Projeto da Nova Marginal não resiste ao toró
Tão veloz e voraz como a chuva que alagou São Paulo anteontem foi o aparecimento de uma leva de críticas ao projeto de ampliação da Marginal do Rio Tietê, conduzido pelo governo estadual. Desde ontem, leem-se nos jornais opiniões bastante desfavoráveis ao aumento da área impermeabilizada junto ao leito do rio.
Um arquiteto diz: “A marginal é um erro. Ampliá-la é ampliar um erro”. Antes dele, um professor universitário: “A solução é não termos mais marginais”. Outro arquiteto: “É um erro histórico“.
Mas foram precisos água e mortes (até agora, oito) para que a imprensa finalmente acordasse para tratar o insano projeto com um mínimo de senso crítico. O projeto da
Nova Marginal está sendo gestado há muito tempo, mas até então não houve muito barulho em torno disso. Só agora surgem questionamentos sobre sua relação com enchentes e sobre a capacidade que tem de melhorar a mobilidade em Sao Paulo. Depois dos sessenta e poucos milímetros que “provocaram” o caos na cidade , até o Ministério Público Estadual quer parar tudo para rever com calma o licenciamento ambiental da obra.
As árvores cortadas na Marginal são retrato fiel do
urbanismo do absurdo praticado na metrópole – cenas consideradas escandalosas em qualquer cidade que leve o meio ambiente a sério. Para dar mais espaço à circulação dos sempre mais numerosos automóveis, reduz-se ainda mais a área permeável ao longo do retificado Tietê. Seres vivos perdem a batalha para o asfalto e para a miragem de uma cidade sem congestionamentos.
A atual política de transportes prioriza ainda hoje o caminho mais direto de A até B. Deixa de lado os contornos da paisagem natural e atropela todas sorte de advertências de natureza urbanística e ambiental. Tem apoio apenas de gente que usa a cidade como lugar de passagem e daqueles que não se importam em rasgar, sufocar ou mesmo
afogar São Paulo para desafogar o trânsito. Infelizmente, essa política cinza conta até com
o apoio da Secretaria do Verde da cidade, que, assim, deveria mudar de nome e de cor.
Confesso que esse texto é escrito com a dor na garganta de alguém que ainda tem esperança de que as coisas melhorem e que sente muito por aqueles que perderam – e os que sempre perdem – com enchentes e com novas marginais. Mas também é escrito por quem sabe que nada melhorará enquanto a sociedade continuar engolindo a hipocrisia de quem faz tudo na contramão e depois joga a culpa na natureza.
Comentários
14/09/2009 às 20:36Camilo Vannuchi - diz:O blog continua muito preciso, e você merece os parabéns por acompanhar tão de perto as coisas da cidade, mesmo quando está longe daqui. Aliás, nada melhor do que ficar beeeem longe do trânsito no dia do aniversário. Parabéns a você, meu querido. E me manda um e-mail passando seu e-mail que eu preciso te perguntar uma coisa com urgência (uma consultoriazinha pra uma matéria). Abração. Camilo
28/09/2009 às 23:07André Pasqualini - diz:Thiago, só uma correção. Logo quando saiu a obra, várias associações de uniram para entrar com uma ação civil pública contra a obra da Marginal. Depois que entraram, a juíza pediu um parecer do MP, que demorou muito porque as partes (Dersa, Prefeitura e Governo) demoraram para se manifestar e lá no MP houve alguns contratempos pois o parecer foi para o pessoal de meio ambiente e quem deveria receber era o pessoal de Urbanismo. Os trâmites acabaram coincidindo com as enchentes do Tietê e por isso ficou parecendo oportunismo, mas não foi isso que ocorreu. Como acompanho essa ação de perto, sei de quase todos os detalhes do processo.Já o restante concordo com tudo que você escreveu.AbraçosAndré Pasqualini