Fim de semana no parque

O Parque Ibirapuera é um dos mais importantes patrimônios dos paulistanos. Não sei se chegou a ser eleito alguma vez o cartão postal da cidade. (Se não foi, tudo bem; não devemos ver muito sentido nesse tipo de votação...). O fato é que sua relevância se expressa de diversas formas.
Como pólo cultural, reúne privilegiados espaços de exposição artística, como a Oca, o Prédio da Bienal e o Museu de Arte Moderna. Muita gente guarda na memória a lembrança de alguma grande exposição que aconteceu ali. (Ok, pode ser que você não se lembre tanto da exposição como daquela fila quilométrica sob o sol escaldante...) O Parque é ainda alternativa preferencial de lazer para as dezenas de milhares de famílias que visitam o parque em todos os finais de semana. Famílias da classe alta do Jardim Lusitânia ou famílias dos estratos mais populares, vindas de longe, muito longe.
Ainda que o parque não tivesse nem pista de cooper nem museu nenhum, o Ibirapuera mereceria todo nosso respeito. Respeito pelo fato de se firmar como extraordinária área verde encravada em uma metrópole cinzenta de poucas árvores.
Desde o começo de setembro, mudaram as regras de estacionamento de veículos nas ruas do entorno do parque. Se querem parar pertinho da entrada do parque, os motoristas têm de preencher um cartão de zona azul. Ou, seja, o estacionamento, antes gratuito, agora precisa ser pago. Na verdade, é uma "zona azul
light", no qual 2 horas custam R$ 1,80 -- normalmente esse é o preço de apenas uma hora. Políticos da oposição ao prefeito Gilberto Kassab até chiaram, mas não adiantou. A cobrança permanece e completa um mês de existência.
Afinal, o que quer a Prefeitura com a cobrança? Não sei. Vamos pensar o que eles podem ter desejado.
Desejo 1: Aumentar a rotatividade nas vagas de estacionamento. Com a obrigatoriedade da zona azul, nenhum carro pode ficar no mesmo lugar por mais de dois períodos (no caso, quatro horas) e, assim, mais pessoas podem usar aquelas vagas. Mas será que era esse o problema mesmo?
Desejo 2: Expulsar flanelinhas. Se a idéia era afastar os flanelinhas que costumam atuar por ali, a medida fracassou. Eles continuam por lá e já incorporaram bem o discurso do Zona Azul. "Ô, chefia, depois pode deixar um café para a gente; o cartão é só para poder estacionar..."
Desejo 3: Arrecadar mais. Esta é, no fundo, a grande meta de todo prefeito com algum senso de responsabilidade e alguma noção da realidade financeira do município. Mas arrecadar por arrecadar? Exatamente qual o propósito dessa cobrança especificamente? O cidadão está bem informado sobre isso?
Mas qualquer que seja a verdadeira motivação, cobrar de quem freqüenta parques é o oposto do que uma prefeitura deveria fazer. E a prefeitura da cidade menos verde do país está mais errada ainda ao querer cobrar essa zona azul! Estimular a visita da população a áreas verdes e equipamentos culturais, como bibliotecas, teatros, centros culturais, entre outros, é o mínimo que o poder público poderia fazer pelo bem-estar da população. A implantação de zona azul nas imediações do parque representa um desincentivo à prática de esportes e ao acesso a respeitáveis bens culturais da cidade.
Muitas outras regiões da cidade poderiam ter zona azul e as redondezas do parque não teriam por que ser uma das primeiras. Alguém poderia dizer: "Bom, mas é melhor que se vá de bicicleta ou se tome um ônibus até o parque." Concordo. Mas, neste caso, acredito que a zona azul deveria vir acompanhada de um projeto de construção de ciclo-redes conectando o parque a pontos estratégicos em seu entorno. Deveria compreender a criação de linhas de ônibus especiais, com trajetos racionais a partir de algumas estações do metrô, por exemplo, e que eventualmente permitam a entrada dos animais de estimação que também costumam ir ao parque.
Quem defende a cobrança pode ainda dizer: "R$ 1,80 não vai doer no bolso de alguém que já está disposto a ir ao parque." Respeito quem tem essa impressão. Mas gostaria que essa impressão fosse, antes, confirmada por meio de alguma pesquisa. Políticas não devem ser feitas sobre impressões. Além disso, mesmo nesse caso, os contribuintes teriam o direito de saber para onde vai o dinheiro arrecadado e qual o objetivo real da cobrança.
É importante dar o devido valor aos espaços que nos oferece oportunidades de esporte, cultura, recreação ou simplesmente convivência. Não custa lembrar que, no caso de São Paulo, tais espaços são bastante raros. O poder público deve sempre lembrar que o uso intensivo dos espaços públicos é a melhor forma de combater atos de vandalismo e evitar sua degradação e seu abandono. E que as políticas de circulação podem, definitivamente, contribuir para que os cidadãos tenham uma vida melhor na cidade.