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Sobre lixo, música e dignidade Afonso Capelas Jr. - 19/07/2013 às 18:52

Um lixão a céu aberto, um grupo de catadores onde muitos são crianças e adolescentes, um professor de música visionário, uma orquestra e um lema: “O mundo nos manda lixo, nós devolvemos música”. Este é um cenário improvável, mas real. Está em uma comunidade paupérrima, uma favela chamada Cateura, no Paraguai.

Ali, em meio a montanhas de entulho, ares malcheirosos, solo e água contaminados, além de problemas sociais dos mais diversos – alcoolismo, drogas, violência – o professor de música Favio Chávez teve o sonho de formar uma pequena orquestra de jovens catadores de lixo. A intenção era incutir naquelas pessoas um fio de cultura, dignidade e esperança de dias melhores.

Mas de onde viria o dinheiro para comprar os instrumentos musicais? “Cateura não é um lugar para ter um violino de verdade. Custa mais caro que sua própria casa”, costuma dizer Chávez. A saída parecia óbvia, saltava aos olhos de todos. Era preciso construir violinos, violoncelos, clarinetas, flautas e tambores com o material mais abundante da favela: lixo.

Assim, latas de óleo, pedaços de canos, caixas de embalagens e restos de madeira foram se transformando até produzir notas musicais. Os próprios moradores de Cateura tiveram que aprender a confeccionar os instrumentos musicais. Assim nascia a Landfill Harmonic, em inglês um jogo de palavras que pode ser traduzido como “filarmônica do aterro”.

Toda essa saga será contada em um documentário que deve estrear no início de 2014. Depois, um novo sonho para todos em Cateura deve se realizar, com a ajuda de patrocinadores: fazer uma turnê onde a orquestra se apresentará em vários países.

É uma forma de chamar a atenção do mundo para a quantidade de lixo que produzimos, para os lixões a céu aberto que ainda persistem nos países em desenvolvimento – incluindo o nosso – e para pessoas que vivem e sobrevivem de toda essa triste miséria. Vale a pena assistir ao trailer do documentário sobre a Landfill Harmonic clicando aqui. E aguardar a estréia do filme e a possível vinda dos pequenos grandes músicos ao Brasil.

Imagem – Divulgação/Creative Commons

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As incríveis roças paulistanas Afonso Capelas Jr. - 12/07/2013 às 17:57

Sim, elas existem e proliferam na maior e uma das mais caóticas cidades da América Latina. As hortas urbanas estão caindo no gosto de algumas comunidades em diferentes regiões da metrópole. Um verdejante exemplo a ser seguido por outras grandes cidades. Uma delas está localizada num dos lugares mais improváveis para uma plantação de verduras, legumes e frutas: em plena avenida Paulista, quase na esquina com a rua da Consolação, em meio a automóveis, ônibus e gente apressada.

É a Horta dos Ciclistas, criada e muito bem cultivada pelos próprios adeptos do pedal, já que ali está a Praça dos Ciclistas, tradicional ponto de encontro de bikers. A ideia foi colocada em prática em outubro do ano passado. Para os ciclistas, a horta é uma forma de reivindicar o uso democrático e responsável do espaço público, assim como exigem o direito de pedalar com segurança pela cidade.

Periodicamente os hortelões-ciclistas organizam mutirões para cuidar da terra e colher os frutos. Tão inusitado quanto o próprio local onde está a Horta dos Ciclistas é saber que ela jamais foi depredada. Ao contrário, é vista com muito carinho pelos paulistanos que passam pela região.

Outro roçado comunitário instalado em uma praça é a Horta das Corujas, no bairro de Vila Beatriz, zona Oeste da cidade. A proposta, ali, é ter um território de educação ambiental e um divertido convívio entre vizinhos. A iniciativa é do grupo Hortelões Urbanos, que tem até página no Facebook com mais de quatro mil participantes.

Várias outras hortas pipocam em diversas praças e terrenos ociosos na cidade. Onde falta espaço o jeito é plantar no telhado, como fizeram a Faculdade Cantareira, no bairro do Brás, e o Centro Cultural São Paulo, na Liberdade.

Além de uma excelente terapia para quem sente na pele todo o estresse que é viver nas metrópoles, as hortas urbanas têm efeitos ainda mais benéficos e abrangentes: dispensa o transporte dos produtos do campo para as regiões urbanas e também exclui o uso de agrotóxicos. Isto porque quase 55% dos resíduos produzidos nas cidades são constituídos por lixo orgânico, adubo de primeira qualidade para o plantio. As hortas também ajudam a preservar terrenos para absorção de água das chuvas, evitando enchentes.

Não à toa, o Ministério do Desenvolvimento Social já coordena o Programa da Agricultura Urbana. A intenção é oferecer recursos para que famílias de baixa renda de municípios de vários estados brasileiros produzam alimentos comunitários de qualidade, gerando renda e preservando a saúde.

Imagem – Vinasocial/Creative Commons

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Contra o desperdício de comida Afonso Capelas Jr. - 05/07/2013 às 12:45

No mundo inteiro 1,3 bilhão de toneladas de alimentos vão parar no lixo todos os anos, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Isto representa um terço de tudo o que é produzido no mundo e escorre pelo ralo, desde a produção até a venda e consumo. No Brasil, essa perda chega a 39 mil toneladas diárias.

A situação é tão grave que a instituição lançou, no início do ano, uma campanha intitulada Pensar, Comer, Conservar – Diga não ao desperdício. “Nas regiões industrializadas, quase metade da comida descartada – cerca de 300 milhões de toneladas por ano – ainda está própria para o consumo, o equivalente a toda a produção de alimentos da África Subsaariana, suficiente para alimentar 870 milhões de pessoas”, disse o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, que é brasileiro.

Agora, com base na campanha da FAO, o Instituto EcoDesenvolvimento  acaba de lançar o especial Do campo à cidade: soluções para o desperdício de alimentos. Disponível para download gratuito, a publicação traz muitas informações importantes sobre o assunto.

São histórias, entrevistas com especialistas, estatísticas e, sobretudo, soluções contra o desperdício de comida. A começar pela produção dos alimentos no campo, passando pela logística de distribuição no Brasil e a comercialização.

Um capítulo foi especialmente dedicado a iniciativas e programas criativos de aproveitamento de alimentos que são descartados pelos consumidores. São frutas, verduras e legumes com aparência pouco atrativa nas feiras e supermercados, por estarem amassados ou com manchas.

A publicação também relaciona dicas valiosas para produtores rurais e, principalmente, para os consumidores evitarem esse desperdício nosso de cada dia.

Download de Do campo à cidade: soluções para o desperdício de alimentos, na íntegra.

Imagem – Creative Commons

 

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Sustentável na Prática

AFONSO CAPELAS JR

é paulistano, jornalista e produz textos sobre meio ambiente, turismo ecológico e sustentabilidade desde que saiu da faculdade (ou seja, faz tempo). Colabora com a revista National Geographic e o site do Planeta Sustentável. Neste blog – atualizado às terças e sextas - debate com os leitores ideias sobre o que podemos fazer pela sustentabilidade em nosso dia-a-dia. Sem dor, sem chatice, sem imposição, mas com a consciência de que não vivemos mais a era do desperdício. Afinal, está na hora de enfrentarmos o século 21. Você tem dúvidas sobre como ser sustentável na prática? Então, pergunte para o Afonso! As mais relevantes serão respondidas aqui no blog. Seu e-mail é pergunteaoafonso@gmail.com

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