Pouco peixe, muito sushi
A próxima vítima
Pesca predatória reduz os estoques do atum-azul a 10% do que eram e os japoneses temem pelo fim de seu prato predileto
Rosana Zakabi
Revista Veja - 04/07/2007
Nos últimos tempos, a pesca predatória nos oceanos reduziu o estoque de vários peixes de forma dramática. No Mediterrâneo, doze tipos de tubarão estão comercialmente esgotados. No Mar do Norte, o bacalhau praticamente desapareceu. Agora, a ameaça recai sobre um dos peixes mais apreciados do mundo, o atum-azul, cuja carne macia e saborosa - principalmente na região da barriga - é usada na confecção dos melhores sushis e sashimis.
A pesca do atum-azul cresceu em proporção geométrica na década de 90, à medida que a culinária japonesa se popularizou na Europa e nos Estados Unidos. Para localizarem os cardumes e aumentarem o volume de captura do atum, empresas pesqueiras passaram a lançar mão de recursos tecnológicos como sonares, aviões de reconhecimento e satélites. Ao mesmo tempo, surgiram em vários países do Mediterrâneo as fazendas de cultivo do atum-azul, para onde são levados os cardumes, vivos, após a captura. Nelas, os peixes permanecem dentro de gaiolas, em processo de engorda, até atingir o peso ideal para ser abatidos e comercializados.
Ocorre que a pesca em excesso não deixa tempo para que os estoques de atum-azul possam se renovar. Os exemplares da espécie levam uma década para se tornar aptos a procriar. Na maioria das vezes, são capturados muito antes disso.
As duas principais áreas de pesca do atum-azul são o Mediterrâneo e o Atlântico. Em ambas as regiões, estima-se que o estoque do peixe esteja hoje reduzido a 10% do que era em meados do século passado. Nos oceanos Pacífico e Índico, nos quais os japoneses tradicionalmente capturavam o atum-azul para uso doméstico, a espécie está quase extinta. Nas costas da Escandinávia, ela já desapareceu. Nas fazendas de cultivo, a quantidade de atum-azul estocada caiu 25% no ano passado em relação a 2005. Seis fazendas na Espanha tiveram de encerrar as operações por falta do peixe.
No Japão, o atum-azul foi descoberto como ingrediente inigualável na composição de sushis no início dos anos 60, mas seu consumo explodiu no fim da década de 90. (Saiba mais sobre o atum-azul). Segundo um estudo realizado pelo governo japonês em 2003, dois fatores contribuíram para isso: o aumento no número de mulheres que trabalham fora e no de pessoas que moram sozinhas. O levantamento mostrou que, entre os japoneses, os gastos com alimentos para preparar em casa caíram 30% na última década. Em compensação, o consumo de sushi em restaurantes fast-food aumentou 33% no mesmo período. Em supermercados e lojas de conveniência que vendem bandejas de sushis e sashimis prontos, o crescimento das vendas foi de 70%.
O risco de faltar atum-azul tem deixado os japoneses alarmados. Eles consomem um quarto de todos os exemplares da espécie pescados no mundo e a consideram uma instituição cultural do país. "Sushi sem atum não é sushi", diz Tadashi Yamagata, vice-presidente do sindicato de sushimen do Japão. "É como se os Estados Unidos ficassem sem hambúrguer", ele compara. Nos últimos meses, o preço do quilo de atum disparou no mercado japonês. O peixe já custa 30% mais do que há um ano.
Para a preparação dos sushis, muitos restaurantes japoneses passaram a usar ingredientes alternativos como abacate e cream cheese - este bastante utilizado nos Estados Unidos. Numa medida mais drástica, os chefs estudam trocar atum por carne de cervo defumada e por carne de cavalo crua. "Já experimentamos fazer sushi com carne de cavalo no passado e deu certo", diz Shigezaku Ozoe, dono do restaurante Fukuzushi, em Tóquio. "É uma carne macia, fácil de morder e que não tem cheiro. Se o pior acontecer, poderemos tentar utilizar essas carnes em substituição ao atum", diz Ozoe.
Enquanto os japoneses antevêem a perspectiva de faltar atum-azul em suas mesas, o Brasil não tem com que se preocupar. Os restaurantes japoneses no país usam outros três tipos de atum, o albacora-de-laje, o albacora-bandolim e o popular atum-branco, o mais encontrado em feiras e supermercados. "Há fartos cardumes dessas espécies nas regiões Sudeste e Sul do país, em alto-mar", informa Alberto Ferreira de Amorim, professor de biologia marinha do Instituto de Pesca do Estado de São Paulo.
Em 2002, a Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico (ICCAT), que estipula regras para a pesca do atum-azul, determinou que a indústria pesqueira não poderia capturar mais do que 32.000 toneladas da espécie no Atlântico e no Mediterrâneo por ano. Segundo as entidades ambientalistas, essa cota não foi respeitada. Estima-se que, nos últimos dois anos, o total de atum capturado tenha superado o limite estabelecido pela entidade em 40%. Em novembro do ano passado, o ICCAT reduziu ainda mais o limite na tentativa de frear a pesca em excesso.
Até 2010, só será permitido pescar 25.500 toneladas anuais. Como parte do plano de recuperação dos cardumes de atum-azul nos oceanos, a União Européia decidiu no mês passado colocar inspetores nas áreas de pesca, para evitar os abusos. Os países europeus também prometeram banir a utilização de aviões localizadores na pesca do atum. Segundo os ambientalistas, essas medidas não vão resolver o problema. Diz Sergi Tudela, que comanda um programa de pesca do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) no Mediterrâneo: "As medidas não promovem um plano de recuperação, são apenas um paliativo. O colapso do atum-azul parece inevitável".
Nos últimos tempos, a pesca predatória nos oceanos reduziu o estoque de vários peixes de forma dramática. No Mediterrâneo, doze tipos de tubarão estão comercialmente esgotados. No Mar do Norte, o bacalhau praticamente desapareceu. Agora, a ameaça recai sobre um dos peixes mais apreciados do mundo, o atum-azul, cuja carne macia e saborosa - principalmente na região da barriga - é usada na confecção dos melhores sushis e sashimis.
A pesca do atum-azul cresceu em proporção geométrica na década de 90, à medida que a culinária japonesa se popularizou na Europa e nos Estados Unidos. Para localizarem os cardumes e aumentarem o volume de captura do atum, empresas pesqueiras passaram a lançar mão de recursos tecnológicos como sonares, aviões de reconhecimento e satélites. Ao mesmo tempo, surgiram em vários países do Mediterrâneo as fazendas de cultivo do atum-azul, para onde são levados os cardumes, vivos, após a captura. Nelas, os peixes permanecem dentro de gaiolas, em processo de engorda, até atingir o peso ideal para ser abatidos e comercializados.
Ocorre que a pesca em excesso não deixa tempo para que os estoques de atum-azul possam se renovar. Os exemplares da espécie levam uma década para se tornar aptos a procriar. Na maioria das vezes, são capturados muito antes disso.
As duas principais áreas de pesca do atum-azul são o Mediterrâneo e o Atlântico. Em ambas as regiões, estima-se que o estoque do peixe esteja hoje reduzido a 10% do que era em meados do século passado. Nos oceanos Pacífico e Índico, nos quais os japoneses tradicionalmente capturavam o atum-azul para uso doméstico, a espécie está quase extinta. Nas costas da Escandinávia, ela já desapareceu. Nas fazendas de cultivo, a quantidade de atum-azul estocada caiu 25% no ano passado em relação a 2005. Seis fazendas na Espanha tiveram de encerrar as operações por falta do peixe.
No Japão, o atum-azul foi descoberto como ingrediente inigualável na composição de sushis no início dos anos 60, mas seu consumo explodiu no fim da década de 90. (Saiba mais sobre o atum-azul). Segundo um estudo realizado pelo governo japonês em 2003, dois fatores contribuíram para isso: o aumento no número de mulheres que trabalham fora e no de pessoas que moram sozinhas. O levantamento mostrou que, entre os japoneses, os gastos com alimentos para preparar em casa caíram 30% na última década. Em compensação, o consumo de sushi em restaurantes fast-food aumentou 33% no mesmo período. Em supermercados e lojas de conveniência que vendem bandejas de sushis e sashimis prontos, o crescimento das vendas foi de 70%.
O risco de faltar atum-azul tem deixado os japoneses alarmados. Eles consomem um quarto de todos os exemplares da espécie pescados no mundo e a consideram uma instituição cultural do país. "Sushi sem atum não é sushi", diz Tadashi Yamagata, vice-presidente do sindicato de sushimen do Japão. "É como se os Estados Unidos ficassem sem hambúrguer", ele compara. Nos últimos meses, o preço do quilo de atum disparou no mercado japonês. O peixe já custa 30% mais do que há um ano.
Para a preparação dos sushis, muitos restaurantes japoneses passaram a usar ingredientes alternativos como abacate e cream cheese - este bastante utilizado nos Estados Unidos. Numa medida mais drástica, os chefs estudam trocar atum por carne de cervo defumada e por carne de cavalo crua. "Já experimentamos fazer sushi com carne de cavalo no passado e deu certo", diz Shigezaku Ozoe, dono do restaurante Fukuzushi, em Tóquio. "É uma carne macia, fácil de morder e que não tem cheiro. Se o pior acontecer, poderemos tentar utilizar essas carnes em substituição ao atum", diz Ozoe.
Enquanto os japoneses antevêem a perspectiva de faltar atum-azul em suas mesas, o Brasil não tem com que se preocupar. Os restaurantes japoneses no país usam outros três tipos de atum, o albacora-de-laje, o albacora-bandolim e o popular atum-branco, o mais encontrado em feiras e supermercados. "Há fartos cardumes dessas espécies nas regiões Sudeste e Sul do país, em alto-mar", informa Alberto Ferreira de Amorim, professor de biologia marinha do Instituto de Pesca do Estado de São Paulo.
Em 2002, a Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico (ICCAT), que estipula regras para a pesca do atum-azul, determinou que a indústria pesqueira não poderia capturar mais do que 32.000 toneladas da espécie no Atlântico e no Mediterrâneo por ano. Segundo as entidades ambientalistas, essa cota não foi respeitada. Estima-se que, nos últimos dois anos, o total de atum capturado tenha superado o limite estabelecido pela entidade em 40%. Em novembro do ano passado, o ICCAT reduziu ainda mais o limite na tentativa de frear a pesca em excesso.
Até 2010, só será permitido pescar 25.500 toneladas anuais. Como parte do plano de recuperação dos cardumes de atum-azul nos oceanos, a União Européia decidiu no mês passado colocar inspetores nas áreas de pesca, para evitar os abusos. Os países europeus também prometeram banir a utilização de aviões localizadores na pesca do atum. Segundo os ambientalistas, essas medidas não vão resolver o problema. Diz Sergi Tudela, que comanda um programa de pesca do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) no Mediterrâneo: "As medidas não promovem um plano de recuperação, são apenas um paliativo. O colapso do atum-azul parece inevitável".