Estudo McKinsey - Amazônia
Combate ao desmatamento pode reduzir emissões em 70%
O setor que coloca o Brasil como o quarto maior emissor de gases de efeito estufa do mundo é, também, o que apresenta mais oportunidades de abatimento de carbono
Thays Prado
Planeta Sustentável - 12/03/2009
No segundo painel de apresentação do estudo da McKinsey, em evento organizado pelo Planeta Sustentável, Stefan Matzinger, sócio-diretor da companhia, abordou as emissões de carbono e as oportunidades de redução no setor de floretas.
O Brasil possui a maior área de florestas do mundo – aproximadamente 460 milhões de hectares – e, ao mesmo tempo, a maior taxa de desmatamento do planeta. Sua preservação é de interesse global não apenas pelas preocupações com a biodiversidade e a alteração do nível de chuvas no sul e no sudeste do país, mas também em função das mudanças climáticas.
Enquanto em outros países, a geração de energia e transporte são os maiores emissores de carbono – chegando a 40% do total – e o setor de florestas e agricultura representam outros 20%, no Brasil, pelo fato de nossa matriz energética ser majoritariamente hidroelétrica e por conta do uso considerável de etanol na frota automobilística, energia e transporte representam apenas 6% do total das nossas emissões.
Por outro lado, o setor de florestas é responsável por aproximadamente 55% da quantidade de carbono lançada na atmosfera atualmente e, se mantidos os níveis de desflorestamento, por pelo menos 43% em 2030. Ao mesmo tempo, seu potencial de abatimento de emissões é de 70%. A prática do desmatamento, hoje, é responsável por 1,2GtCO2 e, se nada for feito, pode chegar a 2,8GtCO2 em 2030. Para se ter uma ideia, se o setor florestal fosse desconsiderado, o Brasil deixaria de contribuir com 5% das emissões globais e emitiria o equivalente a 2%.
Das 12 tCO2 (toneladas de CO2 equivalente) per capita no Brasil, 7tCO2 são provenientes do setor florestal – o que estabelece a diferença entre sermos um país com mais emissões per capita do que a Europa (que atualmente emite 10tCO2 per capita) ou um país com níveis de emissões entre baixos e médios.
O cenário da Amazônia encontrado pelo estudo, entre outras questões, foi:
- 20% da madeira comercializada no Brasil é ilegal;
- 230 mil pessoas trabalham na cadeia produtiva da madeira, desde a extração até o setor moveleiro;
- a pecuária na Amazônia já representa 33% das cabeças de gado do país – em torno de 60 milhões – e é destinada ao consumo interno, apesar de sermos o maior exportador de carne do mundo.
Entre as dificuldades em reduzir o desmatamento, está a fragmentação dos atores envolvidos na região amazônica, sua extensão territorial e o próprio modelo histórico de ocupação, que gerou um crescimento populacional de 3 milhões para 25 milhões de pessoas entre 1979 e 2008 e contribuiu para a destruição da floresta. O desafio de frear o desmatamento está diretamente ligado à presença efetiva do governo no local, com a promoção da regularização fundiária e a garantia de empregos formais – e sustentáveis – para as pessoas que ainda vivem da destruição da floresta.
Por isso, a McKinsey detectou iniciativas que podem ser desenvolvidas, simultaneamente, para mudar esse quadro. São elas:
Fortalecimento das instituições: Nesse quesito, a regularização fundiária é peça chave para que a lei seja, de fato, cumprida. Atualmente, menos de 10% das terras amazônicas têm títulos de propriedade. A polícia e o Judiciário também precisam ser mais efetivos na região.
Reforço do controle do Estado: É necessário fazer um monitoramento eficiente não apenas por satélite, que contabiliza o que foi destruído, mas por meio de ações que reduzam o desmatamento na prática. Mecanismos como a rastreabilidade do gado e da soja, o zoneamento ecológico e o apoio da população local como verdadeiros guardiões da floresta – recompensados por ativos financeiros – foram apontados como eficientes nesse sentido.
Incentivos: Cabe ao Estado fazer com que a floresta valha mais em pé do que derrubada. Como muitas pessoas sobrevivem da destruição da Amazônia, é fundamental gerar alternativas de emprego, compensar os proprietários de terras que mantiverem suas florestas, e gerar custo de oportunidades para as práticas sustentáveis, além de penalizar os players que continuarem com o desenvolvimento predatório por meio da redução de financiamentos e multas.
Desenvolvimento: Estima-se que haja mais de dois milhões de empregos na Amazônia ligados a atividades que envolvem o desmatamento. Por isso, para combater a prática, é necessário aumentar a renda das pessoas abaixo da linha da pobreza, elevar a qualidade da saúde e da educação na região.
De acordo com a McKinsey, o governo deveria gastar 17,2 bilhões de dólares com essas iniciativas pelos próximos vinte anos.
Esses investimentos se transformariam, segundo Stefan Matzinger, em uma grande oportunidade para o país, que também poderia aproveitar a recuperação de terras degradadas, tanto para exploração de madeira e celulose em florestas plantadas, quanto para recuperação de áreas de preservação permanente. Uma vez que o crescimento de florestas captura carbono da atmosfera, o que pode atrair o interesse de diversos países envolvidos nos mercados globais de carbono e gerar rendimentos para o Brasil.
PAINEL DE DISCUSSÃO
O painel mediado por Ronaldo França, da revista Veja, elogiou o estudo realizado pela companhia. Roberto Waack, membro do Board do FSC, ressaltou que, a partir desses dados, é possível começar a pensar em um desenvolvimento sustentável tropical em vez de considerar a floresta como um simples depósito de carbono. Tasso Rezende de Azevedo, diretor do Serviço Florestal Brasileiro, do Ministério do Meio Ambiente, disse que os custos de bilhões com a preservação da floresta são pequenos quando comparados com seus benefícios e reforçou a ideia de que esforços adicionais devem ser feitos para evitarmos os danos do aquecimento global. “Se a temperatura aumentar mesmo os dois graus previstos, perderemos 20% da Amazônia”.
Marcelo Furtado, diretor-executivo do Greenpeace no Brasil, alertou que é necessário tomar cuidado com o mercado de crédito de carbono para assegurar que os países desenvolvidos também cumpram suas tarefas de redução de emissões em seus próprios territórios.
Sérgio Amoroso, presidente do Grupo ORSA, aposta no foco nas condições humanas para resolver as questões amazônicas. Para ele, as reduções de carbono seriam uma conseqüência natural desse incentivo.
Adalberto Veríssimo, pesquisador sênior do Imazon, lembrou a necessidade de o debate sobre as mudanças climáticas se tornar transversal e disse que, pelo menos a princípio, será necessário fazer escolhas de investimentos em políticas públicas voltadas para o assunto.
Confira a cobertura completa do evento.
No segundo painel de apresentação do estudo da McKinsey, em evento organizado pelo Planeta Sustentável, Stefan Matzinger, sócio-diretor da companhia, abordou as emissões de carbono e as oportunidades de redução no setor de floretas.
O Brasil possui a maior área de florestas do mundo – aproximadamente 460 milhões de hectares – e, ao mesmo tempo, a maior taxa de desmatamento do planeta. Sua preservação é de interesse global não apenas pelas preocupações com a biodiversidade e a alteração do nível de chuvas no sul e no sudeste do país, mas também em função das mudanças climáticas.
Enquanto em outros países, a geração de energia e transporte são os maiores emissores de carbono – chegando a 40% do total – e o setor de florestas e agricultura representam outros 20%, no Brasil, pelo fato de nossa matriz energética ser majoritariamente hidroelétrica e por conta do uso considerável de etanol na frota automobilística, energia e transporte representam apenas 6% do total das nossas emissões.
Por outro lado, o setor de florestas é responsável por aproximadamente 55% da quantidade de carbono lançada na atmosfera atualmente e, se mantidos os níveis de desflorestamento, por pelo menos 43% em 2030. Ao mesmo tempo, seu potencial de abatimento de emissões é de 70%. A prática do desmatamento, hoje, é responsável por 1,2GtCO2 e, se nada for feito, pode chegar a 2,8GtCO2 em 2030. Para se ter uma ideia, se o setor florestal fosse desconsiderado, o Brasil deixaria de contribuir com 5% das emissões globais e emitiria o equivalente a 2%.
Das 12 tCO2 (toneladas de CO2 equivalente) per capita no Brasil, 7tCO2 são provenientes do setor florestal – o que estabelece a diferença entre sermos um país com mais emissões per capita do que a Europa (que atualmente emite 10tCO2 per capita) ou um país com níveis de emissões entre baixos e médios.
O cenário da Amazônia encontrado pelo estudo, entre outras questões, foi:
- 20% da madeira comercializada no Brasil é ilegal;
- 230 mil pessoas trabalham na cadeia produtiva da madeira, desde a extração até o setor moveleiro;
- a pecuária na Amazônia já representa 33% das cabeças de gado do país – em torno de 60 milhões – e é destinada ao consumo interno, apesar de sermos o maior exportador de carne do mundo.
Entre as dificuldades em reduzir o desmatamento, está a fragmentação dos atores envolvidos na região amazônica, sua extensão territorial e o próprio modelo histórico de ocupação, que gerou um crescimento populacional de 3 milhões para 25 milhões de pessoas entre 1979 e 2008 e contribuiu para a destruição da floresta. O desafio de frear o desmatamento está diretamente ligado à presença efetiva do governo no local, com a promoção da regularização fundiária e a garantia de empregos formais – e sustentáveis – para as pessoas que ainda vivem da destruição da floresta.
Por isso, a McKinsey detectou iniciativas que podem ser desenvolvidas, simultaneamente, para mudar esse quadro. São elas:
Fortalecimento das instituições: Nesse quesito, a regularização fundiária é peça chave para que a lei seja, de fato, cumprida. Atualmente, menos de 10% das terras amazônicas têm títulos de propriedade. A polícia e o Judiciário também precisam ser mais efetivos na região.
Reforço do controle do Estado: É necessário fazer um monitoramento eficiente não apenas por satélite, que contabiliza o que foi destruído, mas por meio de ações que reduzam o desmatamento na prática. Mecanismos como a rastreabilidade do gado e da soja, o zoneamento ecológico e o apoio da população local como verdadeiros guardiões da floresta – recompensados por ativos financeiros – foram apontados como eficientes nesse sentido.
Incentivos: Cabe ao Estado fazer com que a floresta valha mais em pé do que derrubada. Como muitas pessoas sobrevivem da destruição da Amazônia, é fundamental gerar alternativas de emprego, compensar os proprietários de terras que mantiverem suas florestas, e gerar custo de oportunidades para as práticas sustentáveis, além de penalizar os players que continuarem com o desenvolvimento predatório por meio da redução de financiamentos e multas.
Desenvolvimento: Estima-se que haja mais de dois milhões de empregos na Amazônia ligados a atividades que envolvem o desmatamento. Por isso, para combater a prática, é necessário aumentar a renda das pessoas abaixo da linha da pobreza, elevar a qualidade da saúde e da educação na região.
De acordo com a McKinsey, o governo deveria gastar 17,2 bilhões de dólares com essas iniciativas pelos próximos vinte anos.
Esses investimentos se transformariam, segundo Stefan Matzinger, em uma grande oportunidade para o país, que também poderia aproveitar a recuperação de terras degradadas, tanto para exploração de madeira e celulose em florestas plantadas, quanto para recuperação de áreas de preservação permanente. Uma vez que o crescimento de florestas captura carbono da atmosfera, o que pode atrair o interesse de diversos países envolvidos nos mercados globais de carbono e gerar rendimentos para o Brasil.
PAINEL DE DISCUSSÃO
O painel mediado por Ronaldo França, da revista Veja, elogiou o estudo realizado pela companhia. Roberto Waack, membro do Board do FSC, ressaltou que, a partir desses dados, é possível começar a pensar em um desenvolvimento sustentável tropical em vez de considerar a floresta como um simples depósito de carbono. Tasso Rezende de Azevedo, diretor do Serviço Florestal Brasileiro, do Ministério do Meio Ambiente, disse que os custos de bilhões com a preservação da floresta são pequenos quando comparados com seus benefícios e reforçou a ideia de que esforços adicionais devem ser feitos para evitarmos os danos do aquecimento global. “Se a temperatura aumentar mesmo os dois graus previstos, perderemos 20% da Amazônia”.
Marcelo Furtado, diretor-executivo do Greenpeace no Brasil, alertou que é necessário tomar cuidado com o mercado de crédito de carbono para assegurar que os países desenvolvidos também cumpram suas tarefas de redução de emissões em seus próprios territórios.
Sérgio Amoroso, presidente do Grupo ORSA, aposta no foco nas condições humanas para resolver as questões amazônicas. Para ele, as reduções de carbono seriam uma conseqüência natural desse incentivo.
Adalberto Veríssimo, pesquisador sênior do Imazon, lembrou a necessidade de o debate sobre as mudanças climáticas se tornar transversal e disse que, pelo menos a princípio, será necessário fazer escolhas de investimentos em políticas públicas voltadas para o assunto.
Confira a cobertura completa do evento.