Estudo McKinsey - Floresta
Preservação em pauta
Painel temático discutiu a importância das populações tradicionais e da regulação fundiária na preservação das florestas na Amazônia
Sucena Shkrada Resk
Planeta Sustentável - 12/03/2009
[img1] Respeito aos povos da floresta junto à regulação fundiária e ações construídas pelo Estado em parceria com a iniciativa privada e a sociedade são elementos importantes na preservação das florestas. Essa é a conclusão do painel Iniciativas para reduzir o desmatamento da Amazônia, realizado nesta quinta-feira, na sede da Editora Abril, em São Paulo, durante o lançamento do Estudo sobre Economia de Baixo Carbono no Brasil, uma parceria do Planeta Sustentável com a McKinsey.
O debate teve a participação de João Fortes, coordenador da Rede Povos da Floresta; de Roberto Waack, da Amata Brasil – Inteligência da Floresta Viva; de Marcelo Françozo, secretário-adjunto de Estado do Meio Ambiente do Pará, e de Marcus Frank, diretor do Departamento Brasileiro de Mudanças Climáticas da McKinsey. A mediação foi do editor de Veja, Ronaldo França.
João Fortes narrou a experiência que mantém com povos tradicionais do Alto Juruá, do Acre, destacando que lutam pela conquista da auto-sustentabilidade em Flonas (Florestas Nacionais) e em Resex (Reservas Extrativistas). Essa é uma bandeira da população tradicional da Amazônia, segundo ele.
Ao mesmo tempo, vivem uma dicotomia. "Muitos mudaram suas tradições, e caçam hoje com cachorros, que é uma maneira inadequada. Algumas prefeituras também começam a estimular agricultura familiar nestas localidades, que difere da aplicação do conceito do uso sustentável da terra", afirma.
Segundo Fortes, o desafio é que essas populações voltem a viver da floresta. Por outro lado, batalham introduzir o uso sustentável da floresta. "Reivindicam que a merenda escolar possa vir da própria terra", diz.
A questão das migrações na Amazônia é mais um aspecto a ser observado, segundo Roberto Waack. "Há a desvalorização dos produtos florestais amazônicos. O açaí, por exemplo, se transformou em um produto de valor imenso no mercado norte-americano, e absorvemos aqui, no Brasil, muito pouco", fala. Ele defende que deve haver o equilíbrio do reconhecimento dessas populações para estabelecer o conceito de sustentabilidade.
Durante o painel, foi apresentada experiência vivida por seringueiros, em Xapuri, no Acre, na reserva extrativista de látex, onde viveu Chico Mendes, como um exemplo de iniciativas que estão dando certo. Os seringueiros vendem a matéria-prima para uma empresa de camisinhas, por meio do sistema de gestão de PPC (Parceria Público Privada).
PAPEL DO ESTADO
Segundo Marcelo Françozo, cabe ao Estado ter um papel indutor para políticas de manutenção dos povos das florestas em suas regiões. Ele citou como exemplo a iniciativa governamental do Programa Um Bilhão de Árvores. "Tem a proposta de induzir o reordenamento econômico das populações marginalizadas, ao substituir a criação de gado e outras atividades pouco sustentáveis", afirma.
Roberto Waack reforçou que é impossível a existência de desenvolvimento com a ausência do Estado. "Um dos grandes problemas da Amazônia é a falta de regras do jogo bem definidas quanto à questão fundiária, que repercute no desflorestamento. Outro são ações de curto prazo que não combinam com a sustentabilidade e com uma malha social sólida", diz. Em sua opinião, a proposta do programa "Um Bilhão de Árvores" é um paradigma novo.
Um dos desafios na Amazônia é a ausência efetiva do poder federal, de acordo com o secretário-adjunto do Estado do Meio Ambiente do Pará. No nível estadual, segundo ele, os estados são paupérrimos, e o nível de educação é aquém do que deveria ser. Outra questão é o fato de o tema meio ambiente ainda ser recente e não tem ressonância no meio política e na própria sociedade. "Faltam marcos regulatórios, regulação fundiária, entre outros elementos", diz.
"A gente anda pelo interior do Pará e há muitas áreas degradadas, em que não há pasto dentro. Existe a mesma lógica do morro, com a grilagem", afirma. Waack considera que a pecuária tem o papel de demarcação de território. "É importante verificar que a pecuária de leite à segurança alimentar da população não têm ligação direta com o desmatamento".
REGULAÇÃO FUNDIÁRIA
Segundo Paulo Barreto, pesquisador sênior do Imazon, presente ao evento, muitas vezes, o Estado está presente, mas com incentivos errados. "Se a pecuária provoca desmatamento, é porque há subsídio. Com a falta de regulação fundiária, há desmatamento especulativo com sinais de mercado, que tem relação com a pecuária ou preços de grãos", fala.
A medida provisória da regulação fundiária não elimina os subsídios perversos, de acordo com Barreto. "Não se deve esperar o papel do Estado, sem haver participação da sociedade civil. A liderança virá da junção dos interesses sociais e empresariais sérios", considera.
Para Marcus Frank, mesmo com a regulação fundiária, é um desafio social tirar o agricultor da terra, na Amazônia, onde vive cerca de 25 milhões de pessoas. "A partir do momento que se atrai empresas formais, propicia a regularização. Acredito que o novo modelo de regulação deve reunir Estado, sociedade e iniciativa privada", diz.
Confira a cobertura completa do evento.
[img1] Respeito aos povos da floresta junto à regulação fundiária e ações construídas pelo Estado em parceria com a iniciativa privada e a sociedade são elementos importantes na preservação das florestas. Essa é a conclusão do painel Iniciativas para reduzir o desmatamento da Amazônia, realizado nesta quinta-feira, na sede da Editora Abril, em São Paulo, durante o lançamento do Estudo sobre Economia de Baixo Carbono no Brasil, uma parceria do Planeta Sustentável com a McKinsey.
O debate teve a participação de João Fortes, coordenador da Rede Povos da Floresta; de Roberto Waack, da Amata Brasil – Inteligência da Floresta Viva; de Marcelo Françozo, secretário-adjunto de Estado do Meio Ambiente do Pará, e de Marcus Frank, diretor do Departamento Brasileiro de Mudanças Climáticas da McKinsey. A mediação foi do editor de Veja, Ronaldo França.
João Fortes narrou a experiência que mantém com povos tradicionais do Alto Juruá, do Acre, destacando que lutam pela conquista da auto-sustentabilidade em Flonas (Florestas Nacionais) e em Resex (Reservas Extrativistas). Essa é uma bandeira da população tradicional da Amazônia, segundo ele.
Ao mesmo tempo, vivem uma dicotomia. "Muitos mudaram suas tradições, e caçam hoje com cachorros, que é uma maneira inadequada. Algumas prefeituras também começam a estimular agricultura familiar nestas localidades, que difere da aplicação do conceito do uso sustentável da terra", afirma.
Segundo Fortes, o desafio é que essas populações voltem a viver da floresta. Por outro lado, batalham introduzir o uso sustentável da floresta. "Reivindicam que a merenda escolar possa vir da própria terra", diz.
A questão das migrações na Amazônia é mais um aspecto a ser observado, segundo Roberto Waack. "Há a desvalorização dos produtos florestais amazônicos. O açaí, por exemplo, se transformou em um produto de valor imenso no mercado norte-americano, e absorvemos aqui, no Brasil, muito pouco", fala. Ele defende que deve haver o equilíbrio do reconhecimento dessas populações para estabelecer o conceito de sustentabilidade.
Durante o painel, foi apresentada experiência vivida por seringueiros, em Xapuri, no Acre, na reserva extrativista de látex, onde viveu Chico Mendes, como um exemplo de iniciativas que estão dando certo. Os seringueiros vendem a matéria-prima para uma empresa de camisinhas, por meio do sistema de gestão de PPC (Parceria Público Privada).
PAPEL DO ESTADO
Segundo Marcelo Françozo, cabe ao Estado ter um papel indutor para políticas de manutenção dos povos das florestas em suas regiões. Ele citou como exemplo a iniciativa governamental do Programa Um Bilhão de Árvores. "Tem a proposta de induzir o reordenamento econômico das populações marginalizadas, ao substituir a criação de gado e outras atividades pouco sustentáveis", afirma.
Roberto Waack reforçou que é impossível a existência de desenvolvimento com a ausência do Estado. "Um dos grandes problemas da Amazônia é a falta de regras do jogo bem definidas quanto à questão fundiária, que repercute no desflorestamento. Outro são ações de curto prazo que não combinam com a sustentabilidade e com uma malha social sólida", diz. Em sua opinião, a proposta do programa "Um Bilhão de Árvores" é um paradigma novo.
Um dos desafios na Amazônia é a ausência efetiva do poder federal, de acordo com o secretário-adjunto do Estado do Meio Ambiente do Pará. No nível estadual, segundo ele, os estados são paupérrimos, e o nível de educação é aquém do que deveria ser. Outra questão é o fato de o tema meio ambiente ainda ser recente e não tem ressonância no meio política e na própria sociedade. "Faltam marcos regulatórios, regulação fundiária, entre outros elementos", diz.
"A gente anda pelo interior do Pará e há muitas áreas degradadas, em que não há pasto dentro. Existe a mesma lógica do morro, com a grilagem", afirma. Waack considera que a pecuária tem o papel de demarcação de território. "É importante verificar que a pecuária de leite à segurança alimentar da população não têm ligação direta com o desmatamento".
REGULAÇÃO FUNDIÁRIA
Segundo Paulo Barreto, pesquisador sênior do Imazon, presente ao evento, muitas vezes, o Estado está presente, mas com incentivos errados. "Se a pecuária provoca desmatamento, é porque há subsídio. Com a falta de regulação fundiária, há desmatamento especulativo com sinais de mercado, que tem relação com a pecuária ou preços de grãos", fala.
A medida provisória da regulação fundiária não elimina os subsídios perversos, de acordo com Barreto. "Não se deve esperar o papel do Estado, sem haver participação da sociedade civil. A liderança virá da junção dos interesses sociais e empresariais sérios", considera.
Para Marcus Frank, mesmo com a regulação fundiária, é um desafio social tirar o agricultor da terra, na Amazônia, onde vive cerca de 25 milhões de pessoas. "A partir do momento que se atrai empresas formais, propicia a regularização. Acredito que o novo modelo de regulação deve reunir Estado, sociedade e iniciativa privada", diz.
Confira a cobertura completa do evento.