Poluição
O guardião da Atmosfera
Frank Rowland descobriu os danos ao ozônio. Agora luta contra o aquecimento global
Ronaldo França
Revista Veja - 25/04/2007
[img01] Quem acha que já deu uma importante contribuição ao planeta, como plantar uma árvore ou economizar água no banho, precisa conhecer o químico americano Frank Sherwood Rowland, prêmio Nobel de Química de 1995. Seus estudos, na década de 70, em parceria com o químico mexicano Mario Molina, levaram à conclusão de que a humanidade estava causando danos à camada de ozônio, uma década antes de o buraco sobre a Antártica ser descoberto. Graças a ele, o mundo conheceu o diagnóstico e a cura a tempo de reagir. O fim das emissões do gás clorofluorcarbono (CFC), causador dos danos, foi determinado por um tratado internacional, o protocolo de Montreal, em 1987. O problema caminha agora para uma solução. Aos 79 anos, Rowland continua estudando a atmosfera e alerta que as conseqüências já anunciadas do aquecimento global são imprevisíveis. Ele tem autoridade para isso. "Molina e eu não previmos o buraco no ozônio. Isso era algo totalmente inesperado quando publicamos nosso artigo sobre o assunto", diz.
Professor de química na Universidade da Califórnia, Rowland é um cidadão global. Não no sentido em que se costuma usar o termo, para identificar quem passa a vida entre um continente e outro, fechando negócios ou freqüentando festas. Ele vive no condado de Corona del Mar, também na Califórnia, mas seu ambiente predileto é o globo terrestre, objeto de seus estudos há 34 anos. Rowland e Molina descobriram que o clorofluorcarbono, em contato com a radiação solar, provocava a redução das moléculas da camada de ozônio, a chamada ozonosfera. O CFC era produzido pelo homem e tinha na época apenas aplicações como gás de geladeira ou em sprays para cabelo. Algo tido, então, como inofensivo, pois o volume fabricado era pequeno. Coube a eles, portanto, a tarefa de informar que o ser humano estava estragando o planeta. No momento, Rowland monitora a quantidade de metano na atmosfera. Esse é o segundo gás na lista dos que acentuam o efeito estufa. Perde apenas para o famigerado dióxido de carbono, que brota dos canos de descarga dos automóveis e das chaminés das fábricas. E tem boas notícias a dar. "A concentração de metano não tem aumentado nos últimos anos", diz.
Quando ele fala, o mundo inteiro ouve. Suas descobertas, em 1974, tiveram receptividade imediata nos Estados Unidos. O artigo de Rowland e Molina foi aceito pela prestigiosa revista Nature e causou comoção nacional. Imediatamente, iniciou-se uma investigação federal para averiguar o problema. Quatro anos depois, os Estados Unidos proibiram a fabricação do CFC no país. Quando o buraco na camada de ozônio foi descoberto, em 1985, por cientistas ingleses, o mundo viu as hipóteses dos dois cientistas se confirmarem. A aceitação às suas teses foi facilitada graças a outro cientista. O químico holandês Paul Crutzen, ao estudar o efeito de outro gás, o óxido nitroso, já havia feito um alerta sobre os problemas com a camada de ozônio. Não teve o mesmo impacto, mas abriu caminho. Tanto que Crutzen dividiu o Prêmio Nobel de Química com Rowland e Molina. Desde então, Rowland não parou. Na próxima semana, será uma das estrelas do Fórum de Desenvolvimento Sustentável, que a Associação das Nações Unidas-Brasil, braço civil da ONU no país, realizará em Nova York. Antes, conversou com VEJA sobre as mudanças climáticas. O que ele diz:
A CULPA É DO HOMEM
Somos claramente responsáveis pelo aumento das emissões de dióxido de carbono (CO2), que é o fator mais importante na mudança do clima. Acho que temos de atentar para o fato de que pela primeira vez a humanidade está se dando conta de que pode realmente influenciar as coisas em bases globais, de uma forma como nunca fizera antes.
AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Os problemas que estão por vir são imprevisíveis. Vou dar um exemplo: o abeto-vermelho (árvore conífera rica na produção de resina, comum nas florestas temperadas) tem crescido por séculos em Kenai, península do sul do Alasca. As árvores começaram a ser atacadas por um tipo de inseto. Isso se tornou um problema, mas nunca havia chegado a ponto de ser uma ameaça maior, porque boa parte dos insetos morria nos meses mais frios. Quando o Alasca começou a esquentar um pouco mais, os escaravelhos deixaram de morrer no inverno e eliminaram completamente as árvores de abeto. Para que prevíssemos uma conseqüência como essa, precisaríamos de um modelo meteorológico e biológico muito complexo.
O INIMIGO É O CO2
Estudamos as mudanças que vêm ocorrendo na troposfera, a parte mais baixa da atmosfera. Há mais ou menos sete anos não vemos um aumento significativo de metano. Não sabemos por que isso aconteceu, mas é uma mudança importante do ponto de vista do aquecimento global. Por outro lado, a concentração de CO2 tem crescido mais rapidamente do que na década de 1960 por causa da queima de carvão, gás e petróleo. Esse é nosso grande problema.
OS EUA TERÃO DE REVER SUA POSIÇÃO
A visão da população americana é que será necessário fazer alguma coisa, mesmo que o governo não faça. Será muito difícil para os Estados Unidos manter sua posição se um número substancial de pessoas e grandes corporações mudarem sua posição, mas as corporações realmente grandes, na maior parte, lidam com os combustíveis fósseis. E até agora a maioria dessas empresas está protelando a tomada de medidas a esse respeito.
UM RECADO AOS CÉTICOS
Uma coisa que se dizia repetidamente quando eu e Mario Molina publicamos nosso primeiro artigo era que o mundo tem tamanha magnitude que somente um idiota acreditaria que as ações dos seres humanos poderiam ter algum efeito visível. E que apenas pessoas duplamente idiotas poderiam sugerir que sprays para cabelo contribuiriam para esse efeito.
O DEVER DE CASA
Se entendermos o planeta suficientemente bem, talvez possamos encontrar caminhos que nos levem a um resultado positivo. É como devemos proceder com relação ao aquecimento global e às mudanças climáticas. Enquanto isso, o que nos resta fazer é reduzir as emissões de CO2.
[img01] Quem acha que já deu uma importante contribuição ao planeta, como plantar uma árvore ou economizar água no banho, precisa conhecer o químico americano Frank Sherwood Rowland, prêmio Nobel de Química de 1995. Seus estudos, na década de 70, em parceria com o químico mexicano Mario Molina, levaram à conclusão de que a humanidade estava causando danos à camada de ozônio, uma década antes de o buraco sobre a Antártica ser descoberto. Graças a ele, o mundo conheceu o diagnóstico e a cura a tempo de reagir. O fim das emissões do gás clorofluorcarbono (CFC), causador dos danos, foi determinado por um tratado internacional, o protocolo de Montreal, em 1987. O problema caminha agora para uma solução. Aos 79 anos, Rowland continua estudando a atmosfera e alerta que as conseqüências já anunciadas do aquecimento global são imprevisíveis. Ele tem autoridade para isso. "Molina e eu não previmos o buraco no ozônio. Isso era algo totalmente inesperado quando publicamos nosso artigo sobre o assunto", diz.
Professor de química na Universidade da Califórnia, Rowland é um cidadão global. Não no sentido em que se costuma usar o termo, para identificar quem passa a vida entre um continente e outro, fechando negócios ou freqüentando festas. Ele vive no condado de Corona del Mar, também na Califórnia, mas seu ambiente predileto é o globo terrestre, objeto de seus estudos há 34 anos. Rowland e Molina descobriram que o clorofluorcarbono, em contato com a radiação solar, provocava a redução das moléculas da camada de ozônio, a chamada ozonosfera. O CFC era produzido pelo homem e tinha na época apenas aplicações como gás de geladeira ou em sprays para cabelo. Algo tido, então, como inofensivo, pois o volume fabricado era pequeno. Coube a eles, portanto, a tarefa de informar que o ser humano estava estragando o planeta. No momento, Rowland monitora a quantidade de metano na atmosfera. Esse é o segundo gás na lista dos que acentuam o efeito estufa. Perde apenas para o famigerado dióxido de carbono, que brota dos canos de descarga dos automóveis e das chaminés das fábricas. E tem boas notícias a dar. "A concentração de metano não tem aumentado nos últimos anos", diz.
Quando ele fala, o mundo inteiro ouve. Suas descobertas, em 1974, tiveram receptividade imediata nos Estados Unidos. O artigo de Rowland e Molina foi aceito pela prestigiosa revista Nature e causou comoção nacional. Imediatamente, iniciou-se uma investigação federal para averiguar o problema. Quatro anos depois, os Estados Unidos proibiram a fabricação do CFC no país. Quando o buraco na camada de ozônio foi descoberto, em 1985, por cientistas ingleses, o mundo viu as hipóteses dos dois cientistas se confirmarem. A aceitação às suas teses foi facilitada graças a outro cientista. O químico holandês Paul Crutzen, ao estudar o efeito de outro gás, o óxido nitroso, já havia feito um alerta sobre os problemas com a camada de ozônio. Não teve o mesmo impacto, mas abriu caminho. Tanto que Crutzen dividiu o Prêmio Nobel de Química com Rowland e Molina. Desde então, Rowland não parou. Na próxima semana, será uma das estrelas do Fórum de Desenvolvimento Sustentável, que a Associação das Nações Unidas-Brasil, braço civil da ONU no país, realizará em Nova York. Antes, conversou com VEJA sobre as mudanças climáticas. O que ele diz:
A CULPA É DO HOMEM
Somos claramente responsáveis pelo aumento das emissões de dióxido de carbono (CO2), que é o fator mais importante na mudança do clima. Acho que temos de atentar para o fato de que pela primeira vez a humanidade está se dando conta de que pode realmente influenciar as coisas em bases globais, de uma forma como nunca fizera antes.
AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Os problemas que estão por vir são imprevisíveis. Vou dar um exemplo: o abeto-vermelho (árvore conífera rica na produção de resina, comum nas florestas temperadas) tem crescido por séculos em Kenai, península do sul do Alasca. As árvores começaram a ser atacadas por um tipo de inseto. Isso se tornou um problema, mas nunca havia chegado a ponto de ser uma ameaça maior, porque boa parte dos insetos morria nos meses mais frios. Quando o Alasca começou a esquentar um pouco mais, os escaravelhos deixaram de morrer no inverno e eliminaram completamente as árvores de abeto. Para que prevíssemos uma conseqüência como essa, precisaríamos de um modelo meteorológico e biológico muito complexo.
O INIMIGO É O CO2
Estudamos as mudanças que vêm ocorrendo na troposfera, a parte mais baixa da atmosfera. Há mais ou menos sete anos não vemos um aumento significativo de metano. Não sabemos por que isso aconteceu, mas é uma mudança importante do ponto de vista do aquecimento global. Por outro lado, a concentração de CO2 tem crescido mais rapidamente do que na década de 1960 por causa da queima de carvão, gás e petróleo. Esse é nosso grande problema.
OS EUA TERÃO DE REVER SUA POSIÇÃO
A visão da população americana é que será necessário fazer alguma coisa, mesmo que o governo não faça. Será muito difícil para os Estados Unidos manter sua posição se um número substancial de pessoas e grandes corporações mudarem sua posição, mas as corporações realmente grandes, na maior parte, lidam com os combustíveis fósseis. E até agora a maioria dessas empresas está protelando a tomada de medidas a esse respeito.
UM RECADO AOS CÉTICOS
Uma coisa que se dizia repetidamente quando eu e Mario Molina publicamos nosso primeiro artigo era que o mundo tem tamanha magnitude que somente um idiota acreditaria que as ações dos seres humanos poderiam ter algum efeito visível. E que apenas pessoas duplamente idiotas poderiam sugerir que sprays para cabelo contribuiriam para esse efeito.
O DEVER DE CASA
Se entendermos o planeta suficientemente bem, talvez possamos encontrar caminhos que nos levem a um resultado positivo. É como devemos proceder com relação ao aquecimento global e às mudanças climáticas. Enquanto isso, o que nos resta fazer é reduzir as emissões de CO2.