estudo mckinsey - Indústria
Indústria de baixo carbono
Algumas iniciativas pontuais, baseadas no aumento da eficiência em todos os processos - maquinário, instalações, adoção de energias renováveis e captura e armazenagem de carbono - podem diminuir não só as emissões do setor siderúrgico, como também os custos
Caio Neumann
Planeta Sustentável - 12/03/2009
Em painel mediado pelo jornalista Denis Russo Burgierman - colunista da revista Vida Simples, autor do blog Sustentabilidade é pouco (do site da Veja) e conselheiro do Planeta Sustentável - Katsuo Homma, coordenador executivo da Vale, e Wieland Gurlit, diretor da McKinsey, debateram o papel do setor da siderurgia e de suas emissões de carbono no Brasil.
[img1]Em sua apresentação, que deu início às discussões, Gurlit afirmou que a siderurgia está entre os setores que mais possibilitam o abatimento das emissões de CO². “O aumento da eficiência do maquinário e das instalações, o aumento do uso de energia renovável nos processos e a captura e armazenagem de carbono não são ações distantes para o setor”, explicou o diretor da McKinsey.
Além dessas iniciativas, se a produção do ferro gusa – o Brasil se destaca como maior produtor mundial – for proveniente de carvão vegetal, produzido a partir de reflorestamento e não de matas nativas, o processo passa a ser ainda mais ambientalmente impactante e com muito menos emissão de carbono.
Outro processo para o abatimento das emissões, segundo Gurlit, é o Carbon Capture Storage ou CCS, que consiste na captura de CO² e sua injeção em formações geológicas no subsolo. Porém, esse processo ainda está em fase conceitual e é muito caro.
No início do debate, Homma, da Vale, ponderou que, mesmo que esse processo fosse uma realidade os dutos recolhedores de carbono precisariam passar por propriedades e se estender por muitos quilômetros para chegar às formações geológicas próprias para o depósito do carbono. Isso deixa ainda mais distante a possibilidade de adoção do CCS na indústria brasileira. Porém, segundo o estudo da McKinsey - Caminhos para uma economia de baixa emissão de carbono no Brasil - as oportunidades de abatimento com CCS somam 22 MtCO²e com custo de € 46/tCO²e. No total, os 50 MtCO2e de abatimento potencial permitem que as emissões sejam reduzidas em 38% até 2030. Isso, com o cenário de que a capacidade de produção do setor siderúrgico pode aumentar três vezes até lá.
Para Gurlit, se o crescimento for acompanhado de eficiência ambiental, isso pode trazer ainda mais oportunidades de negócio para as empresas brasileiras, o que compensaria o investimento. Vale lembrar, comentou o diretor da Mckinsey, que o CCS é uma tecnologia ainda em desenvolvimento. “Nós trabalhamos o estudo com o prazo de abatimento até 2030. Acreditamos que em 20 anos, essa tecnologia estará melhor solucionada e operante”, explicou.
Enquanto o CCS e o aumento da eficiência da maquinaria e de processos pede grandes investimentos, iniciativas como o aumento do uso de energia renovável e o de eficiência energética devem ser consideradas, pois trazem um bônus econômico embutido considerável para as empresas que os implantam.
REGULAMENTAÇÃO VOLUNTÁRIA?
Quando questionados sobre regulamentação mundial do setor, tanto o representante da Vale, quanto da McKinsey concordaram em um aspecto da questão: ela não é viável, mesmo que seja ideal do ponto de vista ambiental. “A implementação de metas mundiais pode prejudicar os setores. Cada país deve adaptar internamente o que é discutido em âmbito global. É complicado desenvolver metas setoriais mundiais”, salientou Homma. Ele também argumentou que se a indústria aderir a alguma regulamentação voluntariamente, e essa regulamentação exigir investimentos muito altos, a empresa expõe a economia local a outro país que não o tenha feito.
Gurlit concordou com o Homma, acresecentando que, para qualquer país onde a regulamentação esteja em um nível inferior ao dos países europeus, por exemplo, o preço para se chegar à meta estipulada será repassado para o produto, portanto maior do que nos países com políticas mais rigorosas já instaladas. Isso prejudica competitivamente o negócio.
Quando questionado se a Vale - uma das maiores empresas do segmento - tem papel regulatório sobre sua cadeia produtiva, Homma logo rebateu: “Temos o papel de indutores, mas não assumimos o papel que cabe ao governo: esse, sim, é regulatório. Podemos - claro! - induzir o comportamento ambiental da nossa cadeia. Mas o que temos que fazer é construir processos para induzir esse comportamento”.
O coordenador executivo também disse que a companhia passa por um momento de ampliar o conhecimento sobre o assunto. A partir do instante em que a questão ambiental se torna negócio, o debate se fica mais sério e a discussão passa a ter o foco não apenas sobre o problema, mas também sobre a procura de soluções. “Trabalhos que trazem dados para a companhia analisar e refletir sobre a tomada de decisões são importantes e é exatamente esse o impacto do estudo da McKinsey para a Vale”, afirmou.
Sobre o fato de o governo estipular metas para as companhias, Homma se mostrou desfavorável. “Se o governo estabelecer uma meta muito distante da nossa realidade, novamente, teremos que repassar o custo de adaptação para o produto e a companhia perde competitividade no mercado. Não acho que o estabelecimento de metas seja algo interessante”, argumentou. O diretor da McKinsey pensa diferente e disse que, em algum momento, é necessário ter incentivos e estipulação de metas por parte do governo. A emissão de carbono, segundo ele, tem que ter um preço financeiro para as companhias. "A princípio, essas metas precisam ser negociadas com elas, mas não podem deixar de existir".
Ele também afirmou que a ambição do estudo não é de dar uma única resposta para a questão, mas mostrar sua importância e iniciar um debate consistente baseado em um custo calculado. “A redução das emissões de CO² é uma necessidade mundial, e o Brasil é privilegiado, pois o custo anual de 17 bilhões de reais para o abatimento da metade das suas emissões é baixo se comparado a outros países”, completou Gurlit.
Confira a cobertura completa do evento
Em painel mediado pelo jornalista Denis Russo Burgierman - colunista da revista Vida Simples, autor do blog Sustentabilidade é pouco (do site da Veja) e conselheiro do Planeta Sustentável - Katsuo Homma, coordenador executivo da Vale, e Wieland Gurlit, diretor da McKinsey, debateram o papel do setor da siderurgia e de suas emissões de carbono no Brasil.
[img1]Em sua apresentação, que deu início às discussões, Gurlit afirmou que a siderurgia está entre os setores que mais possibilitam o abatimento das emissões de CO². “O aumento da eficiência do maquinário e das instalações, o aumento do uso de energia renovável nos processos e a captura e armazenagem de carbono não são ações distantes para o setor”, explicou o diretor da McKinsey.
Além dessas iniciativas, se a produção do ferro gusa – o Brasil se destaca como maior produtor mundial – for proveniente de carvão vegetal, produzido a partir de reflorestamento e não de matas nativas, o processo passa a ser ainda mais ambientalmente impactante e com muito menos emissão de carbono.
Outro processo para o abatimento das emissões, segundo Gurlit, é o Carbon Capture Storage ou CCS, que consiste na captura de CO² e sua injeção em formações geológicas no subsolo. Porém, esse processo ainda está em fase conceitual e é muito caro.
No início do debate, Homma, da Vale, ponderou que, mesmo que esse processo fosse uma realidade os dutos recolhedores de carbono precisariam passar por propriedades e se estender por muitos quilômetros para chegar às formações geológicas próprias para o depósito do carbono. Isso deixa ainda mais distante a possibilidade de adoção do CCS na indústria brasileira. Porém, segundo o estudo da McKinsey - Caminhos para uma economia de baixa emissão de carbono no Brasil - as oportunidades de abatimento com CCS somam 22 MtCO²e com custo de € 46/tCO²e. No total, os 50 MtCO2e de abatimento potencial permitem que as emissões sejam reduzidas em 38% até 2030. Isso, com o cenário de que a capacidade de produção do setor siderúrgico pode aumentar três vezes até lá.
Para Gurlit, se o crescimento for acompanhado de eficiência ambiental, isso pode trazer ainda mais oportunidades de negócio para as empresas brasileiras, o que compensaria o investimento. Vale lembrar, comentou o diretor da Mckinsey, que o CCS é uma tecnologia ainda em desenvolvimento. “Nós trabalhamos o estudo com o prazo de abatimento até 2030. Acreditamos que em 20 anos, essa tecnologia estará melhor solucionada e operante”, explicou.
Enquanto o CCS e o aumento da eficiência da maquinaria e de processos pede grandes investimentos, iniciativas como o aumento do uso de energia renovável e o de eficiência energética devem ser consideradas, pois trazem um bônus econômico embutido considerável para as empresas que os implantam.
REGULAMENTAÇÃO VOLUNTÁRIA?
Quando questionados sobre regulamentação mundial do setor, tanto o representante da Vale, quanto da McKinsey concordaram em um aspecto da questão: ela não é viável, mesmo que seja ideal do ponto de vista ambiental. “A implementação de metas mundiais pode prejudicar os setores. Cada país deve adaptar internamente o que é discutido em âmbito global. É complicado desenvolver metas setoriais mundiais”, salientou Homma. Ele também argumentou que se a indústria aderir a alguma regulamentação voluntariamente, e essa regulamentação exigir investimentos muito altos, a empresa expõe a economia local a outro país que não o tenha feito.
Gurlit concordou com o Homma, acresecentando que, para qualquer país onde a regulamentação esteja em um nível inferior ao dos países europeus, por exemplo, o preço para se chegar à meta estipulada será repassado para o produto, portanto maior do que nos países com políticas mais rigorosas já instaladas. Isso prejudica competitivamente o negócio.
Quando questionado se a Vale - uma das maiores empresas do segmento - tem papel regulatório sobre sua cadeia produtiva, Homma logo rebateu: “Temos o papel de indutores, mas não assumimos o papel que cabe ao governo: esse, sim, é regulatório. Podemos - claro! - induzir o comportamento ambiental da nossa cadeia. Mas o que temos que fazer é construir processos para induzir esse comportamento”.
O coordenador executivo também disse que a companhia passa por um momento de ampliar o conhecimento sobre o assunto. A partir do instante em que a questão ambiental se torna negócio, o debate se fica mais sério e a discussão passa a ter o foco não apenas sobre o problema, mas também sobre a procura de soluções. “Trabalhos que trazem dados para a companhia analisar e refletir sobre a tomada de decisões são importantes e é exatamente esse o impacto do estudo da McKinsey para a Vale”, afirmou.
Sobre o fato de o governo estipular metas para as companhias, Homma se mostrou desfavorável. “Se o governo estabelecer uma meta muito distante da nossa realidade, novamente, teremos que repassar o custo de adaptação para o produto e a companhia perde competitividade no mercado. Não acho que o estabelecimento de metas seja algo interessante”, argumentou. O diretor da McKinsey pensa diferente e disse que, em algum momento, é necessário ter incentivos e estipulação de metas por parte do governo. A emissão de carbono, segundo ele, tem que ter um preço financeiro para as companhias. "A princípio, essas metas precisam ser negociadas com elas, mas não podem deixar de existir".
Ele também afirmou que a ambição do estudo não é de dar uma única resposta para a questão, mas mostrar sua importância e iniciar um debate consistente baseado em um custo calculado. “A redução das emissões de CO² é uma necessidade mundial, e o Brasil é privilegiado, pois o custo anual de 17 bilhões de reais para o abatimento da metade das suas emissões é baixo se comparado a outros países”, completou Gurlit.
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