Pra lá e pra cá
26/06/2008 ÀS 09:20
Pelados de bicicleta

Nada poderia ter dado mais certo em junho do que a versão paulistana do World Naked Bike Ride. Não porque a ação tenha conquistado mais segurança e respeito aos ciclistas. Mas, ao tirar a própria roupa, os ciclistas deixaram nua a situação que prevalece em São Paulo: falta de ciclovias, reação desproporcional da polícia e, claro, o corpo humano como tabu.

Pedalar sem roupa foi a forma que os ciclistas encontraram para expressar sua invisibilidade no terreno das políticas públicas de transporte e sua extrema vulnerabilidade no perigoso trânsito brasileiro. O evento aconteceu sem o apoio de nenhuma estrutura institucional, sem liderança sobre o palanque, mas com muita vontade de mudar o estado das coisas. Mudar uma situação que, conforme o Código de Trânsito Brasileiro, nem deveria existir.

A idéia da Pedalada Pelada, porém, não é brasileira. O movimento acontece há anos em vários outros países, onde é outro o respeito ao ciclista, à liberdade de expressão e ao próprio corpo. Trago novamente o exemplo da Alemanha, que conheço melhor. A bordo de um carro, eu mesmo me surpreendi com o cuidado que se tem, quando surge um ciclista na via, à sua frente. O padrão é reduzir a velocidade e ultrapassá-lo com muito cuidado, mantendo a distância legal de um metro e meio. Exceções existem, claro. Uma vez, um idiota passou com seu carro a uns 80 km/h a meu lado.

Mas também na Alemanha a "Pedalada Pelada" é uma controvérsia jurídica. Tirar a roupa na rua seria um ato impróprio e ofensivo à coletividade. No Brasil, um ataque à moral e aos bons costumes. Bem diferente do Carnaval, onde as vergonhas ficam atrás de de muita (ou pouca) tinta e fantasia... Mesmo assim, nenhuma ação carnavalesca da polícia aconteceu durante das escolas de samba neste ano, depois que o mini-tapa-sexo da moça sumiu.

O interessante é que, entre os ciclistas pelados, apenas um foi levado para a delegacia e logo liberado, apesar de que muitos outros -- talvez 30 -- tenham se motivado sob o lema "Quão nu quanto você ousar" e também ficaram pelados. A reação à prisão também foi tão descentralizada quanto o espírito do movimento. Enquanto uma maioria apenas assistiu à detenção do suposto "líder", outros se indignaram, o que provocou ainda mais a polícia.

À primeira vista, todo mundo saiu ganhando em São Paulo, cada um a seu modo. Os ciclistas chamam atenção para sua causa e fortalecem seu movimento de forma divertida, provocadora e inédita no Brasil. A polícia "mostrou serviço" e, conforme anunciado, prendeu quem mostrou o que não devia. E, claro, os jornalistas puderam preencher páginas e páginas com textos e fotos de seminus.

Aos leitores do blog, sugiro levarem para casa, em vez das sensacionalizadas cenas do conflito, a definição de bicicletada deixada por um participante: "A bicicletada é o movimento da rua, da subversão da ocupação do espaço. Nela pode chegar quem quiser e, assim, tentar fazer com que as pessoas percebam que os ciclistas existem."



Pra lá
e pra cá


Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é, antes de tudo, paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. É autor de "Pedágio urbano: teoria e prática", estudo que recebeu da Universidade de São Paulo (USP) o Prêmio de Excelência Acadêmica de 2007. Aqui, neste blog, quer promover discussões e reflexões sobre mobilidade urbana com todos que se preocupam com o futuro das cidades.
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