Pra lá e pra cá
04/10/2007 ÀS 08:28
A hora de renovar a carta

Nem vestibular, nem cerimônia religiosa. Para um número crescente dos moradores das grandes cidades feitas para automóveis, o rito que marca mesmo a passagem da adolescência à vida adulta é tirar a carta de motorista. Ah, a carta... Poder entrar no carro e sentir a cidade passar rápido por seu olhar e pelo pedal do acelerador. Escolher para onde ir, sem ter que fazer baldeação. Ir à balada de carro e voltar tarde sem ter de correr para chegar a tempo na estação de metrô ou depender dos ônibus noturnos.

Bom, verdade seja dita: eu mesmo nunca cheguei a pensar que um carro me traria mulheres bonitas ou essa liberdade toda que a propaganda da TV promete. Se cheguei a pensar nisso, foi só por algumas horas até ficar preso em algum engarrafamento por aí. Mas ter conseguido tirar a carta foi demais. Sinal de que a baliza que fiz durante a prova prática foi suficientemente boa para obter a tão sonhada habilitação.

Essas memórias voltaram com força algumas semanas atrás, quando quis renovar a carta. O primeiro desafio foi descobrir o que seria preciso fazer. Tente aqui você também. Eu acho que entendi, mas li de novo e fiquei com a pulga atrás da orelha. Então, preferi confirmar na clínica onde fiz a avaliação médica se deveria ou não fazer o exame psicotécnico.

Depois passei alguns dias me preparando para o exame teórico (que, se realizado no prédio do Detran, sai de graça). Resolvi estudar a partir das informações que já são públicas e da velha apostila da auto-escola que, não sei por que cargas d'água, havia guardado desde aqueles tempos. Foi bom, porque descobri que, de uns tempos para cá, alguém andou inventando placas! Isso mesmo. "Proibido retornar à direita" é uma das que não existiam quando eu era mais jovem. Se bem que, até hoje, acho que nunca vi alguém querendo fazer um retorno à direita...

Outras placas mudaram de nome. Você sabia que, oficialmente, não existe mais "mão dupla", mas apenas "duplo sentido de circulação"? Ficou mais chique, mas será que a nova expressão vai pegar? Por sua vez, "Veículos lentos usem a faixa da direita" virou "Ônibus, caminhões e veículos de grande porte mantenham-se à direita". Será que agora os motoristas de caminhão (inclusive os que dirigem rápido demais) entenderão que não podem ocupar todas as pistas da Marginal?

Mas o que mais me chocou foi o artigo 88 de nosso Código de Trânsito Brasileiro (que você pode encontrar aqui). Veja essa: "Nenhuma via pavimentada poderá ser entregue após sua construção, ou reaberta ao trânsito após a realização de obras ou de manutenção, enquanto não estiver devidamente sinalizada, vertical e horizontalmente, de forma a garantir as condições adequadas de segurança na circulação." Acho que o pessoal da Prefeitura está precisando renovar a carta para compreender esse artigo. Ou você já viu alguma rua ficar fechada aos automóveis até ser pintada e receber todas as placas?

Renovar a carta é um mal necessário ou uma "perda de tempo", na opinião de muita gente. Para mim, valeu a pena passar pela experiência de renovar a carta. É um belo jeito de conhecer melhor as regras e até virar fã de algumas delas.



Pra lá
e pra cá


Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é, antes de tudo, paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. É autor de "Pedágio urbano: teoria e prática", estudo que recebeu da Universidade de São Paulo (USP) o Prêmio de Excelência Acadêmica de 2007. Aqui, neste blog, quer promover discussões e reflexões sobre mobilidade urbana com todos que se preocupam com o futuro das cidades.
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