Pra lá e pra cá
16/07/2008 ÀS 19:20
A bicicleta amarela


No fim de semana, o time que se predispôs a me ajudar na mudança não deixou se desencorajar pelo chuvisco ou pelo tempo nublado, cenários cada vez mais freqüentes no verão alemão. Subimos dezenas de vezes as escadas do velho prédio com malas cheias de roupa, móveis desmontados, caixas de livros e papéis, e outros pendurucalhos. Moro agora diretamente em Hamburgo, em um idílico bairro no extremo leste da cidade. Extremo mesmo, já na fronteira com outro estado e bem longe de tudo o que possa soar cosmopolita.

Ainda no domingo, explorei um pouco as redondezas do novo endereço. Passeei por um parque, dei uma olhada nas casas da rua de trás, observei a vizinhança. Bergedorf é um bairro cercado de verde e tem um compacto centro com calçadão onde se pode comprar remédio, pãezinhos ou simplesmente tomar um sorvete.

Mas na segunda-feira, não comprei os pãezinhos, nem tomei o sorvete. Simplesmente retomei a rotina. E ela mudou? Bom, para chegar na universidade continuo levando uma hora. Antes contava uns sete minutos de carro, quarenta minutos de trem, dez minutos de ônibus e mais oito minutos a pé e em pé, dependendo da espera no ponto e na estação. Agora, tomo um ônibus, viajo por duas linhas de metrô (com direito a baldeação na mais movimentada estação do país) e supero um trecho de bicicleta. Mesmo morando na cidade, gasto uma hora.

A grande novidade da mudança é mesmo a vistosa bicicleta amarela, que me foi gentilmente presenteada. Precisei ajustar as marchas, mandar consertar os pedais e providenciar novo farol e lâmpada traseira. Comprei também um cadeado e, por via das dúvidas, uma bomba de ar. Agora só estou esperando para que ver quais das seguintes situações acontecerá primeiro:

* Num belo fim de tarde, procuro minha bicicleta entre as várias paradas no calçadão e, depois de coçar a cabeça, constato: foi roubada!

* Por deixar de fazer algo que deveria, sou xingado por um motorista. Exatamente como no Brasil, só que em alemão, o que soa muito pior.

* A polícia me pára, pergunta sobre algum documento que deveria portar (na Alemanha, há regras, documentos e certificações para tudo) e, diante de uma resposta do tipo "Existe isso?", apreende o veículo.

* Confundindo o guidão esquerdo com o direito (isto é, o freio de trás com o freio da frente), tomo um cinematográfico tombo ao pé da ladeira.

* Tomo gosto pela coisa, participo de todos os eventos pró-bicicleta e pedalo distâncias cada vez mais longas. Inclusive sob chuvisco ou chuva, como no dia da mudança.




Pra lá
e pra cá


Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é, antes de tudo, paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. É autor de "Pedágio urbano: teoria e prática", estudo que recebeu da Universidade de São Paulo (USP) o Prêmio de Excelência Acadêmica de 2007. Aqui, neste blog, quer promover discussões e reflexões sobre mobilidade urbana com todos que se preocupam com o futuro das cidades.
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