São Paulo está diminuindo. A cada dia que passa, ruas são fechadas. “Só com autorização“, diz o guardinha do interior de sua guarita. Às vezes, sequer guardinha há, mas apenas um alto portão de ferro com o qual não podemos dialogar. Entre as grades, um estreito espaço que o nosso olhar tenta esquivar em busca do horizonte. Nem gato consegue transpor o portão.
Cancelas são baixadas à frente de qualquer um que queira chegar mais perto. A placa ali pregada deixa claro que o fechamento da rua foi aprovado pela prefeitura, está tudo dentro dos conformes legais. Essas ruas são, na maioria das vezes, meras vielas, sem importância nenhuma para a fluidez dos automóveis na cidade. O máximo que os motoristas perdem são algumas vagas de estacionamento.
Lentamente, São Paulo é esquartejada em áreas de acesso restrito. Tempos atrás, proibidos eram apenas os becos escuros e perigosos da periferia. Depois, veio o oba-oba dos condomínios fechados. Agora, no go areas pipocam por todos os cantos. São os passos firmes da cidade em direção a uma espécie de feudalismo surreal. E ninguém reclama. Nem as ONGs que se mostram mais puras do que a Branca de Neve, nem o Ministério Público, até onde sei.
No entanto, o fechamento de ruas é um dos maiores absurdos que uma cidade contemporânea pode vivenciar. Trata-se de uma perversa expressão da privatização do espaço urbano, lado a lado com a inequívoca conquista das ruas pelos automóveis e com os diferentes tipos de parcerias público-privadas (que, aliás, já estão por trás do fornecimento de quase todos os bens e serviços públicos em nossa cidade).
Se isolamento é mesmo o melhor remédio para a tranqüilidade e a segurança de alguns, eu não sei. Para a cidade, isolamento significa morte. E talvez a arte também perca com isso tudo. Será que Mario de Andrade teria escrito "Atrás da catedral de Ruão" se o padre daquela paróquia tivesse decidido levantar grades por todos os lados? Ou foi justamente este conto a fonte de motivação para os novos pedidos de fechamento de ruas? Que alguém faça alguma coisa antes que seja tarde.