Blog da Redação
26/09/2008 às 19:15
Somos vulneráveis

Se você está acompanhando os posts desta semana no Planeta, já sabe que a Política Municipal de Mudança de Clima de São Paulo prevê não apenas medidas para mitigar as emissões de gases de efeito estufa, mas também atitudes para nos adaptarmos ao inevitável aquecimento da Terra – que já começou, vai durar por muitas décadas ou mesmo séculos e vem afetando cada vez mais a vida das populações.

O problema, como disse a coordenadora do GVces – Cento de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas, Rachel Biderman (leia o post com a entrevista dela), é que para pensarmos em ações de adaptação às mudanças climáticas, precisamos conhecer a real vulnerabilidade de nossas cidades diante desse fenômeno. Mas, até agora, não temos nenhuma pesquisa ou inventário que trate do assunto.

Por isso, o cientista do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Carlos Nobre, decidiu coordenar um projeto que pretende estudar o grau de vulnerabilidade, inicialmente, das megacidades São Paulo e Rio de Janeiro para depois expandir a outros municípios e contemplar todo o país. É com ele que encerramos essa semana especial de posts, já que os resultados desse estudo – que devem ser divulgados no segundo semestre do ano que vem – podem, entre outras coisas, complementar e afinar as medidas previstas na Política Municipal.

Planeta Sustentável: Por que começar o estudo de vulnerabilidade pelas megacidades?
Carlos Nobre: Oitenta por cento da população no Brasil é urbana. Temos grandes regiões metropolitanas com mais de dois milhões de habitantes e somos o país em desenvolvimento que mais cresce em urbanização. Os problemas ligados às mudanças climáticas tomam dimensões maiores nas grandes cidades, inclusive na questão ambiental.

Por quê?
Por que nas grandes cidades existe um enorme contingente de condições vulneráveis.  As mudanças climáticas vão afetar o funcionamento e a qualidade de vida das pessoas, as estratégias de desenvolvimento, a economia, o turismo, a pobreza, a saúde, o litoral... Há vários fatores socioeconômicos e ambientais e todos estão interligados. Por exemplo, quem vive em morros desmatados tem acesso à habitação a custos reduzidos, mas está sujeito a desmoronamentos nas épocas de chuva. Os que ocupam, irregularmente, a planície de inundação dos rios, mesmo com as obras para conter as águas, não ficam totalmente seguros. Nesse sentido, as populações economicamente marginais tendem a ser mais suscetíveis ao novo quadro ambiental e a maior parte delas vive nas grandes cidades.

As mudanças climáticas estão acontecendo. No Brasil , os impactos já são perceptíveis?
São, mas as pessoas acabam não se dando conta de que algumas transformações têm a ver com as mudanças climáticas. Hoje, em São Paulo, temos mais tempestades, raios, inundações e deslizamento de encostas do que antes. Quando se trata da questão climática, as mudanças se processam lentamente e as pessoas vão se ajustando, se acomodando – e não se adaptando! Elas aceitam que as condições vão piorando com o tempo. Precisamos de uma perspectiva de longo prazo para percebermos esse fator climático.

Normalmente, os governos respondem de maneira reativa, com enorme custo para população. Quando falamos que no futuro pode acontecer isto ou aquilo, incutimos a questão da prevenção. Hoje, se reduzirmos as emissões de carbono, podemos fazer com que a temperatura suba mais devagar, mas ela vai continuar aumentando pelo menos 0,2º C por década, em função do carbono que já está na atmosfera. Por isso, além de agirmos na causa das mudanças climáticas, precisamos atuar também sobre as conseqüências que virão.

De que maneira o estudo vai contribuir para nos adaptarmos às novas circunstâncias trazidas pelas mudanças climáticas?
Esses estudos iniciais de vulnerabilidade vão servir para dar mais foco aos vereadores, de modo que, identificadas as áreas de maior risco, desenvolvam-se políticas públicas de proteção e sejam pensadas soluções para todos setores – econômico, social e ambiental – que tornem as atividades humanas à prova de mudanças climáticas.

O senhor poderia dar exemplos dessas ações?
O maior problema das cidades costeiras como Recife e Rio é que dezenas ou centenas de milhares de pessoas pobres vivem em áreas onde há a junção de rios que deságuam no mar – rios que vêm de serras, ou então das baixadas. Quando o nível do mar sobe, e o nível da maré não muda – já que é controlada pela lua - aumenta a quantidade de tempestades e a situação é trágica, porque a tempestade empurra o oceano contra o continente. A água que desce correndo para chegar ao mar não tem força para desaguar e transborda, provocando enchentes que atingem os moradores do entorno. Por isso, as obras de engenharia precisam ser recalculadas e os reservatórios readequados para comportar essa maior quantidade de água.

Outro exemplo é sobre a situação da orla dessas cidades. O aumento do nível do mar, a mudança na trajetória das ondas e as ressacas mais fortes e mais freqüentes agem diretamente sobre ela e afetam a indústria do turismo. É preciso fazer uma radiografia dessa orla para conter os impactos das mudanças climáticas, mas ainda não dispomos de um mapa altimétrico com resolução de centímetros. Se o mar subir 10 ou 15 centímetros, precisamos saber onde a água vai parar, que lugares serão afetados e que obras precisam ser feitas. Hoje, não seria possível fazer um plano detalhado para se aprovado na Câmara de Vereadores do Rio e destinar parte do orçamento para as obras, pois não existe um mapa altimétrico que balize o plano.

E a função do estudo de vulnerabilidade é dar base para novos estudos mais aprofundados?
Exatamente. O estudo vai quantificar os possíveis impactos através de um painel de especialistas. Vamos fazer um primeiro mapa, um relatório simples, mostrando as principais áreas, quantas pessoas e de que forma elas serão afetadas. A partir dessa avaliação sobre as áreas mais vulneráveis, se seguirão estudos mais detalhados, que são mais caros. Esse estudo inicial serve para levantar a questão da necessidade de nos preparamos para as conseqüências das mudanças climáticas, trazer relevância ao tema e alertar os tomadores de decisões sobre importâncias e urgências.
 
Para quando está previsto o início desse estudo? Como ele será desenvolvido?
Para o ano que vem. Estamos montando um painel de especialistas em diversos setores, na proporção de um especialista internacional para dois brasileiros em cada setor. Os convites serão feitos a eles em outubro deste ano e as reuniões para a sistematização dos trabalhos será em abril de 2009. Cada grupo vai contemplar um tema. No segundo semestre do ano que vem, vamos fazer uma reunião para validar esse primeiro mapa. Então, convidaremos as lideranças de cada megacidade, o setor ambiental, a defesa civil, profissionais da área de saúde etc. e apresentar e discutir os resultados. Também será encaminhado um documento ao Congresso Nacional para contribuir com o Plano Nacional de Mudança de Clima.

Existe, inclusive, uma proposta na Câmara dos Deputados para que sejam investidos R$20 milhões, até 2010, em estudos sobre os impactos das mudanças climáticas nas doze maiores regiões metropolitanas do pais.






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Por:
Mônica Nunes,
Thays Prado,
Manoella Oliveira e
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A redação do Planeta Sustentável é um encontro de pessoas envolvidas com um grande desafio: trabalhar a sustentabilidade como um tema urgente e transversal, tradutível em múltiplas linguagens, necessário para os diversos públicos. Aqui, a editora Mônica Nunes e as repórteres Thays Prado, Débora Spitzcovsky e Manoella Oliveira comentam as matérias do site, indicam lugares imperdíveis da web e contam novidades sobre cultura, sociedade, meio ambiente, mudanças climáticas, negócios sustentáveis e outros temas.
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