Poluição
Águas claras
Cristalina, refrescante, necessária, essencial. A água doce que nos mata a sede já é considerada um bem tão precioso quanto o petróleo e o ouro. O Brasil tem essa riqueza. Mas não de sobra. Precisamos cuidar desse nosso tesouro: assim ele durará para sempre
Por Ana Holanda
Revista Bons Fluídos - 04/2006
[img01] Desde pequenos aprendemos lições valiosas sobre a água. Em nosso corpo, 70% é líquido. A água compõe tudo o que é vivo - as plantas, os animais - e também, direta ou indiretamente, o que não é. Só para lembrar: no processo de produção de um carro a um lápis, ela está presente. Mas será que as reservas são suficientes para continuar garantindo a vida? No século 20, a população mundial cresceu três vezes, e o consumo de água, seis. Segundo José Machado, diretor presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), ela é o petróleo deste século. "Especula-se até que a água venha a se tornar uma commodity, um bem em estado bruto negociado no mercado internacional, como o trigo, a carne e mesmo o ouro", conta.
Dádiva a ser cultivada
Essa riqueza deveria ser reverenciada diariamente, mas não é isso que se observa na prática: 45% de toda água distribuída pelo sistema público é desperdiçada em vazamentos no próprio sistema de distribuição ou em ligações clandestinas.
Outra questão que tem preocupado ambientalistas é a qualidade do líqüido que sairá das torneiras nos próximos 20 anos. A contaminação de rios e lagos e o consumo exagerado devem comprometer nossa vida lá na frente. A água pode até não acabar, mas a limpa, sim, corre o risco de se esgotar. Isso porque os custos para tratá-la se elevam cada vez mais devido ao excesso de poluentes.
Você sabia que...
Os oceanos contêm 97,4% da água do planeta, as calotas polares, 2%, e apenas 0,6% é doce. O Brasil tem 12% da água doce superficial do mundo - e a crença de que ela nunca faltará. "Essa cultura da abundância vem sendo disseminada há gerações", fala a arquiteta e urbanista Marussia Whatley, coordenadora do Programa de Mananciais do Instituto Sócio Ambiental, de São Paulo. Um dado preocupante é que 80% dos esgotos domésticos brasileiros vão para os rios sem tratamento. "Em São Paulo, o rio Ipiranga, citado no Hino Nacional, está debaixo da terra, canalizado e cheio de esgoto", diz Marussia. Pior, apenas 33,5% das casas no Brasil têm rede de esgoto e, deste, 64,7% não é tratado - vai para os rios, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A degradação das águas é um processo rápido e difícil de reverter.
Quase nunca pensamos na natureza como um sistema em que todos os fatores estão entrelaçados, porém a ocupação dos terrenos nas áreas de mananciais - e a conseqüente destruição das matas - influencia a quantidade e a qualidade da água que chega a nossas torneiras. A vegetação funciona como um filtro, que ajuda a conter as impurezas. Somem-se a isso os resíduos do lixo das indústrias e os agrotóxicos usados nas plantações. Toda essa química não contamina só os alimentos mas também o solo e os lençóis freáticos. "As soluções para esses problemas dependem das políticas de saneamento e de maiores investimentos na área. Mas cada um pode fazer sua parte. Pequenas mudanças de hábito, como reduzir o tempo do banho ou não usar água para lavar a calçada, evitam o desperdício", lembra Marussia.
Bons exemplos
Nos quatro cantos do Brasil, despontam ações de educação ambiental para tentar reverter a tendência à escassez. No rio São Francisco, um importante trabalho desenvolvido pela Secretaria do Planejamento do Estado da Bahia vem conscientizando as várias comunidades ribeirinhas que conservar as águas tem relação direta com a própria sobrevivência.
"Nossa idéia com esse trabalho é mostrar como a qualidade da água influencia a vida de cada pessoa. Não existe ser vivo, dos peixes às plantas aquáticas, que resista a tanta contaminação", afirma Antonio Alberto Valença, um dos coordenadores do projeto baiano.
No relatório do Plano Piloto de Revitalização do Rio São Francisco, há uma frase de um morador de uma comunidade de Xique-Xique, na Bahia, que bem sintetiza o papel da água na vida dos sertanejos e pode servir como lição para todos nós: "Se o rio morre, todos nós morremos. O sangue que corre no corpo dos que moram na beira do rio é a própria água do rio".
O que cabe a cada um
A água que chega nas torneiras é cristalina. Para que isso aconteça, ela passa por um processo de limpeza que elimina as impurezas e ainda recebe uma dose de flúor, uma substância preventiva das cáries. O resultado é a água potável, artigo nobre que exige grandes investimentos para chegar à pia e ao chuveiro. Usar essa preciosidade para lavar calçadas ou carros é no mínimo um desperdício. A sorte é que existe gente preocupada com o problema. Na indústria já vem sendo implantados programas de reaproveitamento. Nos processos de reúso, a água eliminada em uma determinada operação é captada e serve para outras funções, como lavar o chão da fábrica.
O setor de arquitetura residencial também pode fazer sua parte. Bastam algumas mudanças na construção das casas para que a água usada na pia do banheiro seja reaproveitada no vaso sanitário, por exemplo. Sistemas de captação da água das chuvas estão sendo aperfeiçoados com vistas a se tornar cada vez mais acessíveis. Boa notícia: a vazão das válvulas de descarga já está limitada por lei (em 6 litros por acionamento) e há modelos que permitem controlar o fluxo de água e economizar ainda mais.
O mapa dos rios
Durante 2004, o aviador Gerard Moss e sua esposa, Margi, se dedicaram a um levantamento sobre a qualidade das águas do Brasil de norte a sul. Em um hidroavião, percorreram todo o país, coletando e fotografando rios das diversas regiões. O resultado do projeto - batizado de Brasil das Águas - deverá ser lançado em livro ainda este ano.
Margi e Gerard recolheram 5 mil amostras de 1.170 pontos. Algumas vieram de rios sujos e poluídos, outras de águas cristalinas. "Na Amazônia, onde passei seis meses, estive no Negro, no Tapajós, no Xingu, no Madeira. O que mais me emocionou foram os rios visivelmente limpos, que correm entre florestas, longe do dedo destruidor do homem", conta o viajante.
Seu predileto é o Araguaia, que nasce na Chapada dos Parecis, no Mato Grosso. "Um rio que ainda é um rio de verdade, não uma sucessão de represas contaminadas, como outros grandes rios", conta Gerard. Ali, na seca, despontam bancos de areia, que se tornam não apenas áreas de lazer para a população mas recebem ninhos de tartarugas e aves, como o talha-mar. Esse, aliás, é nome que o casal colocou em seu avião.
Ao final da experiência, Gerard diz ter se tornado um "água-chato". "Não consigo ver ninguém lavando a calçada com água tratada, batendo papo e deixando aquela preciosidade correr. Margi nasceu no Quênia e sempre foi uma água-chata porque os africanos dão grande valor à água. Ela reutiliza a sobra do enxágüe da louça para regar as plantas, e eu só lavo o carro quando está muito sujo. Para mim, isso é saber usar a água", finaliza.
[img01] Desde pequenos aprendemos lições valiosas sobre a água. Em nosso corpo, 70% é líquido. A água compõe tudo o que é vivo - as plantas, os animais - e também, direta ou indiretamente, o que não é. Só para lembrar: no processo de produção de um carro a um lápis, ela está presente. Mas será que as reservas são suficientes para continuar garantindo a vida? No século 20, a população mundial cresceu três vezes, e o consumo de água, seis. Segundo José Machado, diretor presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), ela é o petróleo deste século. "Especula-se até que a água venha a se tornar uma commodity, um bem em estado bruto negociado no mercado internacional, como o trigo, a carne e mesmo o ouro", conta.
Dádiva a ser cultivada
Essa riqueza deveria ser reverenciada diariamente, mas não é isso que se observa na prática: 45% de toda água distribuída pelo sistema público é desperdiçada em vazamentos no próprio sistema de distribuição ou em ligações clandestinas.
Outra questão que tem preocupado ambientalistas é a qualidade do líqüido que sairá das torneiras nos próximos 20 anos. A contaminação de rios e lagos e o consumo exagerado devem comprometer nossa vida lá na frente. A água pode até não acabar, mas a limpa, sim, corre o risco de se esgotar. Isso porque os custos para tratá-la se elevam cada vez mais devido ao excesso de poluentes.
Você sabia que...
Os oceanos contêm 97,4% da água do planeta, as calotas polares, 2%, e apenas 0,6% é doce. O Brasil tem 12% da água doce superficial do mundo - e a crença de que ela nunca faltará. "Essa cultura da abundância vem sendo disseminada há gerações", fala a arquiteta e urbanista Marussia Whatley, coordenadora do Programa de Mananciais do Instituto Sócio Ambiental, de São Paulo. Um dado preocupante é que 80% dos esgotos domésticos brasileiros vão para os rios sem tratamento. "Em São Paulo, o rio Ipiranga, citado no Hino Nacional, está debaixo da terra, canalizado e cheio de esgoto", diz Marussia. Pior, apenas 33,5% das casas no Brasil têm rede de esgoto e, deste, 64,7% não é tratado - vai para os rios, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A degradação das águas é um processo rápido e difícil de reverter.
Quase nunca pensamos na natureza como um sistema em que todos os fatores estão entrelaçados, porém a ocupação dos terrenos nas áreas de mananciais - e a conseqüente destruição das matas - influencia a quantidade e a qualidade da água que chega a nossas torneiras. A vegetação funciona como um filtro, que ajuda a conter as impurezas. Somem-se a isso os resíduos do lixo das indústrias e os agrotóxicos usados nas plantações. Toda essa química não contamina só os alimentos mas também o solo e os lençóis freáticos. "As soluções para esses problemas dependem das políticas de saneamento e de maiores investimentos na área. Mas cada um pode fazer sua parte. Pequenas mudanças de hábito, como reduzir o tempo do banho ou não usar água para lavar a calçada, evitam o desperdício", lembra Marussia.
Bons exemplos
Nos quatro cantos do Brasil, despontam ações de educação ambiental para tentar reverter a tendência à escassez. No rio São Francisco, um importante trabalho desenvolvido pela Secretaria do Planejamento do Estado da Bahia vem conscientizando as várias comunidades ribeirinhas que conservar as águas tem relação direta com a própria sobrevivência.
"Nossa idéia com esse trabalho é mostrar como a qualidade da água influencia a vida de cada pessoa. Não existe ser vivo, dos peixes às plantas aquáticas, que resista a tanta contaminação", afirma Antonio Alberto Valença, um dos coordenadores do projeto baiano.
No relatório do Plano Piloto de Revitalização do Rio São Francisco, há uma frase de um morador de uma comunidade de Xique-Xique, na Bahia, que bem sintetiza o papel da água na vida dos sertanejos e pode servir como lição para todos nós: "Se o rio morre, todos nós morremos. O sangue que corre no corpo dos que moram na beira do rio é a própria água do rio".
O que cabe a cada um
A água que chega nas torneiras é cristalina. Para que isso aconteça, ela passa por um processo de limpeza que elimina as impurezas e ainda recebe uma dose de flúor, uma substância preventiva das cáries. O resultado é a água potável, artigo nobre que exige grandes investimentos para chegar à pia e ao chuveiro. Usar essa preciosidade para lavar calçadas ou carros é no mínimo um desperdício. A sorte é que existe gente preocupada com o problema. Na indústria já vem sendo implantados programas de reaproveitamento. Nos processos de reúso, a água eliminada em uma determinada operação é captada e serve para outras funções, como lavar o chão da fábrica.
O setor de arquitetura residencial também pode fazer sua parte. Bastam algumas mudanças na construção das casas para que a água usada na pia do banheiro seja reaproveitada no vaso sanitário, por exemplo. Sistemas de captação da água das chuvas estão sendo aperfeiçoados com vistas a se tornar cada vez mais acessíveis. Boa notícia: a vazão das válvulas de descarga já está limitada por lei (em 6 litros por acionamento) e há modelos que permitem controlar o fluxo de água e economizar ainda mais.
O mapa dos rios
Durante 2004, o aviador Gerard Moss e sua esposa, Margi, se dedicaram a um levantamento sobre a qualidade das águas do Brasil de norte a sul. Em um hidroavião, percorreram todo o país, coletando e fotografando rios das diversas regiões. O resultado do projeto - batizado de Brasil das Águas - deverá ser lançado em livro ainda este ano.
Margi e Gerard recolheram 5 mil amostras de 1.170 pontos. Algumas vieram de rios sujos e poluídos, outras de águas cristalinas. "Na Amazônia, onde passei seis meses, estive no Negro, no Tapajós, no Xingu, no Madeira. O que mais me emocionou foram os rios visivelmente limpos, que correm entre florestas, longe do dedo destruidor do homem", conta o viajante.
Seu predileto é o Araguaia, que nasce na Chapada dos Parecis, no Mato Grosso. "Um rio que ainda é um rio de verdade, não uma sucessão de represas contaminadas, como outros grandes rios", conta Gerard. Ali, na seca, despontam bancos de areia, que se tornam não apenas áreas de lazer para a população mas recebem ninhos de tartarugas e aves, como o talha-mar. Esse, aliás, é nome que o casal colocou em seu avião.
Ao final da experiência, Gerard diz ter se tornado um "água-chato". "Não consigo ver ninguém lavando a calçada com água tratada, batendo papo e deixando aquela preciosidade correr. Margi nasceu no Quênia e sempre foi uma água-chata porque os africanos dão grande valor à água. Ela reutiliza a sobra do enxágüe da louça para regar as plantas, e eu só lavo o carro quando está muito sujo. Para mim, isso é saber usar a água", finaliza.