Pra lá e pra cá
24/07/2008 ÀS 17:07
Shared space

No rigoroso inverno de 2005 (ano em que a Rússia registrou quarenta graus negativos), fiquei inconformado com uma situação banal que vivenciei no cruzamento de duas ruas no norte da Alemanha. Já era noite e fazia um frio desgraçado. De frente para a faixa de pedestres, sem ver carro algum vindo de nenhum dos lados, tive de esperar o verde por dois intermináveis minutos. Afinal, não podia dar mau exemplo a crianças que poderiam estar me espiando de alguma janela ou aos velhinhos, de quem sou vítima freqüente de abordagens ao estilo puxão-de-orelha...

Ora, a regra em primeiro lugar, acima do bom senso... Primeiro pensei: típico alemão. Mas depois ponderei. Se no Brasil as regras também fossem rigorosamente obedecidas (40 km/h são quarenta e não oitenta; vermelho não é verde; etc.), poderíamos ter menos acidentes, menos mortes. Bem que valeria a pena perder dois minutos em nome da segurança, da educação para o trânsito e do bem-estar coletivo.

Mas será que a hiperregulamentação traz de fato mais segurança? Alguns estudos sugerem que não. Faixa de segurança, placas, semáforos... Essa parafernalha toda pode produzir uma sensação de segurança que não condiz com a real incidência de acidentes. Seria tão perigoso atravessar uma rua com ou sem sinalização. Mais ainda: seria mais perigoso atravessar uma rua do que andar entre veículos, em um espaço compartilhado por todos os participantes do trânsito.

Essa é a idéia central do conceito de shared space. Arrancam-se todas as placas, semáforos. Saem de cena os sinais convencionais e a tradicional separação do espaço público em calçada, via, ciclovia. Ganha espaço o olho no olho. No começo pode parecer estranho. Mas é exatamente essa a idéia bastante badalada em Hamburgo, que pode ser primeira grande cidade européia a implantar o projeto. Cinco distritos da cidade -- inclusive o meu -- se inscreveram para ter a "rua para todos". Na metrópole, o shared space seria acompanhado de três simples regras: respeito, preferência para quem vem da direita e velocidade máxima de 30 km/h para os automóveis.

O holandês Hans Moderman é considerado o inventor da idéia de conceber um espaço público compartilhado por todos os meios de transporte e privilegiar as regras sociais de convivência em detrimento das leis de trânsito. Antes de falecer, em janeiro deste ano, Moderman costumava dizer que a formação do espaço viário influencia mais o comportamento das pessoas do que placas.

Ele dizia o seguinte: "Quando as pessoas entram numa igreja, elas se comportam como em uma igreja. Se vão à discoteca, comportam-se de outra forma. Se quisermos que as pessoas se comportem como em uma igreja, não podemos construir discotecas. Mas nós, planejadores de transporte, construímos discotecas demais..."

Com recursos da União Européia, o shared space foi implantado em áreas estratégicas de sete cidades -- na Alemanha, na Bélgica, na Holanda, no Reino Unido e na Dinamarca. Nelas, a velocidade dos carros diminuiu, mas, sem luzes vermelhas (às vezes, acesas à toa), a fluidez melhorou.

Em São Paulo, o shared space seria possível e desejável? Poderia ancorar um processo pedagógico, no início, em vias e cruzamentos não muito movimentados, mas em locais estratégicos. A libertação da cidade de parte dos problemas de trânsito poderia vir junto com um conceito emancipatório, que transfere a responsabilidade pela convivência nas ruas àqueles que deveriam ser os principais interessados: os próprios cidadãos.



Recomendo também o excelente post do Sakamoto em 22 de julho.



Pra lá
e pra cá


Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é, antes de tudo, paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. É autor de "Pedágio urbano: teoria e prática", estudo que recebeu da Universidade de São Paulo (USP) o Prêmio de Excelência Acadêmica de 2007. Aqui, neste blog, quer promover discussões e reflexões sobre mobilidade urbana com todos que se preocupam com o futuro das cidades.
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