que mais o utiliza, adicionado à gasolina ou nos carros flex e a álcool.
O uso de combustíveis renováveis, como o etanol e o biodiesel, vem para ficar. Há, no entanto, o temor de que o Brasil se transforme em um imenso canavial. Mas temos áreas tão extensas com agricultura e pecuária de baixa produtividade que parte delas poderia servir à expansão da produção de biocombustível.
Isso não significa substituir pasto abandonado por cana-de-açúcar ou mamona. É preciso ter um plano de recuperação ambiental. Quanto ao etanol, é necessário perceber que a riqueza virá da venda, transferência e capacitação tecnológica para outros países.
O senhor defende o que chama de país tropical desenvolvido. O que significa exatamente esse termo?
É um país que entende verdadeiramente o que é riqueza natural. Não basta ter minérios, por exemplo; é preciso adquirir conhecimentos para explorar ao máximo os recursos naturais de forma sustentável.
É fundamental descobrir, associar e conseguir mais valor para esses produtos. Um país tropical desenvolvido é uma nação industrial. Não existe uma nação desenvolvida que não tenha uma indústria de ponta.
Só que, além da industrialização diversificada (que já temos na siderurgia, na química e na aeronáutica), precisamos descobrir um nicho industrial que utilize nossos recursos naturais. Nesse ponto, o Brasil tem uma grande vantagem diante do mundo.
Como o Brasil pode explorar as riquezas amazônicas para impulsionar o que o senhor chama de desenvolvimento tropical?
O modelo de desenvolvimento da Amazônia precisa basear-se na exploração econômica sustentável de sua biodiversidade. Uma das maneiras de fazer isso é implementar um plano de longo prazo que chamo de "globalização dos produtos da biodiversidade amazônica".
Já há esse esforço, com a venda do açaí, do cupuaçu e da castanha-do-brasil, porém isso ainda é muito pouco. Também exportamos madeira, mas apenas uma pequena parte dela é industrializada.
Um bom exemplo vem da Bolívia, onde empresas de Cobija, pequena cidade na fronteira com o Acre, melhoraram o processamento da castanha-do-brasil, treinaram coletores extrativistas. A Bolívia exporta 80% da castanha-do-brasil.
O grande diferencial é que os bolivianos não exportam a castanha bruta: ela é embalada a vácuo, na forma de farelo, para ser usada em indústrias de doces e óleo da Europa.
Que outros produtos têm potencial para ser globalizados?
Toda a fruticultura, todos os óleos, uma série de fitoterápicos, além dos nutracêuticos, também conhecidos como alimentos funcionais. Pouquíssimos ainda são globalizados, como o óleo de andiroba e o de copaíba, utilizados na indústria de cosméticos.
Tudo é muito artesanal, feito em pequena escala, nada é industrializado. A industrialização de produtos seria a base para gerar emprego para populações rurais das cidades da Amazônia, criando boas oportunidades de trabalho e renda.
Afonso Capelas Jr.
Revista National Geographic - 10/2007
O brasileiro Nobre ocupa uma cadeira cativa entre os 2,5 mil cientistas dos mais diversos países reunidos no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), cujos relatórios sobre as conseqüências do aquecimento global têm deixado o planeta em alerta.
Por causa disso, o cientista vem realizando palestras mundo afora, falando sobre as mudanças climáticas e os perigos do desmatamento da maior floresta tropical da Terra. Como presidente do comitê de avaliação do Programa Piloto de Proteção das Florestas Tropicais do Brasil - vinculado ao G7, o grupo dos sete países mais ricos do globo -, Nobre visitou a Amazônia, em agosto, com a missão de investigar se o Plano de Combate ao desmatamento do governo federal realmente está funcionando.
Ele traz boas notícias e reflete como nossa floresta pode ajudar o Brasil a se tornar o primeiro "país tropical desenvolvido".
O senhor foi à Amazônia e constatou uma diminuição nos índices de desmatamento. O que aconteceu?
Nas regiões críticas que visitei, o norte do Mato Grosso, Rondônia e o sul do Pará, observei que houve uma queda de 30% nos desmatamentos nos últimos três anos. A desaceleração na derrubada da floresta é conseqüência da fiscalização maciça da Polícia Federal em locais em que os desmatamentos se expandem.
Mas é bom ressaltar que as atividades ilegais não se encerraram. Elas estão retraídas por causa das ações fiscalizadoras. Este é o momento ideal para aumentar ainda mais a vigilância e promover uma mudança cultural na Amazônia, onde ainda se acredita que desmatar para vender madeira, ou fazer pasto, é sinônimo de progresso.
O que deve ser feito para motivar essa mudança cultural?
É necessário buscar um novo modelo de desenvolvimento para a Amazônia que não dependa da derrubada da floresta. E essa consciência tem de começar com educação ambiental dentro das escolas. Além disso, para tornar as atividades ilícitas reprováveis pela gente do lugar é preciso que a presença do Estado seja mais efetiva nas áreas em que os desmatamentos acontecem. É importante que os índices de derrubada da floresta continuem despencando, pelo menos, nos próximos dez anos. Só assim é possível dar chance para que outras atividades econômicas menos predatórias se estabeleçam.
Por que o futuro da Amazônia é preocupante mesmo com a diminuição do desmatamento?
A biodiversidade da Amazônia é bastante vulnerável. Naquela imensidão verde há inúmeras espécies endêmicas - muitas ainda desconhecidas pela ciência - que evoluíram durante dezenas, centenas de milhões de anos em determinada condição climática.
Se o clima é alterado lentamente, essas espécies conseguem, aos poucos, migrar e adaptar-se em outro ambiente mais apropriado.Mas, quando o clima sofre alterações rápidas, a migração lenta é inviabilizada. Ou seja, muitas espécies desaparecerão porque não vão conseguir se adaptar. Um exemplo desse fenômeno pode ocorrer com as araucárias.
Se as temperaturas subirem até 2,5ºC, essas árvores vão desaparecer da Serra da Mantiqueira, no trecho entre São Paulo e Minas Gerais. Se o aumento for entre 4ºC e 5ºC, elas deixarão de existir no Paraná para sobreviver apenas nos picos mais altos das serras gaúchas e catarinenses. E serão relíquias.
As temperaturas na Amazônia já têm aumentado?
Sim, como no restante do Brasil, entre 0,7ºC e 0,8ºC nos últimos 50 anos.
Quais as regiões da floresta Amazônica que deverão afetadas a curto e médio prazos?
Será a Amazônia centro-oriental, do oeste de Belém ao leste de Manaus, com exceção da faixa atlântica, onde o índice pluviométrico é mais elevado. Provavelmente vamos observar as primeiras mudanças ambientais daqui a 20 ou 30 anos. Depois disso, se o aquecimento global continuar, o processo de degradação da natureza estará bem visível em 50 anos.
Em relação ao litoral brasileiro, o que deve ocorrer quanto à elevação do nível dos oceanos?
Nesse caso, o Brasil está longe de ser o país mais vulnerável. Mesmo com seus 8,5 mil quilômetros, a costa brasileira é relativamente íngreme.
Provavelmente ocorrerão problemas em lugares localizados até 10 metros acima do nível do mar. Há 122 mil quilômetros quadrados de nosso litoral em tais condições. Essa área não é assim tão grande ao observarmos que ela equivale a cerca de 2% do território brasileiro.
O Vietnã, por exemplo, tem 65% de seu território nessa cota dos 10 metros. Bangladesh tem 40% na faixa dos 6 metros. O problema é que, no Brasil, naqueles 2% se encontram grandes cidades, como Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e Santos.
Quais os riscos imediatos para os brasileiros que vivem em outras regiões?
Com o planeta mais quente, tudo leva a crer que haverá secas mais intensas. A escassez de água e a irregularidade das chuvas devem acentuar-se no semiárido nordestino. O aquecimento também pode causar muitos problemas nas megacidades.
Uma das conseqüências mais fáceis de entender - da qual não se fala muito - é que, quando a temperatura aumenta, as reações químicas que levam à formação de poluentes ocorrem em maior velocidade.
Dessa forma, a poluição do ar nas grandes cidades se tornará ainda mais grave. E, com ondas de calor mais freqüentes, é possível que aumente a área de transmissão de doenças tropicais. Além disso, regiões hoje pouco afetadas por doenças como malária e dengue poderão desenvolvê-las.
No Brasil, a emissão de carbono per capita é de 1,4 tonelada por ano, maior que a da África e quase igual à da França. Por que ainda não estamos, de fato, preocupados em buscar alternativas para nos adaptarmos às mudanças climáticas?
Demoramos muito para perceber que as mudanças climáticas já haviam passado do ponto em que era possível revertê-las 100%. Agora todos os países têm a obrigação de buscar alternativas para minimizar os impactos.
O Brasil, em primeiro lugar, precisa assumir um compromisso de longo prazo com as gerações futuras e buscar um novo modelo de desenvolvimento que minimize as emissões de CO2.
Também deve mapear as nossas vulnerabilidades para criar uma política nacional de enfrentamento das mudanças climáticas - da mesma forma que há planos para acabar com o analfabetismo ou com a fome.
Há algo errado com os padrões de consumo dos brasileiros?
O brasileiro de classe média e média alta padece do consumismo típico do mundo moderno - até mais próximo dos hábitos do americano do que dos do europeu. O nosso sistema de transporte público é deficiente, é para os pobres.
Ou seja, como não há transporte público decente, quem pode prefere dirigir seu próprio veículo, que geralmente é grande, pesado e poluente. Entretanto, vemos atitudes positivas. Os sistemas de reciclagem estão avançando e gerando empregos, renda e eficiência na economia, diminuindo as emissões.
O grande teste para o Brasil é que não há como eliminar ou ao menos reduzir a pobreza sem elevar o consumo de energia, de materiais básicos e de alimentos para os 70% de brasileiros pobres. Como melhorar o padrão de vida dessas pessoas sem causar um aumento muito grande das emissões é um desafio e tanto.
O programa brasileiro do etanol e do biocombustível vai bem?
Cerca de 45% das matrizes energéticas do Brasil vêm de fontes renováveis, um dos índices mais altos do mundo, ao passo que a média mundial é de menos de 15%. O país já tem larga experiência no uso do etanol e é também o que mais o utiliza, adicionado à gasolina ou nos carros flex e a álcool.
O uso de combustíveis renováveis, como o etanol e o biodiesel, vem para ficar. Há, no entanto, o temor de que o Brasil se transforme em um imenso canavial. Mas temos áreas tão extensas com agricultura e pecuária de baixa produtividade que parte delas poderia servir à expansão da produção de biocombustível.
Isso não significa substituir pasto abandonado por cana-de-açúcar ou mamona. É preciso ter um plano de recuperação ambiental. Quanto ao etanol, é necessário perceber que a riqueza virá da venda, transferência e capacitação tecnológica para outros países.
O senhor defende o que chama de país tropical desenvolvido. O que significa exatamente esse termo?
É um país que entende verdadeiramente o que é riqueza natural. Não basta ter minérios, por exemplo; é preciso adquirir conhecimentos para explorar ao máximo os recursos naturais de forma sustentável.
É fundamental descobrir, associar e conseguir mais valor para esses produtos. Um país tropical desenvolvido é uma nação industrial. Não existe uma nação desenvolvida que não tenha uma indústria de ponta.
Só que, além da industrialização diversificada (que já temos na siderurgia, na química e na aeronáutica), precisamos descobrir um nicho industrial que utilize nossos recursos naturais. Nesse ponto, o Brasil tem uma grande vantagem diante do mundo.
Como o Brasil pode explorar as riquezas amazônicas para impulsionar o que o senhor chama de desenvolvimento tropical?
O modelo de desenvolvimento da Amazônia precisa basear-se na exploração econômica sustentável de sua biodiversidade. Uma das maneiras de fazer isso é implementar um plano de longo prazo que chamo de "globalização dos produtos da biodiversidade amazônica".
Já há esse esforço, com a venda do açaí, do cupuaçu e da castanha-do-brasil, porém isso ainda é muito pouco. Também exportamos madeira, mas apenas uma pequena parte dela é industrializada.
Um bom exemplo vem da Bolívia, onde empresas de Cobija, pequena cidade na fronteira com o Acre, melhoraram o processamento da castanha-do-brasil, treinaram coletores extrativistas. A Bolívia exporta 80% da castanha-do-brasil.
O grande diferencial é que os bolivianos não exportam a castanha bruta: ela é embalada a vácuo, na forma de farelo, para ser usada em indústrias de doces e óleo da Europa.
Que outros produtos têm potencial para ser globalizados?
Toda a fruticultura, todos os óleos, uma série de fitoterápicos, além dos nutracêuticos, também conhecidos como alimentos funcionais. Pouquíssimos ainda são globalizados, como o óleo de andiroba e o de copaíba, utilizados na indústria de cosméticos.
Tudo é muito artesanal, feito em pequena escala, nada é industrializado. A industrialização de produtos seria a base para gerar emprego para populações rurais das cidades da Amazônia, criando boas oportunidades de trabalho e renda.
























