entrevista
Jefferson Simões: o homem do gelo
O cientista e explorador polar, Jefferson Simões, liderou a primeira expedição brasileira ao interior do continente antártico. Além de professor no Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, é coordenador-geral do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera
Dante Grecco
Revista National Geographic – 12/2009
Para Jefferson Cardia Simões, este Natal será bem diferente do de 2008. Ele poderá estar no aconchego de sua casa em Porto Alegre, ao lado da mulher, Ingrid, e dos filhos Felipe, de 22 anos, e Carolina, de 20. “No ano passado, eu estava ao lado de outros sete pesquisadores, ao redor de um pequeno fogão, no interior de uma barraca, à temperatura de 8 graus negativos, a mil quilômetros do polo Sul geográfico. Sorte que havia um bom vinho chileno para esquentar”, lembra-se ele.
Desde 1990, Simões já esteve na Antártica 17 vezes. Essa última investida, porém, foi especial: entre 1o de dezembro de 2008 e 13 de janeiro deste ano, liderou a expedição Deserto de Cristal, a primeira incursão nacional ao interior do continente antártico. Cientista com doutorado no Instituto de Pesquisa Polar Scott da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Simões, de 51 anos, é o primeiro brasileiro a especializar-se em glaciologia, a ciência do gelo em todas as suas formas e seu papel no sistema ambiental.
Qual foi o principal objetivo da expedição Deserto de Cristal?
Fomos à Antártica para, entre outros objetivos, obter o que chamamos de testemunho de gelo. Trata-se de cilindros que têm entre 5 e 10 centímetros de diâmetro retirados do manto de gelo antártico. Conseguimos extrair um testemunho de 95 metros de profundidade que revela a história da precipitação química da atmosfera dos últimos 250 anos. Com isso, podemos entender melhor os processos de mudanças globais no clima.
O que esses indícios de gelo antigo revelam?
Muita coisa. Eles nos contam o que aconteceu na atmosfera terrestre ao longo das últimas centenas ou milhares de anos. Os testemunhos são retirados de geleiras e mantos de gelo formados pela neve que se acumulou em camadas horizontais. Ao cair, a neve carrega consigo inúmeras impurezas presentes na atmosfera. Em seguida, devido à pressão das camadas depositadas posteriormente, a neve se transforma em gelo.
Assim, a composição química da atmosfera daquele período fica preservada. Ao se perfurar os poçosno gelo, podemos analisar as impurezas e os gases ali contidos e obter inúmeros relatos ambientais ocorridos ao longo do tempo. Entre outros dados, conseguimos olhar para trás e verificar as atividades vulcânicas da Terra, descobrir fontes terrestres de poeira, comprovar a extensão de mares congelados, investigar atividades biológicas terrestres e marinhas e determinar as variações da temperatura da atmosfera. Por meio desses estudos, por exemplo, os cientistas determinaram, desde o início da Revolução Industrial, um aumento de 36% na concentração de dióxido de carbono (CO2), um dos gases responsáveispelo aquecimento global. As atuais concentrações desse gássão as maiores ao longo dos últimos 800 mil anos.
Qual o testemunho mais antigo?
Franceses e italianos extraíram um na Antártica que tem cerca de 800 mil anos. Nos próximos dez anos, o grande desafio é atingir um gelo de 1,5 milhão de anos. No total, foram 44 dias no continente antártico, 16 delesno acampamento avançado, um lugar remoto, a 80 graus de latitude sul.
O que se sente num local tão isolado e frio?
A temperatura mais baixa foi de 28 graus negativos. Mas, devido às fortes rajadas de vento, a sensação térmica era de 40 graus negativos. O acampamento avançado ficava no meio do platô do manto de gelo da Antártica Ocidental, que atinge mais de 2 mil metros de altitude na região e é um dos locais mais secos do planeta. Descrever a paisagem é simples: é o nada no meio do nada. É um platô de neve, plano e sem limites. O local é extremamente agressivo. O menor erro, como sair no meio de uma nevasca e se perder entre a barraca da cozinha e o banheiro, pode representar a diferença entre a vida e a morte. Nesse ambiente, eu sinto uma tremenda sensação de paz. É uma beleza estranha, bem expressada pelo Americano Richard Byrd (1888–1957), o primeiro explorador a voar até o polo Sul geográfico: “Havia grande beleza ali, daquela maneira como coisas que são também terríveis podem ser belas”.
Qual é a relevância da Antártica no sistema climático mundial?
Ela é fundamental. Lá se formam 80% das correntes frias no fundo dos oceanos e das frentes frias atmosféricas que, às vezes, atingem até o sul da Floresta Amazônica. De forma simplificada, o sistema climático nada mais é que o transporte de energia pelas correntes atmosféricas e oceânicas das regiões tropicaispara as polares. As regiões tropicais do planeta recebem mais energia do Sol do que a perdem para o espaço. Com as polares, ocorre o inverso: perdem mais energia do que recebem. Mas ambas são fundamentais ao equilíbrio do sistema climático. A Antártica é o grande sorvedouro de energia do planeta. Toda a energia para lá transportada se perde. Isso ocorre em razão da existência de seu enorme manto de gelo, que tem 13,6 milhões de quilômetros quadrados. Além disso, ela é circundada por um oceano frio, que, de forma sazonal, tem uma capa de gelo marinho que oscila entre 1,8 milhão de quilômetros quadrados no verão e até 20 milhões de quilômetros quadrados no inverno. Por abrigar tanto gelo e neve, a Antártica pode ser até 40°C mais fria que o Ártico. Ela abriga cerca de 25 milhões de quilômetros cúbicos de gelo. É tanto gelo que, se o colocássemos sobre o Brasil, teríamos quase 3 quilômetros de espessura de gelo revestindo todo o território nacional.
Sabe-se que há massas de ar frio que saem da Antártica e chegam ao Brasil. O contrário ocorre? Há vestígios de partículas de poeira transportadas da América do Sul no gelo antártico?
Sim. Correntes oceânicas e atmosféricas ocorrem nos dois sentidos. Assim, material dos trópicos é transportado para as duas regiões polares. Há cerca de 20 anos já se detectam partículas provenientes da América do Sul na Antártica.
A Antártica pode também conter indícios dos incêndios florestais comuns no Brasil?
Isso ainda não está claro. No Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, pretendemos detectar e determinar a quantidade de subprodutos da queima da biomassa, comoa da Floresta Amazônica, transportados para a Antártica. Esse trabalho começou no primeiro semestre de 2009.
Afinal, o gelo antártico está derretendo?
Sim e não... Depende do lugar. O gelo da península Antártica, sua área mais amena, está derretendo, sim. Ali, ocorre o derretimento da neve e do gelo, a retração de geleiras, a migração para o sul de pinguins e até o aparecimento de gramíneas. As plataformas de gelo, nome dado às partes flutuantes das geleiras, estão entrando em colapso e se destruindo. Nos últimos 20 anos já houve uma perda de mais de 22 mil quilômetros quadrados. Mas os dois mantos de gelo da Antártica, que ficam abaixo dos 68 graus de latitude sul, não estão derretendo. Eles têm espessura média de 1 920 metros, com uma máxima constatada até agora de 4 776 metros. No último verão, nesse ponto mais elevado, os chineses montaram uma base, a estação Kulun. Deve ser o local mais frio da Terra. A temperatura no inverno cai abaixo de 90°C negativos.
Então quanto do gelo antártico já derreteu?
Menos de 0,0001%. Ou seja, quase nada em relação ao volume total. Se ele derretesse todo, o nível dos mares subiria 60 metros. Mas isso não irá acontecer. É ficção científica. Não existe a menor possibilidade física de mais de 10% de todo o gelo derreter em menos de 200 anos. Até agora, a contribuição da Antártica para o aumento no nível do mar é mínima. O que está derretendo é o gelo da Groenlândia e o das montanhas temperadas e tropicais, como Andes, Rochosas e Himalaia.
O que pode acontecer se as previsões dos cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) estiverem corretas e a temperatura média do planeta subir mais?
As previsões atuais indicam que até 2100 a temperatura atmosférica deve subir até 4°C. Se isso ocorrer, a contribuição do derretimento do gelo antártico para o aumento no nível do mar ainda será reduzida. E só acontecerá mesmo e principalmente devido ao derretimento do gelo na península Antártica. Ou seja, se até 2100 houver mesmo um aumento de até 140 centímetros no nível do mar, a Antártica deverá contribuir com menos de 10%. O problema é que ainda temos muitas dúvidas em relação à estabilidade de algumas geleiras na Antártica Ocidental, ao sul da península Antártica, que poderiam deslizar mais rapidamente mar adentro.
Como se formaram os lagos descobertos abaixo das espessas camadas de gelo antártico?
Dados recentes indicam que sob camadas de gelo que oscilam entre 3 e 4 quilômetros de espessura já foram encontrados mais de 170 lagos espalhados pela Antártica. Há algumas teorias sobre sua formação. A mais aceita é a que eles decorrem do chamado calor geotermal, nome dado ao calor emitido pela crosta da Terra. Como o gelo é um ótimo isolante térmico, o calor não se dissipa. Com isso, o espaço entre o gelo e a rocha é preenchido pela água – que parece estar isolada do resto do planeta há milhões de anos. Na década de 1990, os cientistas se deram conta de que o maior deles, o Vostok, era tão grande – 10 mil quilômetros quadrados de área – quanto profundo. A água atinge 500 metros de profundidade antes de alcançar a rocha.
Em sua opinião, quem foi o maior explorador polar?
O norueguês Fritjof Nansen (1861–1930). Ele foi o mais completo de todos, um grande cientista. No fim do século 19, Nansen realizou as primeiras expedições polares realmente científicas. Ele provou que o Ártico é um oceano circundado por terra; construiu o Fram, navio que não afundava no gelo, que depois foi usado pelo também norueguês Roald Amundsen na Antártica. Nansen, também considerado um dos pais da oceanografia, tornou-se diplomata, foi um dos fundadoresda Liga das Nações e, em 1922, ganhou o Prêmio Nobel da Paz por suas ações junto ao comissariado de refugiados. Ele foi, sem dúvida, um homem à frente de seu tempo.
Para Jefferson Cardia Simões, este Natal será bem diferente do de 2008. Ele poderá estar no aconchego de sua casa em Porto Alegre, ao lado da mulher, Ingrid, e dos filhos Felipe, de 22 anos, e Carolina, de 20. “No ano passado, eu estava ao lado de outros sete pesquisadores, ao redor de um pequeno fogão, no interior de uma barraca, à temperatura de 8 graus negativos, a mil quilômetros do polo Sul geográfico. Sorte que havia um bom vinho chileno para esquentar”, lembra-se ele.
Desde 1990, Simões já esteve na Antártica 17 vezes. Essa última investida, porém, foi especial: entre 1o de dezembro de 2008 e 13 de janeiro deste ano, liderou a expedição Deserto de Cristal, a primeira incursão nacional ao interior do continente antártico. Cientista com doutorado no Instituto de Pesquisa Polar Scott da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Simões, de 51 anos, é o primeiro brasileiro a especializar-se em glaciologia, a ciência do gelo em todas as suas formas e seu papel no sistema ambiental.
Qual foi o principal objetivo da expedição Deserto de Cristal?
Fomos à Antártica para, entre outros objetivos, obter o que chamamos de testemunho de gelo. Trata-se de cilindros que têm entre 5 e 10 centímetros de diâmetro retirados do manto de gelo antártico. Conseguimos extrair um testemunho de 95 metros de profundidade que revela a história da precipitação química da atmosfera dos últimos 250 anos. Com isso, podemos entender melhor os processos de mudanças globais no clima.
O que esses indícios de gelo antigo revelam?
Muita coisa. Eles nos contam o que aconteceu na atmosfera terrestre ao longo das últimas centenas ou milhares de anos. Os testemunhos são retirados de geleiras e mantos de gelo formados pela neve que se acumulou em camadas horizontais. Ao cair, a neve carrega consigo inúmeras impurezas presentes na atmosfera. Em seguida, devido à pressão das camadas depositadas posteriormente, a neve se transforma em gelo.
Assim, a composição química da atmosfera daquele período fica preservada. Ao se perfurar os poçosno gelo, podemos analisar as impurezas e os gases ali contidos e obter inúmeros relatos ambientais ocorridos ao longo do tempo. Entre outros dados, conseguimos olhar para trás e verificar as atividades vulcânicas da Terra, descobrir fontes terrestres de poeira, comprovar a extensão de mares congelados, investigar atividades biológicas terrestres e marinhas e determinar as variações da temperatura da atmosfera. Por meio desses estudos, por exemplo, os cientistas determinaram, desde o início da Revolução Industrial, um aumento de 36% na concentração de dióxido de carbono (CO2), um dos gases responsáveispelo aquecimento global. As atuais concentrações desse gássão as maiores ao longo dos últimos 800 mil anos.
Qual o testemunho mais antigo?
Franceses e italianos extraíram um na Antártica que tem cerca de 800 mil anos. Nos próximos dez anos, o grande desafio é atingir um gelo de 1,5 milhão de anos. No total, foram 44 dias no continente antártico, 16 delesno acampamento avançado, um lugar remoto, a 80 graus de latitude sul.
O que se sente num local tão isolado e frio?
A temperatura mais baixa foi de 28 graus negativos. Mas, devido às fortes rajadas de vento, a sensação térmica era de 40 graus negativos. O acampamento avançado ficava no meio do platô do manto de gelo da Antártica Ocidental, que atinge mais de 2 mil metros de altitude na região e é um dos locais mais secos do planeta. Descrever a paisagem é simples: é o nada no meio do nada. É um platô de neve, plano e sem limites. O local é extremamente agressivo. O menor erro, como sair no meio de uma nevasca e se perder entre a barraca da cozinha e o banheiro, pode representar a diferença entre a vida e a morte. Nesse ambiente, eu sinto uma tremenda sensação de paz. É uma beleza estranha, bem expressada pelo Americano Richard Byrd (1888–1957), o primeiro explorador a voar até o polo Sul geográfico: “Havia grande beleza ali, daquela maneira como coisas que são também terríveis podem ser belas”.
Qual é a relevância da Antártica no sistema climático mundial?
Ela é fundamental. Lá se formam 80% das correntes frias no fundo dos oceanos e das frentes frias atmosféricas que, às vezes, atingem até o sul da Floresta Amazônica. De forma simplificada, o sistema climático nada mais é que o transporte de energia pelas correntes atmosféricas e oceânicas das regiões tropicaispara as polares. As regiões tropicais do planeta recebem mais energia do Sol do que a perdem para o espaço. Com as polares, ocorre o inverso: perdem mais energia do que recebem. Mas ambas são fundamentais ao equilíbrio do sistema climático. A Antártica é o grande sorvedouro de energia do planeta. Toda a energia para lá transportada se perde. Isso ocorre em razão da existência de seu enorme manto de gelo, que tem 13,6 milhões de quilômetros quadrados. Além disso, ela é circundada por um oceano frio, que, de forma sazonal, tem uma capa de gelo marinho que oscila entre 1,8 milhão de quilômetros quadrados no verão e até 20 milhões de quilômetros quadrados no inverno. Por abrigar tanto gelo e neve, a Antártica pode ser até 40°C mais fria que o Ártico. Ela abriga cerca de 25 milhões de quilômetros cúbicos de gelo. É tanto gelo que, se o colocássemos sobre o Brasil, teríamos quase 3 quilômetros de espessura de gelo revestindo todo o território nacional.
Sabe-se que há massas de ar frio que saem da Antártica e chegam ao Brasil. O contrário ocorre? Há vestígios de partículas de poeira transportadas da América do Sul no gelo antártico?
Sim. Correntes oceânicas e atmosféricas ocorrem nos dois sentidos. Assim, material dos trópicos é transportado para as duas regiões polares. Há cerca de 20 anos já se detectam partículas provenientes da América do Sul na Antártica.
A Antártica pode também conter indícios dos incêndios florestais comuns no Brasil?
Isso ainda não está claro. No Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, pretendemos detectar e determinar a quantidade de subprodutos da queima da biomassa, comoa da Floresta Amazônica, transportados para a Antártica. Esse trabalho começou no primeiro semestre de 2009.
Afinal, o gelo antártico está derretendo?
Sim e não... Depende do lugar. O gelo da península Antártica, sua área mais amena, está derretendo, sim. Ali, ocorre o derretimento da neve e do gelo, a retração de geleiras, a migração para o sul de pinguins e até o aparecimento de gramíneas. As plataformas de gelo, nome dado às partes flutuantes das geleiras, estão entrando em colapso e se destruindo. Nos últimos 20 anos já houve uma perda de mais de 22 mil quilômetros quadrados. Mas os dois mantos de gelo da Antártica, que ficam abaixo dos 68 graus de latitude sul, não estão derretendo. Eles têm espessura média de 1 920 metros, com uma máxima constatada até agora de 4 776 metros. No último verão, nesse ponto mais elevado, os chineses montaram uma base, a estação Kulun. Deve ser o local mais frio da Terra. A temperatura no inverno cai abaixo de 90°C negativos.
Então quanto do gelo antártico já derreteu?
Menos de 0,0001%. Ou seja, quase nada em relação ao volume total. Se ele derretesse todo, o nível dos mares subiria 60 metros. Mas isso não irá acontecer. É ficção científica. Não existe a menor possibilidade física de mais de 10% de todo o gelo derreter em menos de 200 anos. Até agora, a contribuição da Antártica para o aumento no nível do mar é mínima. O que está derretendo é o gelo da Groenlândia e o das montanhas temperadas e tropicais, como Andes, Rochosas e Himalaia.
O que pode acontecer se as previsões dos cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) estiverem corretas e a temperatura média do planeta subir mais?
As previsões atuais indicam que até 2100 a temperatura atmosférica deve subir até 4°C. Se isso ocorrer, a contribuição do derretimento do gelo antártico para o aumento no nível do mar ainda será reduzida. E só acontecerá mesmo e principalmente devido ao derretimento do gelo na península Antártica. Ou seja, se até 2100 houver mesmo um aumento de até 140 centímetros no nível do mar, a Antártica deverá contribuir com menos de 10%. O problema é que ainda temos muitas dúvidas em relação à estabilidade de algumas geleiras na Antártica Ocidental, ao sul da península Antártica, que poderiam deslizar mais rapidamente mar adentro.
Como se formaram os lagos descobertos abaixo das espessas camadas de gelo antártico?
Dados recentes indicam que sob camadas de gelo que oscilam entre 3 e 4 quilômetros de espessura já foram encontrados mais de 170 lagos espalhados pela Antártica. Há algumas teorias sobre sua formação. A mais aceita é a que eles decorrem do chamado calor geotermal, nome dado ao calor emitido pela crosta da Terra. Como o gelo é um ótimo isolante térmico, o calor não se dissipa. Com isso, o espaço entre o gelo e a rocha é preenchido pela água – que parece estar isolada do resto do planeta há milhões de anos. Na década de 1990, os cientistas se deram conta de que o maior deles, o Vostok, era tão grande – 10 mil quilômetros quadrados de área – quanto profundo. A água atinge 500 metros de profundidade antes de alcançar a rocha.
Em sua opinião, quem foi o maior explorador polar?
O norueguês Fritjof Nansen (1861–1930). Ele foi o mais completo de todos, um grande cientista. No fim do século 19, Nansen realizou as primeiras expedições polares realmente científicas. Ele provou que o Ártico é um oceano circundado por terra; construiu o Fram, navio que não afundava no gelo, que depois foi usado pelo também norueguês Roald Amundsen na Antártica. Nansen, também considerado um dos pais da oceanografia, tornou-se diplomata, foi um dos fundadoresda Liga das Nações e, em 1922, ganhou o Prêmio Nobel da Paz por suas ações junto ao comissariado de refugiados. Ele foi, sem dúvida, um homem à frente de seu tempo.