Quem é verde põe o dedo aqui

Falar hoje em sustentabilidade é fácil -- ou, pelo menos, é bem mais comum do que há trinta anos. Mas ainda émuito complicado tirar algo sustentável do discurso e pôr em prática. No centro desta dificuldade está o transporte de pessoas. Pelo menos, é o que se conclui a partir de uma leitura da imprensa alemã.
Reportagem do jornal
Frankfurter Rundschau destaca que o projeto internacional de redução das emissões de dióxido de carbono pode emperrar na Alemanha. Motivo: a chanceler Angela Merkel já se manifestou contra a política que prejudicaria a indústria automobilística. A justificativa oficial é que a Comissão Européia apresentou novos (e mais exigentes) patamares de redução de poluentes. O governo alemão justifica que a indústria não conseguiria atingir os patamares propostos (no máximo 120 gramas por quilômetro rodado em 2012).
O ministro do Meio Ambiente até tentou tirar a coloração verde do debate. "As diretrizes propostas pela União Européia não têm nada a ver com a redução da emissão de CO2. Trata-se de uma querela comercial contra as montadoras nacionais", disse o ministro na televisão. Já a líder do Partido Verde, Renate Künast, aproveitou a oportunidade para criticar duramente Merkel. Nas palavras de Künast, Merkel não passa de uma vira-casaca, um fantoche do lobby das montadoras, um obstáculo ao aumento dos impostos aos carros e não tem a menor vontade de mudar o
limite de velocidade nas estradas alemãs.
Essa história me provoca, por três motivos. Primeiro, demonstra que mobilidade deve continuar sendo um dos temas quentes para quem quer pensar um planeta, um país, uma cidade sustentável. Sensacional!
Segundo ponto: o fato de tudo isso acontecer na Alemanha é bem significativo. Mostra que uma sociedade pode entrar e se aprofundar no debate sobre sustentabilidade, sem se enjoar dele. Os alemães são famosos por terem três, às vezes quatro, lixeiras na cozinha. Separam papel, de restos de comida, de embalagens e de "outros". 5% da área cultivável do país já é destinada a produtos orgânicos e essa parcela deve crescer. Agora, estão na onda de construir casas que não consomem tanta energia. E nem por isso estão se furtando da discussão sobre os automóveis... A questão da sustentabilidade é a número 2 no ranking de grandes preocupações na Alemanha, atrás apenas do desemprego. No Brasil, estas idéias vão ganhando força e mobilizando esforços. Espera-se que o debate sobre sustentabilidade e sobre mobilidade se manifeste como um ciclo virtuoso, assim como em outros países.
E também muito importante: temos cada vez mais chances de repensar o significado de sustentabilidade. Atualmente, sustentabilidade virou uma bandeira de todo mundo. Atravessa o discurso da maioria dos partidos políticos, de empresas, uma infinidade de ONGs, etc. Mas o fato de ninguém ser "contra" a sustentabilidade não traz só vantagens. O debate veio à tona, mas talvez o genuíno sentido da sustentabilidade tenha se perdido no meio desse emaranhado. Como vimos, a indústria automobilística fala em sustentabilidade, a União Européia tem políticas para isso, os verdes e os conservadores se pronunciam preocupados com o meio ambiente... e, no entanto, não há acordo. Afinal, quem é verde? Questionar quem, na política e na sociedade, luta de fato pela sustentabilidade ou refletir até que ponto se pode ser sustentável é excelente. Esclarece, desmitifica.
Sei que falar de política nesta época do ano não é o ideal. Mas, nesses tempos propícios para reflexão, até que é bom colocar os pingos nos Is (e os tremas sobre os Us, enquanto os tremas ainda existem...). Um feliz Natal a tod@s!
Comentários
25/12/2007 às 18:50Dilson Batista - diz: - Thiago,
Interessante o texto, concordo com a sua colocação, de que falar hoje é muito mais fácil que antes dados a quantidade de informações e discussões sobre o tema.A questão da mobilidade urbana, é um componente crucial para a sustentabilidade do planeta. Mobilidadee deslocamento de pessoas, produtos e etc...
Em um país continental como o Brasil o simples fato de mudarmos nossos modais de tranporte, pelo menos para a produção industrial, para fluvial e ferroviário, teriamos um impacto na qualidade de vida de cidades como SP, RJ e etc. As emissões causadas por veículos pesados principalmente, carregam substâncias tóxicas que produzem efeitos negativos para a saúde e para o planeta. A emissão é composta de gases como: monóxido de carbono (CO), óxidos de nitrogênio (NOx), hidrocarbonetos (HC), óxidos de enxofre (SOx) e material particulado.