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2036, o ano em que Las Vegas pode sumir Julio Lamas - 18/07/2014 às 20:04

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“É difícil imaginar um oásis maior que Las Vegas” diz uma das citações mais famosas sobre a cidade, conhecida na cultura popular por seus luxuosos cassinos e hotéis. Mas a verdade por trás da frase é que esse oásis, o maior centro urbano de Nevada e 30º dos EUA, está secando de maneira lenta e agonizante por conta de sua expansão e seu consumo desenfreado. Para alguns especialistas em recursos hídricos, a Cidade do Pecado corre o risco de desaparecer até 2036 se não encontrar mais água. Como a cidade de São Paulo, que vê suas duas principais reservas de abastecimento se esgotarem, Las Vegas tem investido na busca por soluções, algumas consideradas radicais. “É uma situação tão séria quanto o furacão Katrina ou a supertempestade Sandy”, descreve um comunicado da Autoridade para Água do Sul de Nevada*. Bilhões de dólares estão em jogo.

Fundada em meio ao deserto de Mojave, que se estende por 124 mil quilômetros quadrados abrangendo também territórios dos estados de Utah, Califórnia e Arizona, Las Vegas tem em um bom ano o equivalente a 4 centímetros de chuva, quantidade já insuficiente para atender sua demanda. Contudo, se Las Vegas dependesse de água da chuva como São Paulo, ela não seria possível. Seu crescimento econômico se deu em grande parte desde a década de 1930 graças a Represa Hoover (foto abaixo), uma das maiores obras de engenharia dos EUA, a 50 quilômetros da cidade.

Em operação nos últimos 78 anos, a barragem tornou possível a criação do Lago Mead, um reservatório artificial com capacidade para 15 trilhões de metros cúbicos de água que demorou seis anos para ser enchido e hoje, estima-se, está pela metade. O reservatório responde por 90% do fornecimento da área metropolitana e está se tornando uma aposta cada vez mais arriscada conforme a dependência dele aumenta. Na última década, a população de Las Vegas saltou de 400 mil para 2 milhões de pessoas. O turismo, que responde por 70% da economia local e 46% da força de trabalho ativa, não para de crescer. Dados consolidados de 2013 mostram que mais de 39,6 milhões de pessoas visitaram a cidade no ano passado. E, em consequência, o consumo de água dispara. Em média, para cada morador são consumidos 219  galões (cerca de 829 litros) de água por dia. Na cidade de São Francisco, na Califórnia, que tem proporções semelhantes, a média é de 49 galões por habitante/dia.

“A situação é tão ruim quanto se pode imaginar e só vai piorar. E de maneira rápida”, afirma Tim Barnett, cientista climático do Instituto Scripps de Oceanografia*, um dos centros de estudo mais antigos e prestigiados dos EUA. “A cidade corre contra o relógio para os próximos 20 anos. Se não encontrar outra fonte de água, os negócios vão fechar. Ainda assim, a cidade não para de construir, o que é muito estúpido”, conta. Segundo Barnett, a diminuição do nível da água no Lago Mead, atualmente em 331 metros acima do nível do mar, é preocupante. O lago conta com dois canos de captação, um a 320 metros e outro a 304 metros. “Até o final do ano a expectativa é de que o nível da água abaixe mais 6 metros, mas é provável que com esse ritmo de crescimento e consumo, o primeiro cano comece a sugar ar até lá e o outro dure, no máximo, até o final de 2015”, explica ele. O retrocesso da água é visível conforme ilhas de rochas que nunca foram vistas ali começam a aparecer, inclusive atrapalhando a navegação esportiva no local.

Hoover_dam_from_airO plano de emergência da cidade é construir um cano no ponto mais baixo para sugar o que resta de água do reservatório, a exemplo do que se faz em São Paulo com o volume morto da Cantareira. Mas o processo é muito lento e caro. Ao custo de 817 milhões de dólares, uma sonda de perfuração do tamanho de dois campos de futebol tenta abrir um buraco para o novo cano, avançando apenas um centímetro por dia. Espera-se que até o lago atingir o ponto crítico no final do ano que vem, o projeto esteja concluído.

No longo prazo, a ideia do governo local é poder construir, ao custo de 15,5 bilhões de dólares, uma segunda linha de abastecimento, que levaria 27 bilhões de galões de água subterrânea por ano de um aquífero a 520 quilômetros de distância, na área rural de Nevada. No entanto, o projeto foi embargado por um juiz após ambientalistas mostrarem um estudo de que os dutos necessários afetariam 5,5 mil acres de campos férteis, 65 quilômetros de riachos para trutas e outros 130 mil acres de habitat de perdizes selvagens, veados, alces e antílopes ameaçados de extinção. “Algo assim forneceria a falsa sensação de que há água em abundância e atrasaria decisões sobre restrição de crescimento”, comenta o cientista Rob Mrowka do Centro de Diversidade Biológica*, que fez o estudo para impedir o empreendimento. “O deserto é um câncer que se espalha por vários ecossistemas. Conforme a demanda por água se torna mais desesperadora, Las Vegas terá de começar a pensar em tirar pessoas da cidade para continuar existindo”, afirma ele.

A situação é preocupante. A água do Rio Colorado, onde está a Represa Hoover, é utilizada por mais sete estados, incluindo o de Nevada. A divisão do uso é legitimada por um acordo legal que data de 1922 e desde então é bastante questionado. A vizinha Califórnia, que passa pelo terceiro ano de uma grave estiagem, não pode sequer dividir uma gota, uma vez que mais de 50% da produção de frutas e vegetais dos EUA é feita ali. E uma das proposições para salvar Las Vegas, segundo os especialistas, seria pagar bilhões de dólares ao México para poder construir plataformas de dessalinização no oceano Pacífico. Isso seria inviável no momento, porém todo tipo de solução temporária tem sido levado em conta, inclusive se desfazer dos gramados dos hotéis e resorts de Las Vegas.

Um programa da Autoridade para Água está pagando 1,50 dólar por cada 10 centímetros quadrados de grama removidos de suas propriedades. Até agora, 15 milhões de metros quadrados foram destruídos. “O Colorado é essencialmente um rio prestes a morrer. Eventualmente, Las Vegas e este pedaço da América vão desaparecer, como os índios antes de nós”, profetiza Mrowka.

Autoridade para Água do Sul de Nevada

*Instituto Scripps de Oceanografia

*Centro de Diversidade Biológica

Fotos: Fonte do Hotel Bellagio e Represa Hoover/Wikicommons

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Comentários

25/07/2014 às 14:35 Las Vegas pode desaparecer em 2036 - diz:

[…] Julio Lamas, Blog Urbanidades […]

01/10/2014 às 01:06 Norton Kornijesuk - diz:

Uma cidade com tanto dinheiro e não conseguem encontrar uma solução para a falta de água? O problema começou quando eles decidiram construir os primeiros cassinos no meio do deserto, para escapar das proibições impostas pela lei dos EUA contra o jogo. A máfia controla a maioria dos cassinos até hoje.
Agora dizem que a água está acabando? Deviam ter pensado nisso antes porque não é só a água que está acabando no mundo, é o mundo todo que está acabando! Até 2030 os cientistas preveem que a humanidade toda já terá desaparecido! E agora? Vão transformar dinheiro em água?
A máfia do jogo deveria primeiro pensar em pressionar o governo dos EUA para acabar com a destruição do mundo! Na certa os chefões do jogo já estão com os seus bunkers cheios de mantimentos, armas, bebidas e mulheres que vão garantir sua sobrevivência dentro de um mundo em extinção! Boa sorte para todos eles!

08/10/2014 às 10:44 gabriel - diz:

Sinceramente? lamentable suhuhash. Eu ainda acho que 2030 é muito, do jeito que tá indo…

09/01/2015 às 13:19 Alguém - diz:

Dai graças somente a Deus.

30/01/2015 às 12:34 Alan Mascarenhas - diz:

A solução do Planeta não é buscar novos recursos hídricos pois todos sabem que é escasso. A solução é adotar o reuso da água utilizada. Água de esgoto pode ser tratada através de máquinas de tratamento através de membranas de ultra filtração e processos químicos avançados! Existe no Brasil uma empresa extremamente especializada no processo de montagem, fabricação e instalação de máquinas especificas para o tratamento de água. A empresa é a Perenne Equipamentos de Água S/A. Empresa com sede em São Paulo e unidades fabril em São José dos Campos – SP e Feira de Santana – BA
Telefones: 11 3022-6989. 75 3604-1450.

23/02/2015 às 21:42 marcio - diz:

na certa vão usar agua do mar tratada é so questão de tempo pois dinheiro eles tem.

22/03/2015 às 11:36 Eder Wilson Gomes - diz:

Concordo com Alan Mascarenhas. Acrescento apenas que os EUA erraram na concepção do projeto.

Num primeiro momento, construir numa região de deserto pode parecer extremamente interessante, afinal, significa provocar uma corrente de migração populacional para uma região pouquíssimo habitada.

O problema é que a longo prazo, o desenvolvimento humano concentrou gente demais provocando um estrangulamento. E agora?

Medidas de restrição já deveriam ter sido tomadas a tempos, com tanta informação e dinheiro de que eles dispõem.

O problema é que toda a obra de engenharia civil ali dispensada e toda a exploração local tem por foco a extração o uso, não a recuperação do ambiente e sua proteção diante dessa exploração, uma característica que a inteligência humana precisará alterar: A concepção de projeto voltada para o ambiente, não para o homem. A longo prazo, projetos assim são autofágicos; destruímos todo dia um pedacinho de nossa casa, até ela não existir mais.

Tomara que o Brasil consiga aprender alguma coisa com as experiências dos outros…e comece a PLANEJAR… alguma coisa.

23/04/2015 às 22:04 Como uma tecnologia de mil anos atrás vai abastecer Lima amanhã - Urbanidades - diz:

[…] 2036, o ano em que Las Vegas pode sumir […]

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Das polis gregas aos parques e arranha-céus das megalópoles contemporâneas. Da calma dos subúrbios aos engarrafamentos dos centros. Das soluções das ‘smart cities’ do futuro às possibilidades de cidades mais inteligentes, conectadas e sustentáveis hoje. Sempre presente nas reflexões deste blog, o espaço urbano é a matéria viva das culturas e da nossa realidade coletiva. Aqui, o jornalista JULIO LAMAS será guia e comentarista. Colaborador de diversos veículos e editor associado da agência Xibé, ele estudou Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e Ciências Sociais na USP. No momento, é pós-graduando em Cultura e Artes na UNESP. Em 2013, ganhou o Prêmio de Jornalismo Mobilidade Urbana Sustentável do Institute for Transportation and Development Policy (ITDP), com reportagem para a National Geographic Brasil, publicada no site do Planeta Sustentável.

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