Pra lá e pra cá
15/11/2007 ÀS 13:05
Nova rota, nova rotina

Meu cotidiano mudou radicalmente. Não moro mais na megacidade, moro em um pequeno vilarejo. Pequeno mesmo: 105 habitantes, de acordo com os dados oficiais. Cercada de campos de batata, beterraba e cereais, a vila não tem supermercado, loja do correio, farmácia e nem escola (a que existia fechou há 35 anos). De manhã cedo, pelo menos três vezes por semana, pego o carro e dirijo uns sete quilômetros até uma cidadezinha de 7 mil habitantes. Lá tem mercado, escola primária, correio. No caminho quase sem curvas, passo por outros três povoados. Ao atravessá-los, dirijo a 50 quilômetros por hora, no máximo. Entre eles, longe de pessoas, vou a 100 km/h.

Em dez minutos estou na estação de trem. Também dá para fazer o caminho de bicicleta, já que o trajeto é bastante plano e  ciclistas são realmente respeitados. Estaciono o carro facilmente junto à estação. Sobre os trilhos, passam trens com contêiners dos quatro cantos do mundo que desembarcaram no porto. E de hora em hora passa o trem regional que vai para a metrópole. O trem pintado de azul e amarelo, operado por uma companhia privada de transporte de passageiros, chega envolto em ar gelado.

Cada vagão tem dois andares cheios de assentos confortáveis -- com certeza, mais confortáveis do que os dos aviões que despertaram angústia de nosso ministro. A plataforma da estação seguinte está cheia. Todo mundo vai entrar no trem, ocupar cada um dos assentos vazios e ainda vai sobrar gente para fazer a viagem de pé. Não há empurra-empurra e ninguém sobe no trem até que alguém esteja por desembarcar. No entanto, a partir do momento em que ninguém mais sai do trem, vigora o "cada um por si" e o "salve-se quem puder" acontece. É assim a plataforma da estação de uma cidade de 72 mil habitantes e de muitos trabalhadores atraídos pelas oportunidades de emprego que a metrópole oferece. Esta cidade não chega a ser uma cidade-dormitório. Nela há cinema, muitas escolas e até universidade.

Mais vinte minutos e chego à cidade grande. Agora, estou falando de uma aglomeração de mais de 1,7 milhão de pessoas. Shopping centers, muita gente de terno, migrantes, serviços especializados, salas de cinema com bom áudio, grande diversidade de comércio, movimento e congestionamento. Tudo cheira a metrópole. Colados à estação de trem intermunicipal ficam uma estação de trem urbano e um terminal de ônibus. Os coletivos da linha 142 passam de cinco em cinco minutos e um painel avisa quanto tempo falta para o próximo veículo chegar. Quando chega, ele se inclina para receber os passageiros, entre os quais há sempre idosos e algumas vezes carrinhos de bebês. Desembarco 13 minutos depois, ao ler no painel luminoso o nome do ponto mais próximo à universidade. Antes que o professor fale qualquer coisa, fico refletindo sobre as lições que aprendo ao longo do caminho.




Pra lá
e pra cá


Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é, antes de tudo, paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. É autor de "Pedágio urbano: teoria e prática", estudo que recebeu da Universidade de São Paulo (USP) o Prêmio de Excelência Acadêmica de 2007. Aqui, neste blog, quer promover discussões e reflexões sobre mobilidade urbana com todos que se preocupam com o futuro das cidades.
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