Gestão sustentável
A dama verde da GE
A executiva Lorraine Bolsinger tem a missão de transformar a GE numa empresa sustentável - e ainda mais lucrativa
Por Ana Luiza Herzog
Revista Exame - 03/2007
[img01] Trabalhar além dos muros da empresa sempre fez parte da rotina da executiva americana Lorraine Bolsinger, vice-presidente mundial da General Electric (GE). Ao longo de muitos dos 26 anos de carreira na companhia, Lorraine desempenhou funções que exigiam contato direto e praticamente diário com clientes. Ainda hoje, ela passa boa parte de seus dias fora de seu escritório, localizado em Cincinnati, no estado americano de Ohio. A diferença é que seus interlocutores mais freqüentes agora são políticos, legisladores, lobistas e gestores de ONGs. Nas últimas semanas, por exemplo, Lorraine teve várias reuniões com o ex-presidente Bill Clinton (o tema das conversas ainda é mantido em segredo). Nos próximos dias, ela participará de uma reunião com o governador do estado americano do Havaí. "Estamos estudando como podemos ajudá-los a integrar suas turbinas eólicas à rede elétrica", afirmou Lorraine a EXAME.
Dentro da estrutura hierárquica da GE, um colosso com vendas anuais de 163 bilhões de dólares e presença em setores tão diversos como os de aviação, eletrodomésticos e serviços financeiros, Lorraine teria tudo para ser apenas mais uma executiva bem-sucedida em meio a um mar de cerca de 150 vice-presidentes. Na prática, porém, seu status dentro da corporação é outro. Aos 47 anos de idade, ela é uma espécie de embaixadora "verde" da empresa ¿ o que lhe garante um trânsito invejável no cenário político e de negócios. Lorraine foi escolhida por Jeffrey Immelt, presidente mudial da GE, para conduzir o Ecomagination ¿ programa que tem como meta transformar a empresa numa máquina de venda de produtos e de tecnologias ecologicamente corretos. Para criar locomotivas movidas a energia solar, sistemas de purificação de água sofisticados e turbinas com baixa emissão de gases, a GE deverá investir 1,5 bilhão de dólares em pesquisa até 2010. Uma das próximas fronteiras de negócios "limpos" a ser explorada pela empresa deve ser o etanol. Lorraine fez uma visita ao Brasil em março para conhecer melhor ¿ e de perto ¿ o efervescente mercado de etanol, um dos combustíveis alternativos visto como uma das apostas para diminuir a dependência de petróleo. Sua agenda incluía visitas a usinas no interior paulista e à sede da Dedini, maior fabricante brasileira de equipamentos para o setor. "Ainda estamos participando desse negócio tangencialmente, oferecendo as tecnologias que já possuímos, como sistemas de tratamento de água para usinas", diz ela. "Mas não descartamos nenhuma possibilidade: de investir na produção do combustível a desenvolver equipamentos específicos para a indústria."
Em 2005, quando recebeu o convite de Immelt para impulsionar o desenvolvimento e a venda de produtos "verdes" e contaminar a empresa com o sentimento de urgência em relação aos cuidados com o planeta, Lorraine afirma que se sentiu partida ao meio. "Minha metade mais ambiciosa sabia quanto aquilo seria novo, desafiador", diz ela. "Mas a outra me lembrava de quanto eu já me sentia confortável naquilo que fazia e de como era ignorante no assunto." Até então, a executiva era responsável pelo marketing da área de aviação da GE, um dos negócios mais valorizados da empresa, responsável pela geração de receitas da ordem de 15 bilhões de dólares por ano. Os números mostram que Lorraine se ambientou à nova função. Em 2005, os produtos que recebem o selo Ecomagination renderam à GE 10 bilhões de dólares. Até 2010, segundo previsões da empresa, essa receita deverá dobrar. Nos últimos dois anos, o número de produtos que fazia parte do portfólio do programa passou de 17 para 45.
Engenheira de formação, Lorraine ainda não se transformou numa ambientalista xiita. Embora separe o lixo de sua casa para reciclagem, ela reluta em usar lâmpadas fluorescentes, mais econômicas que as tradicionais, em todos os cômodos da casa onde mora. "Jamais colocarei uma lâmpada dessas no meu banheiro. Eu fico muito feia naquela luz!", diz. Além disso, Lorraine continua usando seu jipão para levar seu casal de filhos e os coleguinhas para a escola. "Caso contrário teria de comprar um microônibus." Assim como o chefe Immelt, que não se constrange em dizer que a GE embarcou na onda verde para ganhar dinheiro, Lorraine é bem pragmática: "Existe uma tendência de consumo e comportamento. Minha missão é acreditar nela e usá-la para que a empresa prospere."
Em meio à receptividade que declarações como essa têm suscitado no mercado ¿ a GE liderou o recém-divulgado ranking das empresas mais admiradas dos Estados Unidos, publicado pela revista Fortune, em grande medida por causa de sua imagem "verde" ¿, ainda existem especialistas céticos em relação ao discurso da companhia. "Digo às corporações para fazer coisas boas e só então sair contando para o mundo", disse¿à EXAME Steven Hamburg, professor da Universidade Brown, que ajuda empresas como o Wal-Mart a mitigar seus impactos no meio ambiente. "O que me preocupa sobre a GE é que ela está dizendo que vai fazer coisas boas, mas, até agora, pouco mudou."
[img01] Trabalhar além dos muros da empresa sempre fez parte da rotina da executiva americana Lorraine Bolsinger, vice-presidente mundial da General Electric (GE). Ao longo de muitos dos 26 anos de carreira na companhia, Lorraine desempenhou funções que exigiam contato direto e praticamente diário com clientes. Ainda hoje, ela passa boa parte de seus dias fora de seu escritório, localizado em Cincinnati, no estado americano de Ohio. A diferença é que seus interlocutores mais freqüentes agora são políticos, legisladores, lobistas e gestores de ONGs. Nas últimas semanas, por exemplo, Lorraine teve várias reuniões com o ex-presidente Bill Clinton (o tema das conversas ainda é mantido em segredo). Nos próximos dias, ela participará de uma reunião com o governador do estado americano do Havaí. "Estamos estudando como podemos ajudá-los a integrar suas turbinas eólicas à rede elétrica", afirmou Lorraine a EXAME.
Dentro da estrutura hierárquica da GE, um colosso com vendas anuais de 163 bilhões de dólares e presença em setores tão diversos como os de aviação, eletrodomésticos e serviços financeiros, Lorraine teria tudo para ser apenas mais uma executiva bem-sucedida em meio a um mar de cerca de 150 vice-presidentes. Na prática, porém, seu status dentro da corporação é outro. Aos 47 anos de idade, ela é uma espécie de embaixadora "verde" da empresa ¿ o que lhe garante um trânsito invejável no cenário político e de negócios. Lorraine foi escolhida por Jeffrey Immelt, presidente mudial da GE, para conduzir o Ecomagination ¿ programa que tem como meta transformar a empresa numa máquina de venda de produtos e de tecnologias ecologicamente corretos. Para criar locomotivas movidas a energia solar, sistemas de purificação de água sofisticados e turbinas com baixa emissão de gases, a GE deverá investir 1,5 bilhão de dólares em pesquisa até 2010. Uma das próximas fronteiras de negócios "limpos" a ser explorada pela empresa deve ser o etanol. Lorraine fez uma visita ao Brasil em março para conhecer melhor ¿ e de perto ¿ o efervescente mercado de etanol, um dos combustíveis alternativos visto como uma das apostas para diminuir a dependência de petróleo. Sua agenda incluía visitas a usinas no interior paulista e à sede da Dedini, maior fabricante brasileira de equipamentos para o setor. "Ainda estamos participando desse negócio tangencialmente, oferecendo as tecnologias que já possuímos, como sistemas de tratamento de água para usinas", diz ela. "Mas não descartamos nenhuma possibilidade: de investir na produção do combustível a desenvolver equipamentos específicos para a indústria."
Em 2005, quando recebeu o convite de Immelt para impulsionar o desenvolvimento e a venda de produtos "verdes" e contaminar a empresa com o sentimento de urgência em relação aos cuidados com o planeta, Lorraine afirma que se sentiu partida ao meio. "Minha metade mais ambiciosa sabia quanto aquilo seria novo, desafiador", diz ela. "Mas a outra me lembrava de quanto eu já me sentia confortável naquilo que fazia e de como era ignorante no assunto." Até então, a executiva era responsável pelo marketing da área de aviação da GE, um dos negócios mais valorizados da empresa, responsável pela geração de receitas da ordem de 15 bilhões de dólares por ano. Os números mostram que Lorraine se ambientou à nova função. Em 2005, os produtos que recebem o selo Ecomagination renderam à GE 10 bilhões de dólares. Até 2010, segundo previsões da empresa, essa receita deverá dobrar. Nos últimos dois anos, o número de produtos que fazia parte do portfólio do programa passou de 17 para 45.
Engenheira de formação, Lorraine ainda não se transformou numa ambientalista xiita. Embora separe o lixo de sua casa para reciclagem, ela reluta em usar lâmpadas fluorescentes, mais econômicas que as tradicionais, em todos os cômodos da casa onde mora. "Jamais colocarei uma lâmpada dessas no meu banheiro. Eu fico muito feia naquela luz!", diz. Além disso, Lorraine continua usando seu jipão para levar seu casal de filhos e os coleguinhas para a escola. "Caso contrário teria de comprar um microônibus." Assim como o chefe Immelt, que não se constrange em dizer que a GE embarcou na onda verde para ganhar dinheiro, Lorraine é bem pragmática: "Existe uma tendência de consumo e comportamento. Minha missão é acreditar nela e usá-la para que a empresa prospere."
Em meio à receptividade que declarações como essa têm suscitado no mercado ¿ a GE liderou o recém-divulgado ranking das empresas mais admiradas dos Estados Unidos, publicado pela revista Fortune, em grande medida por causa de sua imagem "verde" ¿, ainda existem especialistas céticos em relação ao discurso da companhia. "Digo às corporações para fazer coisas boas e só então sair contando para o mundo", disse¿à EXAME Steven Hamburg, professor da Universidade Brown, que ajuda empresas como o Wal-Mart a mitigar seus impactos no meio ambiente. "O que me preocupa sobre a GE é que ela está dizendo que vai fazer coisas boas, mas, até agora, pouco mudou."