A Vale, o Instituto Ethos e o Fórum Amazônia Sustentável lançaram, hoje, uma carta que representa um compromisso de mais de vinte empresas privadas e entidades em reduzir suas emissões de carbono e faz sugestões ao governo brasileiro sobre sua postura em Copenhague, durante a 15ª COP – Conferência das Partes, da ONU.
Durante o evento para apresentação da carta, o jornalista André Trigueiro lembrou que o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, já admitiu que o Brasil vai apresentar números concretos em termos de redução de emissões em Copenhague, apesar de preferir não chamá-los de metas.
Luiz Alberto Figueiredo Machado, diretor do Departamento de Meio Ambiente e Temas Especiais do Ministério das Relações Exteriores, explicou a diferença de nomenclatura: as metas seriam para os países desenvolvidos, já que elas envolvem uma decisão de cima para baixo, que abarca todos os setores do país. Ao Brasil, como país em desenvolvimento, caberia assumir compromissos de redução, que significariam esforços internos em setores específicos.
As empresas presentes no seminário mostraram já ter consciência do papel que terão de assumir, desde agora, – e várias delas já iniciaram o processo – para tornar seus negócios mais sustentáveis e reduzir os impactos sobre o meio ambiente. A exigência dos consumidores e dos últimos setores da cadeia produtiva são fortes influenciadores para a aceleração desse caminho.
Aquelas que saem na frente já começam a ver nas mudanças climáticas uma oportunidade de novos negócios, um estímulo para a economia de certos recursos – por meio da substituição de combustíveis fósseis por etanol ou biomassa, por exemplo – e até como um meio de atrair dinheiro pela venda de créditos de carbono.
Os empresários também criticaram o fato de o governo ainda não ter apresentado um marco claro de quanto carbono o setor terá que deixar de emitir.
A vantagem competitiva do Brasil pelo fato de possuir a matriz energética mais limpa do mundo e ter, ainda hoje, a maior parte de suas emissões provenientes do desmatamento da Amazônia foi citada por vários participantes. Adalberto Veríssimo, pesquisador o Imazon – Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, foi firme ao dizer que o Brasil não ganha nada, nem mesmo economicamente, com o desmatamento da floresta.
Em relação ao REDD, a posição brasileira vem se tornando mais flexível. Se há alguns meses o governo temia que a alternativa fizesse com que os países ricos não cumprissem seu “dever de casa” em corte de carbono e apostava apenas em fundos voluntários, hoje, além de fundos de mitigação e adaptação, parece considerar o mecanismo de REDD, desde que sejam definidos limites claros.
Um dos pontos levantados para facilitar a implementação do recurso e beneficiar a comunidade amazônida é o zoneamento econômico e ecológico, que precisa ser feito com urgência.
Quando os empresários alegaram que o país não está assumindo a liderança climática que deveria, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, rebateu lembrando que a atuação do Brasil foi elogiada na 14ª COP, em Poznan, na Polônia, por Ban Ki Moon e Al Gore e que, ao cumprirmos a meta do Plano Nacional de Mudanças Climáticas – que prevê a redução de 70% no desmatamento da Amazônia até 2017 –, teremos deixado de emitir mais do que a meta do Protocolo de Kyoto para todo os países do Anexo I juntos. Minc ainda lembrou que foi o Brasil quem propôs o MDL – Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, o Mapa do Caminho de Bali e a primeira versão de REDD. “Não sei o que se quer mais”, disse o ministro.
Luiz Alberto Figueiredo garantiu que o Brasil vai exigir resultados ambiciosos em Copenhague. De acordo com os cenários apresentados pelo IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, os países precisam reduzir suas emissões entre 25% e 40% até 2020 em relação aos níveis de 1990. O Brasil vai lutar pela meta máxima para os países ricos.
Marina Silva assistiu ao evento e teve sua presença ressaltada algumas vezes. Os comentários a seu respeito giravam em torno de sua importância como candidata à presidência para que os demais candidatos também insiram o tema da sustentabilidade em suas agendas de campanha. Durante a coletiva de imprensa, a senadora disse que a sustentabilidade é o desafio do século, que as empresas estão acordando para isso, coisa que os acadêmicos já fizeram e os movimentos sociais ainda há mais tempo, e criticou o atraso do governo em apresentar metas concretas para a redução de emissões.
Sobre sua filiação ao Partido Verde, Marina disse ter percebido que não se trata mais de convencer ninguém a inserir o tema da sustentabilidade no Partido dos Trabalhadores, mas de encontrar pessoas que já tenham os mesmos objetivos.