
Por Okky de Souza e Leoleli de Carvalho*
Revista Veja - 12/2006
O aquecimento global é estudado há 25 anos mas pode-se dizer que 2006 foi o ano em que a humanidade tomou consciência de que a crise ambiental é real e seus efeitos, imediatos. Novas pesquisas científicas dissiparam a mínima dúvida de que o aumento repentino da temperatura planetária se deve à ação humana, com escassa contribuição de qualquer outra influência da natureza. Até os ecocéticos aceitam agora a idéia assustadora de que o tempo disponível para evitar a catástrofe global está perigosamente curto. Não há mesmo como ignorar o problema. Como uma praga apocalíptica, as mudanças climáticas já afetam o cotidiano de bilhões de pessoas de forma impossível de ser ignorada. Uma prévia do relatório anual da Organização Meteorológica Mundial, órgão da ONU que avalia o clima na Terra, divulgada em dezembro, mostra que 2006 foi marcado por uma série de recordes sombrios no terreno das alterações climáticas e das catástrofes naturais.
Pela primeira vez desde que começaram as medições, no século XIX, o termômetro chegou aos 40 graus em diversas regiões temperadas da Europa e dos Estados Unidos. A Somália foi castigada pelas enchentes mais devastadoras do último meio século. A calota gelada do Ártico ficou 60 400 quilômetros quadrados menor ou seja, uma área equivalente a duas vezes o estado de Alagoas virou água e ajudou a elevar o nível dos oceanos. Na China, segundo o relatório, a pior temporada de ciclones em uma década resultou em 1 000 mortes e 10 bilhões de dólares em prejuízos. Na Austrália, o décimo ano seguido de seca impiedosa agravou o processo de desertificação do solo e desencadeou incêndios florestais com virulência nunca vista. Sabe-se que o relatório final da Organização Meteorológica Mundial, a ser divulgado em fevereiro, prevê o desaparecimento total do gelo no Ártico durante os meses de verão já a partir de 2040. Isso pode significar a extinção do urso-polar em seu habitat.
Todos esses transtornos são decorrência do aumento de apenas 1 grau na temperatura média do planeta nos últimos 100 anos. Estudos estimam que, mantido o ritmo atual, a temperatura média da Terra subirá entre 2 e 4,5 graus até 2050. O debate científico não é mais sobre em que momento dos próximos cinqüenta anos o aquecimento global se abaterá sobre nosso pobre planeta, mas sobre como escapar da arapuca que nós próprios armamos para as futuras gerações. É universalmente aceito que, para evitar a piora da situação, seria preciso parar de bombear na atmosfera dióxido de carbono, metano e óxido nitroso. Esses gases, resultantes da atividade humana, formam uma espécie de cobertor em torno do planeta, impedindo que a radiação solar, refletida pela superfície em forma de calor, retorne ao espaço. É o chamado efeito estufa, e a ele cabe a responsabilidade maior pelo aumento da temperatura global.
Diante desse quadro sombrio, ganha impulso entre cientistas e políticos a idéia de que ações pontuais, por mais bem-intencionadas, podem não ser suficientes para estancar o aquecimento gradual da Terra. Por sua magnitude, problemas globais exigem soluções também globais. Ou seja, intervir nos processos que causam o aquecimento do planeta é uma tarefa demasiadamente complexa para ser resolvida com o esforço individual das nações. Ainda mais quando se sabe que nenhum país conseguirá diminuir drasticamente as emissões de dióxido de carbono (CO2), o principal vilão do efeito estufa. Isso significaria frear o ritmo de suas indústrias e usinas termelétricas, acarretando enormes prejuízos à economia. Os cientistas que defendem as soluções globais para o aquecimento da Terra avaliam que só com idéias que envolvem um esforço mundial se poderá reduzir o problema.
Vários megaprojetos para amenizar o efeito estufa saíram de universidades e centros de pesquisa nos últimos anos. VEJA selecionou as sete soluções de maior viabilidade técnica e que tiveram melhor repercussão na comunidade acadêmica. São abordagens radicais, mas podem ser a única saída para uma situação de emergência. Cinco delas são fruto de uma corrente científica relativamente recente chamada geoengenharia. Os adeptos miram num cenário em que sejam necessárias medidas urgentes para diminuir a temperatura da Terra rapidamente e interromper, ou evitar, seqüências de catástrofes. A geoengenharia parte de um princípio simples: para deter o efeito estufa, é preciso fazer com que menos raios solares cheguem à Terra. Assim, compensa-se o calor extra provocado pela "tampa" de CO2 e outros gases tóxicos lançados na atmosfera pela ação humana.
Os cientistas alinhados com a geoengenharia admitem que seus projetos para "esfriar" a Terra parecem fantasiosos e radicais por suas dimensões, mas foram todos concebidos para ser exeqüíveis. Em caso de emergência climática, a aplicação de um ou mais desses projetos pode ser a única forma de salvar a humanidade e o planeta que a abriga. "Se dobrarmos a quantidade de CO2 em relação à da era pré-industrial e não tivermos o problema sob controle, talvez seja preciso lançar mão dessas soluções. É necessário ter essa carta na manga para o caso de uma crise planetária", disse a VEJA John Shepherd, diretor do Centro Tyndall, da Inglaterra, instituto que pesquisa mudanças climáticas. Confira a seguir sete planosque podemsalvar o Planeta Terra do aquecimento global:
Em lugar das termelétricas, novas usinas nucleares
Armazenar CO2 sob o solo, longe do efeito estufa
Por esse projeto, atualmente em fase de testes na Noruega e nos Estados Unidos, a fumaça produzida por indústrias e usinas termelétricas é filtrada por um equipamento que separa o CO2 dos outros gases. A seguir, o dióxido de carbono é comprimido e levado em tanques, ou por um sistema de canalização, até um local de armazenamento. Finalmente, o gás é injetado no solo, a 2 quilômetros de profundidade, ou depositado em antigos poços de petróleo ou de gás natural já esgotados. Na próxima década, outros vinte campos de seqüestro de CO2 nome técnico do processo entrarão em funcionamento em caráter experimental no mundo. Recentemente, um grupo de pesquisadores da Universidade Harvard propôs o armazenamento de CO2 em sedimentos abaixo da superfície do oceano, a aproximadamente 3 000 metros da superfície. Segundo eles, a combinação de baixa temperatura com alta pressão transformaria o dióxido de carbono em um líquido mais denso do que a água do mar, o que afastaria o risco de o gás voltar à superfície. Calcula-se que a capacidade da crosta da Terra de armazenar CO2 seja de aproximadamente 10 trilhões de toneladas, o equivalente a 400 anos de emissões nos níveis atuais (veja mais detalhes).
Um painel de lentes reflexivas no espaço
Colocar em órbita um gigantesco guarda-sol
Antes de o astrônomo Roger Angel desenvolver sua idéia das lentes reflexivas descrita acima, os físicos americanos Lowell Wood e Edward Teller, do Lawrence Livermore National Laboratory, na Califórnia, propuseram um projeto semelhante para diminuir a incidência de raios solares na Terra. O conceito desenvolvido pela dupla é uma espécie de gigantesco guarda-sol que ficaria no espaço e conseguiria bloquear algo entre 1% e 3% da luz solar. Teller, morto em 2003, foi, para quem não se lembra, um dos cientistas que desenvolveram a bomba atômica, nos anos 40, e é considerado o pai da bomba de hidrogênio. Ele acreditava ser muito difícil conseguir que a humanidade cooperasse para o bem comum, sacrificando a produtividade das indústrias ou o bem-estar individual para diminuir o aquecimento global. Por isso, dizia, soluções como a do escudo espacial talvez fossem necessárias. Segundo Wood e Teller, a diminuição de 1% a 3% na incidência de raios solares ainda geraria para o planeta uma economia de 1 trilhão de dólares por ano, apenas com o aumento da produtividade na agricultura e com a redução do número de casos de câncer de pele causados por raios ultravioleta. O custo para manter o escudo no espaço é calculado em 1 bilhão de dólares anuais.
Nuvens de enxofre na atmosfera
O projeto de resfriamento da Terra proposto pelo meteorologista holandês Paul J. Crutzen, do Instituto Max Planck, na Alemanha, é espalhar dióxido de enxofre (SO2), em forma de gás, a uma altitude de 25 quilômetros do solo terrestre. A substância seria levada por balões. Lá, o SO2 se oxidaria, gerando ácido sulfúrico (também em forma de gás), que logo se agruparia em partículas. Essas partículas desceriam para a troposfera (a 11 quilômetros de altitude) e se espalhariam pelas nuvens com a ajuda do vento. As partículas refletiriam uma fração da luz solar de volta para o espaço, reduzindo a temperatura na Terra. Crutzen, ganhador do Prêmio Nobel por demonstrar como alguns compostos químicos afetam a camada de ozônio da atmosfera, baseia a idéia nos efeitos das erupções vulcânicas. Em 1991, a erupção do Monte Pinatubo, nas Filipinas, espalhou pela estratosfera 20 milhões de toneladas de SO2. No ano seguinte, os cientistas constataram que a temperatura média na superfície da Terra se reduziu em 0,5 grau e atribuíram o fenômeno à erupção. Em contrapartida, verificaram-se danos significativos para a camada de ozônio após o vulcão entrar em atividade. Crutzen acredita que é necessário pesquisar se esses danos foram causados pelo enxofre ou por outras substâncias expelidas pelo vulcão. No segundo caso, seu projeto de combate ao efeito estufa estaria validado. "Se a temperatura da Terra aumentar mais de 0,2 grau por década, as gerações futuras talvez precisem colocar em prática projetos ambiciosos de combate ao aquecimento global", disse Paul Crutzen a VEJA (clique para mais detalhes).
Adicionar ferro aos oceanos para estimular os microorganismos
Pulverizar as nuvens com água salgada
A idéia do físico John Latham, do National Center for Atmospheric Research, dos Estados Unidos, é aumentar o albedo a fração de luz que um corpo é capaz de refletir em um tipo de nuvem chamada estrato-cúmulo que cobre quase um terço da superfície dos oceanos. Ainda na década de 70, os cientistas descobriram que uma nuvem formada por um elevado número de pequenas gotas de água reflete mais luz solar do que outra formada por gotas grandes. Para aumentar o albedo das nuvens estratos-cúmulo, Latham propõe pulverizar no ar, próximo à superfície dos oceanos, minúsculas gotas de água salgada retirada do próprio mar. Misturadas às nuvens, essas gotículas multiplicariam a capacidade das nuvens de refletir e devolver ao espaço parte dos raios solares que as atingem. O aumento do albedo poderia ser facilmente medido com a ajuda de satélites. A pulverização da água salgada no ar seria feita por pequenas embarcações. O sistema de pulverização das gotas ainda não foi definido. Latham avalia o uso de uma tecnologia semelhante à dos nebulizadores utilizados em medicamentos para asma. Calcula-se que seriam necessárias 500 embarcações ao custo de 2 milhões de dólares cada uma para realizar o trabalho, que precisaria ser contínuo (veja mais detalhes).
*Com reportagem de Rafael Corrêa e Rosana Zakabi
Por Okky de Souza e Leoleli de Carvalho*
Revista Veja - 12/2006
Em lugar das termelétricas, novas usinas nucleares
Armazenar CO2 sob o solo, longe do efeito estufa
Por esse projeto, atualmente em fase de testes na Noruega e nos Estados Unidos, a fumaça produzida por indústrias e usinas termelétricas é filtrada por um equipamento que separa o CO2 dos outros gases. A seguir, o dióxido de carbono é comprimido e levado em tanques, ou por um sistema de canalização, até um local de armazenamento. Finalmente, o gás é injetado no solo, a 2 quilômetros de profundidade, ou depositado em antigos poços de petróleo ou de gás natural já esgotados. Na próxima década, outros vinte campos de seqüestro de CO2 nome técnico do processo entrarão em funcionamento em caráter experimental no mundo. Recentemente, um grupo de pesquisadores da Universidade Harvard propôs o armazenamento de CO2 em sedimentos abaixo da superfície do oceano, a aproximadamente 3 000 metros da superfície. Segundo eles, a combinação de baixa temperatura com alta pressão transformaria o dióxido de carbono em um líquido mais denso do que a água do mar, o que afastaria o risco de o gás voltar à superfície. Calcula-se que a capacidade da crosta da Terra de armazenar CO2 seja de aproximadamente 10 trilhões de toneladas, o equivalente a 400 anos de emissões nos níveis atuais (veja mais detalhes).
Um painel de lentes reflexivas no espaço
Colocar em órbita um gigantesco guarda-sol
Antes de o astrônomo Roger Angel desenvolver sua idéia das lentes reflexivas descrita acima, os físicos americanos Lowell Wood e Edward Teller, do Lawrence Livermore National Laboratory, na Califórnia, propuseram um projeto semelhante para diminuir a incidência de raios solares na Terra. O conceito desenvolvido pela dupla é uma espécie de gigantesco guarda-sol que ficaria no espaço e conseguiria bloquear algo entre 1% e 3% da luz solar. Teller, morto em 2003, foi, para quem não se lembra, um dos cientistas que desenvolveram a bomba atômica, nos anos 40, e é considerado o pai da bomba de hidrogênio. Ele acreditava ser muito difícil conseguir que a humanidade cooperasse para o bem comum, sacrificando a produtividade das indústrias ou o bem-estar individual para diminuir o aquecimento global. Por isso, dizia, soluções como a do escudo espacial talvez fossem necessárias. Segundo Wood e Teller, a diminuição de 1% a 3% na incidência de raios solares ainda geraria para o planeta uma economia de 1 trilhão de dólares por ano, apenas com o aumento da produtividade na agricultura e com a redução do número de casos de câncer de pele causados por raios ultravioleta. O custo para manter o escudo no espaço é calculado em 1 bilhão de dólares anuais.
Nuvens de enxofre na atmosfera
O projeto de resfriamento da Terra proposto pelo meteorologista holandês Paul J. Crutzen, do Instituto Max Planck, na Alemanha, é espalhar dióxido de enxofre (SO2), em forma de gás, a uma altitude de 25 quilômetros do solo terrestre. A substância seria levada por balões. Lá, o SO2 se oxidaria, gerando ácido sulfúrico (também em forma de gás), que logo se agruparia em partículas. Essas partículas desceriam para a troposfera (a 11 quilômetros de altitude) e se espalhariam pelas nuvens com a ajuda do vento. As partículas refletiriam uma fração da luz solar de volta para o espaço, reduzindo a temperatura na Terra. Crutzen, ganhador do Prêmio Nobel por demonstrar como alguns compostos químicos afetam a camada de ozônio da atmosfera, baseia a idéia nos efeitos das erupções vulcânicas. Em 1991, a erupção do Monte Pinatubo, nas Filipinas, espalhou pela estratosfera 20 milhões de toneladas de SO2. No ano seguinte, os cientistas constataram que a temperatura média na superfície da Terra se reduziu em 0,5 grau e atribuíram o fenômeno à erupção. Em contrapartida, verificaram-se danos significativos para a camada de ozônio após o vulcão entrar em atividade. Crutzen acredita que é necessário pesquisar se esses danos foram causados pelo enxofre ou por outras substâncias expelidas pelo vulcão. No segundo caso, seu projeto de combate ao efeito estufa estaria validado. "Se a temperatura da Terra aumentar mais de 0,2 grau por década, as gerações futuras talvez precisem colocar em prática projetos ambiciosos de combate ao aquecimento global", disse Paul Crutzen a VEJA (clique para mais detalhes).
Adicionar ferro aos oceanos para estimular os microorganismos
Pulverizar as nuvens com água salgada
A idéia do físico John Latham, do National Center for Atmospheric Research, dos Estados Unidos, é aumentar o albedo a fração de luz que um corpo é capaz de refletir em um tipo de nuvem chamada estrato-cúmulo que cobre quase um terço da superfície dos oceanos. Ainda na década de 70, os cientistas descobriram que uma nuvem formada por um elevado número de pequenas gotas de água reflete mais luz solar do que outra formada por gotas grandes. Para aumentar o albedo das nuvens estratos-cúmulo, Latham propõe pulverizar no ar, próximo à superfície dos oceanos, minúsculas gotas de água salgada retirada do próprio mar. Misturadas às nuvens, essas gotículas multiplicariam a capacidade das nuvens de refletir e devolver ao espaço parte dos raios solares que as atingem. O aumento do albedo poderia ser facilmente medido com a ajuda de satélites. A pulverização da água salgada no ar seria feita por pequenas embarcações. O sistema de pulverização das gotas ainda não foi definido. Latham avalia o uso de uma tecnologia semelhante à dos nebulizadores utilizados em medicamentos para asma. Calcula-se que seriam necessárias 500 embarcações ao custo de 2 milhões de dólares cada uma para realizar o trabalho, que precisaria ser contínuo (veja mais detalhes).
*Com reportagem de Rafael Corrêa e Rosana Zakabi
























