
Fernando Gabeira
Revista Claudia - 01/2006
"Por favor, onde fica a Amazônia?" Dificilmente alguém vai repetir a pergunta que George W. Bush fez a Lula diante do mapa do Brasil. Muitos estrangeiros sabem mais sobre a região do que o presidente dos Estados Unidos, momentaneamente o homem mais poderoso do mundo. Mas uma floresta tropical com 5 milhões de quilômetros quadrados encerra mistérios. Alguns nós carregamos no inconsciente.
Um grande pensador italiano, Giambattista Vico, estudou, há séculos, como se formou a hostilidade à floresta. Insinuou que nela era impossível manter a proibição do incesto. Além disso, a altura das árvores não permitia ver as mensagens divinas dos raios e dos trovões.
Com o tempo, a selva passou a ser o espaço para onde fogem os malfeitores, lugar onde nenhuma lei se aplica. Como a Amazônia legal é mais do que a metade do Brasil, muitos ignoram que ela é partilhada pela Colômbia, Peru, Bolívia, Venezuela, Suriname e Guiana. Nossas fronteiras têm perto de 11 mil quilômetros, uma extensão que mesmo a Índia e a China, com tanta gente, teriam dificuldade para patrulhar.
Uma pergunta importante: qual é o verdadeiro estado de destruição da floresta? A região produz 24 milhões de metros cúbicos de madeira, segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Desse total, 36% são exportados.
A derrubada, no entanto, não é apenas das árvores com valor comercial. Para chegar a elas, muitas vizinhas são atingidas e arrastadas. Seus galhos e folhas ficam pelo chão, potencializando incêndios.
Cerca de 83% da mata está mantida e 17% dela foi mexida intensamente. Portanto, a área a ser preservada ainda é muito grande e é vasculhada por satélites e aviões a serviço de institutos científicos.
O aparato conta com o equipamento do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), que custou 1,4 bilhão de dólares. Somente o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com sede na paulista São José dos Campos, elabora boletins diários com o número de queimadas e relatórios quinzenais sobre desmatamentos.
A sofisticação do controle no alto não significa que o Brasil resolveu as coisas no chão. Pelo contrário, o conhecimento do que se passa, sem os meios para determos a destruição, serve somente para aumentar a angústia.
No solo, são apenas 700 fiscais, cada um com a missão de vigiar um espaço inúmeras vezes maior que as suas possibilidades. O governo destinou 36 milhões de reais para a fiscalização, mas congelou um quarto da quantia - o dinheiro costuma acabar sempre no início da temporada das queimadas.
Outro aspecto complicado: a tecnofobia oficial coloca os computadores na gaveta. O projeto Sivam não distribuiu centenas de lap-tops, como estava previsto, para que os agentes informassem flagrantes de crimes contra a mata.
Também não são usados os palmtops, doados ao Ministério do Meio Ambiente, que tornariam mais ágil a multa contra madeireiros e fazendeiros que agem na ilegalidade. Assim, 12% das multas são formuladas com erro e 80% deixam de ser pagas.
De 539 milhões de reais, apenas 63 milhões foram recolhidos em 2004 e, destes, só 3 milhões voltaram para o Ibama.
O PAPEL DOS ESTRANGEIROS
O diálogo Lula-Bush limitou-se a uma olhada no mapa. No entanto, há muito o que conversar com os estrangeiros, pois deles também depende o futuro. Como consumidores, podem exigir que o mercado da madeira siga rumos sustentáveis.
Também podem colocar limites no comércio da soja - hoje plantada em área que já foi pasto e, antes disso, mata. Sobre a criação de gado, a cobrança é que seja feita com respeito às riquezas da floresta.
Finalmente, os estrangeiros - assim como nós - precisam compreender que as mudanças climáticas produzidas pelo estilo de vida moderno trazem até a seca para o paraíso das águas.
Mártires locais tentaram mudar o rumo das coisas. O líder dos seringueiros, Chico Mendes, morreu nos anos 80 defendendo os seringais invadidos pelos pecuaristas. Cada vez que começava um desmatamento, Chico e seus parceiros se colocavam na frente dos tratores, correntes e motosseras e impediam o corte.
Na época, discutia-se um novo caminho para a Amazônia, sem privilégios - os criadores de gado tinham ajuda do governo, porque eram considerados desbravadores. Depois da morte de Chico, foi criada uma reserva extrativista, que daria ao grupo a possibilidade de sobreviver da extração do látex. Mas o gado que combatiam acabou reaparecendo nas mãos dos próprios seringueiros, que compram cabeças para reforçar o orçamento.
Outra trajetória pedagógica foi a da freira Dorothy Stang, assassinada em fevereiro de 2005 em Anapu, no Pará. Ela lutou contra os grileiros, que se apossavam de terras.
O nome grileiro vem da prática de falsificar. Títulos de propriedades eram fabricados e fechados numa caixa cheia de grilos, que comiam o papel, deixando-o com aparência de velho. Dorothy protegia pequenos lavradores das margens da rodovia Transamazônica.
A história dessa povoação vem do tempo do governo militar. Os generais mandavam colonos para ocupar a Amazônia por questões de segurança nacional. Eles eram deixados à beira da estrada com um kit de ferramentas.
Depois chegaram os fazendeiros, que ganhavam propriedades ao fundo. Os grandes se aproximavam e expulsavam os pequenos com pressões e assassinatos. A disputa pela terra permanece. Estudiosos da Amazônia consideram esta a questão-chave: como regularizar as terras e reduzir a violência na selva?
O FOGO SE ALASTRA
No ano passado, os focos de incêndio aumentaram. Dessa vez, não foram provocados apenas pela limpeza de terrenos para o plantio. A principal vilã foi uma grande seca.
O rio Negro, que banha Manaus, se afastou 15 metros da margem, tornando-se estreito. Muitos povoados ficaram isolados, pois dependiam de barcos, que não podiam transitar. A seca revelou que a Amazônia, que ajuda a aquecer o planeta com suas queimadas, é vítima do aquecimento.
As circunstâncias que esquentaram as águas do Atlântico Norte, onde vários furacões tiveram origem, contribuíram para mudar o regime dos ventos, impedindo as chuvas na Amazônia, secando lagos, como o Rei, e matando toneladas de peixes, indispensáveis à cadeia alimentar, que tem na ponta o ser humano.
Há lugares que chamam mais a atenção. A bola da vez é a paraense Terra do Meio, quase do tamanho da Áustria. Entre as bacias do Xingu e do Iriri, representa um dos ecossistemas mais ricos da Amazônia.
O previsto asfaltamento da BR-163, que liga Cuiabá a Santarém e passa pela área, pode tensionar ainda mais a relação entre grileiros, madeireiros e fiscais, já que as terras vão ser valorizadas. O governo decidiu proteger a região criando uma unidade de conservação. Mas, num mundo tão vasto, os decretos raramente se impõem.
HOTÉIS PARA O DELEITE
É possível passar da Amazônia de tristes relatos para a Amazônia experimentada pessoalmente? A resposta é sim. Nem sempre os discursos transmitem a impressão que se tem ao sentir o calor e a umidade da floresta, ver seus bichos e plantas.
Visitei um dos seus hotéis confortáveis, o Ariau Amazon Towers. A 45 minutos de Manaus, navegando pelo Negro, ele já abrigou Bill Gates, da Microsoft. Esses hotéis oferecem comida e música típica, além de passeios em que se pode ver macacos pulando de galho em galho.
A passagem pela selva e pelas grandes cidades mostra que a Amazônia tem gente - são 20 milhões de pessoas. Todas as saídas para os problemas passam por uma tentativa de preservar combatendo a pobreza (ali o índice de desnutrição é de 72%) e implantar o desenvolvimento sustentável, o que não é fácil, já que a região é heterogênea.
Por isso se fala no zoneamento ecológico e econômico, indicando onde e o que se pode fazer. Um documento do Banco Mundial, logo após a posse de Lula, indicava que a Amazônia poderia avançar muito se houvesse um projeto envolvendo todos os personagens - incluindo os bad boys.
Esforço dessa envergadura dependeria de uma autoridade federal dedicada ao problema, que resolvesse ser uma espécie de avalista do processo. Os grandes debates não foram realizados nem apareceu a autoridade para coordenar os caminhos amazônicos.
Num momento em que as reservas de água, os microorganismos e as plantas têm valor incalculável e em que as mudanças climáticas preocupam o planeta, cresce a importância da área. Tornou-se um grande desafio para quem está vivo hoje: conseguiremos passar a floresta para as futuras gerações ou passaremos para a história como cavaleiros do apocalipse?
A FLORESTA GOLPEADA
• Três mil madeireiras cortam árvores na região. Muitas, na clandestinidade, usam motosserras, tr

















