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Chique e sustentável Afonso Capelas Jr. - 02/11/2012 às 17:41

Para muitos ainda um palavrão (no sentido pejorativo), a sustentabilidade está sendo cada dia mais incorporada na indústria de marcas poderosas do mundo da moda. A Puma é uma delas. Lançou, meses atrás, uma linha de tênis fabricados com fibras orgânicas como casca de arroz em substituição ao látex das solas, além de forro e revestimento feito com material totalmente reciclável.

Não é só: a empresa está preparando para 2013 uma coleção que inclui também camisetas, jaquetas e até mochilas biodegradáveis e recicláveis – incluindo as embalagens – e abolindo o uso de produtos químicos ou tóxicos.

A ideia é também responsabilizar-se pelo pós-consumo dos seus produtos. Assim, quando o consumidor quiser descartar determinado item, pode devolvê-lo à empresa para a devida reciclagem. A Puma está incluindo uma tabela de custo ambiental nas etiquetas de seus produtos para informar os consumidores.

Já a marca Levi’s vai lançar uma coleção de jeans confeccionados com garrafas PET e outras embalagens plásticas descartáveis (foto acima). Elas são transformadas em fibra de poliéster misturadas com fios de algodão. Oito garrafas plásticas são o suficiente para produzir uma calça. Chamada de Waste Less (gastar menos), a linha de jeans vai para as lojas no ano que vem.

Grifes ainda mais chiques também estão entrando nessa nova onda de produção amiga da natureza. A marca inglesa Stella McCartney e a italiana Gucci lançaram em setembro botas e sandálias feitas com material biodegradável em lugar de couro, camurça e borracha.

Imagens – Divulgação

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Ineficiência sobre rodas Afonso Capelas Jr. - 26/10/2012 às 18:22

Esta semana começou mais uma edição do concorrido Salão do Automóvel de São Paulo. Certamente o mais importante evento da indústria automobilística brasileira, o salão atrai milhares de pessoas ávidas pelos mais recentes lançamentos dos mais cobiçados veículos motorizados.

São 500 novos modelos de 49 diferentes fábricas nacionais e estrangeiras expostos. “O Brasil é hoje o quarto maior mercado de veículos. Para isso, a indústria está cada vez mais se capacitando, investindo em tecnologia e desenvolvimento. Devemos chegar no final de 2012 com 3,8 milhões de veículos comercializados, incluindo caminhões, e temos projeções de chegar a mais de 5 milhões em 2020”, disse o presidente da associação de produtores de carros, Cledorvino Bellini.

Já em 2011, o presidente da companhia de petróleo Shell havia dito que o mundo precisava preparar-se para receber um bilhão de automóveis nos próximos anos, onde 40% devem ser elétricos. Essa marca está prevista para ser alcançada em 2025.

Acontece que do ponto de vista ambiental a tecnologia dos nossos atuais automóveis não é lá essas coisas. Além da questão da poluição causada pelos combustíveis fósseis, mesmo os carros elétricos são ainda muito pouco eficientes.

A indústria está muito mais preocupada em vender luxo, conforto, potência, beleza e gadgets, na forma de carros cada vez maiores, mais pesados e energeticamente pouco eficientes, que no final das contas acabam transportando, em geral, apenas uma pessoa nas ruas das grandes cidades. Deveria pensar em carros pequenos e espartanos: mais simples, leves, com menos componentes em sua fabricação. Veículos desenvolvidos para privilegiar não o ego e o status de seus proprietários, mas para resolver o grave problema de mobilidade urbana e da poluição atmosférica.

O livro Muito além da economia verde, do professor de Economia da USP Ricardo Abramovay – editado pelo Planeta Sustentável - ilustra bem a pouca competência dos veículos em economizar energia e recursos naturais, por mais avançados que eles possam parecer nos reluzentes estandes dos salões de automóveis.

A obra cita a opinião do pesquisador norte-americano Amory Lovins, do instituto de tecnologia Rocky Montain: “Da energia do combustível que ele (o carro) consome, ao menos 80% é perdida, principalmente no aquecimento do motor e no escapamento. Ou seja, 20% é totalmente usada para girar as rodas. Do que resta, 95% move os carros e apenas 5% os motoristas, proporcionalmente a seus respectivos pesos”.

Lovins contabiliza: “Cinco porcento de 20% são 1%, um resultado não muito gratificante para os carros americanos que queimam seu próprio peso em gasolina a cada ano”.

A conclusão do professor Abramovay é a de que indústria automobilística é a menos inovadora de todas as que estão por aí ao redor do mundo. “O automóvel individual com base no motor a combustão interna é de uma ineficiência impressionante. Ele é a unidade entre duas eras em extinção: a do petróleo e a do ferro”. Para ele, a inovação que domina a indústria de carros até hoje está preocupada apenas em aumentar a potência, a velocidade e o peso dos carros, muito mais do que em reduzir seu consumo de combustíveis.

Observando sob essa ótica, nem a mais bela e estilosa das ferraris é assim um primor de inovação e modernidade.

Imagem – Divulgação

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Obsolescência e economia criativa Afonso Capelas Jr. - 19/10/2012 às 19:43

Tenho um smartphone a pouco mais de um ano e estou percebendo que ele está dando pistas de que pretende deixar de funcionar. A princípio, é um aparelho novo, bem conservado, mas seus sinais apontam que já está com os dias contados. Certamente é sintoma do que se convencionou chamar “obsolescência programada”.

Para quem nunca ouviu falar, trata-se de uma estratégia da indústria para que seus produtos tenham vida curta. A intenção por trás da tática é simples: satisfazer a necessidade urgente de manter a economia capitalista a todo vapor e alimentar o nosso vício de consumir novos produtos. Assim, mais se produz, mais se consome e a economia, em tese, sobrevive firme e forte.

O maior símbolo da obsolescência programada é a lâmpada. Explico: a tática de produzir itens cada vez menos duráveis não é de hoje. Nasceu lá nos anos 1920, para impulsionar uma economia debilitada por grandes crises. Naqueles anos, a recém-formada indústria de lâmpadas percebeu que se fabricasse produtos mais frágeis, as pessoas teriam que comprar mais.

Como efeito colateral dessa avidez em produzir e consumir, cresceu também a montanha já imensa de produtos eletrônicos descartados em todo o planeta. E está diminuindo velozmente a disponibilidade de recursos naturais usados para fabricá-los.

Acontece que as coisas estão mudando, para nossa salvação. Já existe gente inovadora percebendo que não é preciso usar uma estratégia tão desprezível para manter a economia aquecida. Essas pessoas estão abandonando o conceito de economia baseada em produtos, em benefício de uma outra, menos predatória e fundamentada em processos e serviços.

Tem sido chamada de “economia criativa”, com pessoas colocando a cabeça para funcionar em favor da inovação e da criatividade. Para isso, fazem bom uso da tecnologia, atribuindo valor econômico a novos produtos e serviços cada vez mais duráveis e necessários.

A economia criativa já se desenvolve em setores como design, artesanato, música, arquitetura, moda, editoração, softwares de lazer, entre outros. Aí entram novas atividades – que já estão aparecendo em quantidade e variedade – como as redes de empréstimos de carros e o chamado consumo colaborativo, baseado na troca de produtos entre pessoas. Ao contrário da velha economia, esta incentiva o saudável exercício do escambo, do empréstimo e do hábito de levar para a oficina aquele aparelho que quebrou, em vez de correr para a loja e comprar outro.

Para que essa nova economia tome forma e se sobressaia é preciso que a sociedade exija das empresas uma nova postura. As redes sociais são uma ótima ferramenta para exercer essa pressão. Aliás, a própria sociedade deve assumir uma nova postura.

Vou continuar com meu velho smartphone, até ele resolver não funcionar mais. Quem sabe consigo consertá-lo.

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Sustentável na Prática

AFONSO CAPELAS JR

é paulistano, jornalista e produz textos sobre meio ambiente, turismo ecológico e sustentabilidade desde que saiu da faculdade (ou seja, faz tempo). Colabora com a revista National Geographic e o site do Planeta Sustentável. Neste blog – atualizado às terças e sextas - debate com os leitores ideias sobre o que podemos fazer pela sustentabilidade em nosso dia-a-dia. Sem dor, sem chatice, sem imposição, mas com a consciência de que não vivemos mais a era do desperdício. Afinal, está na hora de enfrentarmos o século 21. Você tem dúvidas sobre como ser sustentável na prática? Então, pergunte para o Afonso! As mais relevantes serão respondidas aqui no blog. Seu e-mail é pergunteaoafonso@gmail.com

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