Entre a comunidade e a cidade
Leio com o maior interesse o que minha vizinha de blog Giuliana Capello tem a contar sobre as ecovilas e, especialmente, sobre seu fascinante relacionamento com uma delas. Nunca estive nesta ecovila. Mas sei que a tendência de morar com gente que compartilha uma mesma visão de mundo em um mesmo espaço está realmente em alta, e não só em ecovilas. Vamos a alguns exemplos nos Estados Unidos, que, aos poucos, começam a ser exportados para todo o mundo.
Ave Maria, Flórida - Cerca de 25 mil cidadãos norte-americanos moram na comunidade que surgiu com o expresso objetivo fortalecer os valores do catolicismo. Distribuídos por 5000 hectares, há campos de golfe, lago artificial... A igreja se situa no coração do lugar. Não é possível comprar preservativos no local, porque a religião não permite. A jovem universidade, também católica, acaba de receber o reconhecimento federal e quer aumentar o número de estudantes, que hoje estão na casa dos 6 mil.
Summerlin, Nevada - É um dos mais famosos exemplos de "master-planned community", ou seja, um bairro residencial com áreas comuns (de lazer, recreação, educação e consumo) controladas por regras locais. Summerlin é estruturada em 30 pequenas vilas, para atender a todos os gostos dos cerca de 90.000 moradores, cujos deslocamentos baseiam-se no automóvel. Estima-se que, em até 2015, serão 160 mil.
Sun City, Arizona - "Kids will be shot" não é o título de um filme de terror, mas o que se pode ler em placas de uma vila estruturada em torno de campos de golfe, a 35 minutos do centro de Phoenix. De acordo com as regras impostas e aceitas pelos proprietários de casas que podem custar até US$ 1 milhão, pelo menos um morador de cada residência precisa ter completado 55 anos. E nenhum pode ter menos que 19 (os netos podem fazer visitas, mas por tempo bastante limitado). Outras regras: proibido erguer muro, a não ser com finalidade decorativa; mudanças na fachada devem ser previamente combinadas com a associação de moradores; carros devem ser estacionados na garagem e não na frente de casa. Sun City orgulha-se das menores taxas de criminalidade do país.
Ora bolas! A cidade não é o lugar do encontro, da síntese de diferenças. É o produto efervescente da convivência de culturas, de modos de vida. É heterogênea, por natureza. Comunidades exclusivas (aqui incluídos os condomínios fechados), voltadas para um estrito perfil de morador, podem ser um bom antídoto para a violência urbana e, eventualmente, para o trânsito no centro e para o "caos". Mas, dependendo da dose de suas regras e do modo como são planejadas, são também um antídoto para a própria cidade. Um grande desafio para quem busca sustentabilidade no ambiente urbano é encontrar o equilíbrio entre a afirmação da identidade comunitária por vínculos sociais locais e o resgate da cidade em sua essência.