
Ainda no domingo, explorei um pouco as redondezas do novo endereço. Passeei por um parque, dei uma olhada nas casas da rua de trás, observei a vizinhança. Bergedorf é um bairro cercado de verde e tem um compacto centro com calçadão onde se pode comprar remédio, pãezinhos ou simplesmente tomar um sorvete.
Mas na segunda-feira, não comprei os pãezinhos, nem tomei o sorvete. Simplesmente retomei a rotina. E ela mudou? Bom, para chegar na universidade continuo levando uma hora. Antes contava uns sete minutos de carro, quarenta minutos de trem, dez minutos de ônibus e mais oito minutos a pé e em pé, dependendo da espera no ponto e na estação. Agora, tomo um ônibus, viajo por duas linhas de metrô (com direito a baldeação na mais movimentada estação do país) e supero um trecho de bicicleta. Mesmo morando na cidade, gasto uma hora.
A grande novidade da mudança é mesmo a vistosa bicicleta amarela, que me foi gentilmente presenteada. Precisei ajustar as marchas, mandar consertar os pedais e providenciar novo farol e lâmpada traseira. Comprei também um cadeado e, por via das dúvidas, uma bomba de ar. Agora só estou esperando para que ver quais das seguintes situações acontecerá primeiro:
* Num belo fim de tarde, procuro minha bicicleta entre as várias paradas no calçadão e, depois de coçar a cabeça, constato: foi roubada!
* Por deixar de fazer algo que deveria, sou xingado por um motorista. Exatamente como no Brasil, só que em alemão, o que soa muito pior.
* A polícia me pára, pergunta sobre algum documento que deveria portar (na Alemanha, há regras, documentos e certificações para tudo) e, diante de uma resposta do tipo "Existe isso?", apreende o veículo.
* Confundindo o guidão esquerdo com o direito (isto é, o freio de trás com o freio da frente), tomo um cinematográfico tombo ao pé da ladeira.
* Tomo gosto pela coisa, participo de todos os eventos pró-bicicleta e pedalo distâncias cada vez mais longas. Inclusive sob chuvisco ou chuva, como no dia da mudança.