MOBILIDADE
Foi mesmo um dia sem carro?
Campanha esquenta debates importantes em várias cidades, apesar de muitos carros saírem da garagem
Isabel Abreu Braga
Planeta Sustentável 25/09/2007
Com maior ou menor adesão da população, 58 cidades brasileiras participaram do Dia Mundial sem carro, que surgiu na França em 1998. Mesmo que muitos carros tenham saído das garagens, eventos esportivos e culturais espalhados pelas cidades trouxeram à tona muitas questões da vida urbana, do Norte ao Sul do país.
A pausa para reflexão sobre prejuízos da crescente frota de carros, a opção pelo transporte individual, a poluição, a falta de áreas verdes e de espaços para práticas de esportes pode, sim, servir de ponto de partida para o aumento da consciência dos cidadãos e do poder público, para que alternativas e soluções surjam para os outros 364 dias do ano. "Com certeza vários segmentos da sociedade criam novas idéias nesse momento de reflexão. E os projetos surgem com mais força. Até o prefeito está engajado", diz Vera Lúcia Gonçalves da Silva, do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis.
Neste ano, a capital catarinense teve a sua terceira edição do Dia Mundial Sem Carro. "Esse foi o ano de maior sucesso e, sem dúvida, a tendência é de crescimento". As ruas do centro foram fechadas para que pedestres, esportistas e ciclistas ocupassem os lugares dos carros e o uso do transporte público aumentou. Difícil contabilizar o número de pessoas que participou da programação da cidade, que contou com caminhada cultural pelo centro, jogo de basquete para deficientes e até apresentação da Escola de Ballet Bolshoi, no Largo da Catedral. "O que falta é espaço para que as pessoas possam viver a cultura e o seu contato com a cidade. Quando você caminha ou pedala, cria outra forma de ver a cidade", diz Vera. Florianópolis tem um carro para cada dois habitantes. Com cerca de 400 mil pessoas, a cidade tem projetos para desenvolver mais ciclovias e "mudar a cidade para as pessoas e não para o automóvel".
Existem, até, cidades onde a data 22 de setembro agora é lei, como Americana (SP), Paraná, Rio de Janeiro (RJ) e Belo Horizonte (MG). A capital mineira participa desde a primeira jornada brasileira do "Na Cidade Sem Meu Carro", que está na sétima edição. "A redução do número de carros não foi grande e a gente não tinha a ilusão de que o número ia ser significativamente menor. Mas a participação das pessoas e a criação do Comitê pela Mobilidade Sustentável vão além de um dia sem o meu carro", afirma Edurado Lucas, gerente de educação para o Trânsito da BHTrans. Duas ruas perto da Praça Savassi, ponto importante na região centro-sul de Belo Horizonte, foram fechadas para o trânsito de veículos. A paisagem cinza, de carros e asfalto, foi substituída por grama (natural!). Houve também um show de MPB, pedalada e manifestações para chamar a atenção do aumento da poluição veicular. A frota da cidade cresceu 4,5% somente este ano, tornando a cidade, que tem cerca de 2,4 milhões de habitantes, mais lenta - e mais poluída. "Tivemos cobertura da mídia e mídia espontânea. Essa discussão é muito importante", conta Lucas, que acredita que 15 mil pessoas passaram pela praça.
Em Porto Alegre, a data comemorativa foi cancelada por motivos de força maior: a chuva. Já no Rio de Janeiro, o sol favoreceu o passeio de cerca de 200 ciclistas, entre o Leblon e Copacabana. A CET- Rio fechou as ruas de acesso à orla e os ciclistas puderam entrar com suas bicicletas no metrô. No fim do passeio, em Copacabana, a Secretaria de Saúde montou um espaço para orientar as pessoas sobre o benefício da caminhada e da bicicleta, não somente para a saúde como, também, para o meio ambiente. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente também participou das atividades e distribuiu mudas de plantas.
O Rio tem cerca de 140 quilômetros de ciclovias. Enquanto isso, São Paulo tem cerca de 23,5 quilômetros. "O Dia Mundial Sem Carro é muito simbólico, mas ajuda a pautar questões muito importantes, como a segurança dos pedestres, o transporte público, a má qualidade do diesel e a falta de ciclovias" diz Maurício Broinizi, do movimento Nossa São Paulo: Outra Cidade.
Numa cidade com uma frota de cerca de 5,8 milhões de veículos e transporte público que deixa a desejar não é fácil fazer uma campanha como essa. "A Secretaria do Verde e do Meio Ambiente participou ativamente, mas faltou o envolvimento da prefeitura, como acontece em outras cidades do mundo", afirma Broinizi. A capital paulista foi palco de vários eventos difundidos pela cidade. Cinco importantes vias foram fechadas, entre elas o Elevado Costa e Silva, a rua Leôncio de Carvalho, região da Avenida Paulista, a rua Maria José, no Bixiga, a rua Colônia Nova, no Jardim Ângela e a Belmiro Braga, na Vila Madalena. Apresentações de teatro, assim como jogos como pebolim e truco, skate, shows, palestras, passeios a pé e de bicicleta estiveram distribuídos nesses e em outros endereços da capital.
O balanço quantitativo do Dia Mundial Sem Carro em São Paulo será feito em parceria com o IBOPE e deve ser liberado na semana que vem. Estima-se que cerca de 500 pessoas participaram da passeata na região da Avenida Paulista, que reúne mais de 2 milhões de pessoas para a virada do ano. O show de encerramento, na rua Leôncio de Carvalho, contou com a presença de cerca de 1500 pessoas.
Vários pontos da cidade apresentaram lentidão, com até 5 km de congestionamento registrados pela CET (Companhia de Engenharia de Trânsito). Em alguns horários de pico, quem passou pelas Avenida dos Bandeirantes, a Radial Leste e Avenida do Estado e Marginal Tietê, ficou parado no trânsito, um pouco frustrante para um Dia Mundial Sem Carro.
Decepcionante também foi o número de ciclistas que aderiram ao passeio em Belém, no Pará. "Reunimos cerca de 50 a 60 ciclistas, mas esperávamos 300", afirma Silvio Gustavo, da Eart (Equipe de Aventura Ratos de Trilha), que este ano organizou a campanha na cidade. "A gente organizou em cima da hora. Foi difícil conseguir patrocínio. No ano que vem, vamos começar a pensar nesse dia seis meses antes", completa ele.
Belém não acertou muito na divulgação do evento. São Paulo participou pela terceira vez da iniciativa, mas foi a primeira com o apoio de diversas entidades reunidas no movimento Nossa São Paulo: Outra Cidade. Em Porto Alegre, o tempo não ajudou em nada. Entre as outras 55 cidades que tiveram o seu Dia Mundial Sem Carro, certamente há algum detalhe, seja do projeto, do patrocínio ou da divulgação, que pode ser melhorado.
Mas, se, pelo menos, o dia 22 de setembro de 2007 servir de experiência para que a oitava edição da campanha no Brasil tenha menos carros nas ruas já terá sido um bom ganho. Melhor ainda se esse dia vier para alimentar debates de qualidade de vida, mobilidade e poluição pelos próximos 364 dias.
Com maior ou menor adesão da população, 58 cidades brasileiras participaram do Dia Mundial sem carro, que surgiu na França em 1998. Mesmo que muitos carros tenham saído das garagens, eventos esportivos e culturais espalhados pelas cidades trouxeram à tona muitas questões da vida urbana, do Norte ao Sul do país.
A pausa para reflexão sobre prejuízos da crescente frota de carros, a opção pelo transporte individual, a poluição, a falta de áreas verdes e de espaços para práticas de esportes pode, sim, servir de ponto de partida para o aumento da consciência dos cidadãos e do poder público, para que alternativas e soluções surjam para os outros 364 dias do ano. "Com certeza vários segmentos da sociedade criam novas idéias nesse momento de reflexão. E os projetos surgem com mais força. Até o prefeito está engajado", diz Vera Lúcia Gonçalves da Silva, do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis.
Neste ano, a capital catarinense teve a sua terceira edição do Dia Mundial Sem Carro. "Esse foi o ano de maior sucesso e, sem dúvida, a tendência é de crescimento". As ruas do centro foram fechadas para que pedestres, esportistas e ciclistas ocupassem os lugares dos carros e o uso do transporte público aumentou. Difícil contabilizar o número de pessoas que participou da programação da cidade, que contou com caminhada cultural pelo centro, jogo de basquete para deficientes e até apresentação da Escola de Ballet Bolshoi, no Largo da Catedral. "O que falta é espaço para que as pessoas possam viver a cultura e o seu contato com a cidade. Quando você caminha ou pedala, cria outra forma de ver a cidade", diz Vera. Florianópolis tem um carro para cada dois habitantes. Com cerca de 400 mil pessoas, a cidade tem projetos para desenvolver mais ciclovias e "mudar a cidade para as pessoas e não para o automóvel".
Existem, até, cidades onde a data 22 de setembro agora é lei, como Americana (SP), Paraná, Rio de Janeiro (RJ) e Belo Horizonte (MG). A capital mineira participa desde a primeira jornada brasileira do "Na Cidade Sem Meu Carro", que está na sétima edição. "A redução do número de carros não foi grande e a gente não tinha a ilusão de que o número ia ser significativamente menor. Mas a participação das pessoas e a criação do Comitê pela Mobilidade Sustentável vão além de um dia sem o meu carro", afirma Edurado Lucas, gerente de educação para o Trânsito da BHTrans. Duas ruas perto da Praça Savassi, ponto importante na região centro-sul de Belo Horizonte, foram fechadas para o trânsito de veículos. A paisagem cinza, de carros e asfalto, foi substituída por grama (natural!). Houve também um show de MPB, pedalada e manifestações para chamar a atenção do aumento da poluição veicular. A frota da cidade cresceu 4,5% somente este ano, tornando a cidade, que tem cerca de 2,4 milhões de habitantes, mais lenta - e mais poluída. "Tivemos cobertura da mídia e mídia espontânea. Essa discussão é muito importante", conta Lucas, que acredita que 15 mil pessoas passaram pela praça.
Em Porto Alegre, a data comemorativa foi cancelada por motivos de força maior: a chuva. Já no Rio de Janeiro, o sol favoreceu o passeio de cerca de 200 ciclistas, entre o Leblon e Copacabana. A CET- Rio fechou as ruas de acesso à orla e os ciclistas puderam entrar com suas bicicletas no metrô. No fim do passeio, em Copacabana, a Secretaria de Saúde montou um espaço para orientar as pessoas sobre o benefício da caminhada e da bicicleta, não somente para a saúde como, também, para o meio ambiente. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente também participou das atividades e distribuiu mudas de plantas.
O Rio tem cerca de 140 quilômetros de ciclovias. Enquanto isso, São Paulo tem cerca de 23,5 quilômetros. "O Dia Mundial Sem Carro é muito simbólico, mas ajuda a pautar questões muito importantes, como a segurança dos pedestres, o transporte público, a má qualidade do diesel e a falta de ciclovias" diz Maurício Broinizi, do movimento Nossa São Paulo: Outra Cidade.
Numa cidade com uma frota de cerca de 5,8 milhões de veículos e transporte público que deixa a desejar não é fácil fazer uma campanha como essa. "A Secretaria do Verde e do Meio Ambiente participou ativamente, mas faltou o envolvimento da prefeitura, como acontece em outras cidades do mundo", afirma Broinizi. A capital paulista foi palco de vários eventos difundidos pela cidade. Cinco importantes vias foram fechadas, entre elas o Elevado Costa e Silva, a rua Leôncio de Carvalho, região da Avenida Paulista, a rua Maria José, no Bixiga, a rua Colônia Nova, no Jardim Ângela e a Belmiro Braga, na Vila Madalena. Apresentações de teatro, assim como jogos como pebolim e truco, skate, shows, palestras, passeios a pé e de bicicleta estiveram distribuídos nesses e em outros endereços da capital.
O balanço quantitativo do Dia Mundial Sem Carro em São Paulo será feito em parceria com o IBOPE e deve ser liberado na semana que vem. Estima-se que cerca de 500 pessoas participaram da passeata na região da Avenida Paulista, que reúne mais de 2 milhões de pessoas para a virada do ano. O show de encerramento, na rua Leôncio de Carvalho, contou com a presença de cerca de 1500 pessoas.
Vários pontos da cidade apresentaram lentidão, com até 5 km de congestionamento registrados pela CET (Companhia de Engenharia de Trânsito). Em alguns horários de pico, quem passou pelas Avenida dos Bandeirantes, a Radial Leste e Avenida do Estado e Marginal Tietê, ficou parado no trânsito, um pouco frustrante para um Dia Mundial Sem Carro.
Decepcionante também foi o número de ciclistas que aderiram ao passeio em Belém, no Pará. "Reunimos cerca de 50 a 60 ciclistas, mas esperávamos 300", afirma Silvio Gustavo, da Eart (Equipe de Aventura Ratos de Trilha), que este ano organizou a campanha na cidade. "A gente organizou em cima da hora. Foi difícil conseguir patrocínio. No ano que vem, vamos começar a pensar nesse dia seis meses antes", completa ele.
Belém não acertou muito na divulgação do evento. São Paulo participou pela terceira vez da iniciativa, mas foi a primeira com o apoio de diversas entidades reunidas no movimento Nossa São Paulo: Outra Cidade. Em Porto Alegre, o tempo não ajudou em nada. Entre as outras 55 cidades que tiveram o seu Dia Mundial Sem Carro, certamente há algum detalhe, seja do projeto, do patrocínio ou da divulgação, que pode ser melhorado.
Mas, se, pelo menos, o dia 22 de setembro de 2007 servir de experiência para que a oitava edição da campanha no Brasil tenha menos carros nas ruas já terá sido um bom ganho. Melhor ainda se esse dia vier para alimentar debates de qualidade de vida, mobilidade e poluição pelos próximos 364 dias.