Pra lá e pra cá
27/09/2007 ÀS 00:49
Polícia amarronzada

Após cinco anos de intervalo, a Polícia Militar voltará às ruas de São Paulo para registrar infrações de trânsito. É o Programa de Policiamento de Trânsito, lançado nesta terça-feira (25). Pelo programa, 1.375 policiais se somam aos 1.800 funcionários da Companhia de Engenharia de Tráfego para operar o trânsito e multar os infratores.

Além de todas as atribuições dos marronzinhos, os policiais também podem verificar documentos, revistar motoristas, fiscalizar as condições do veículo e até apreendê-lo, se for o caso. Muitos especialistas vêem na medida uma boa possibilidade de reduzir as irregularidades sobre quatro rodas, a poluição e os índices de acidentes.

Mas nem todo mundo está contente. O superintendente da Associação Nacional de Transportes Públicos, que já foi secretário de transportes em Campinas, é um deles. Ontem (26), na sede da ANTP em São Paulo, o arquiteto e urbanista Marcos Bicalho expôs suas razões.

Tive experiência como gestor municipal e a Polícia Militar sempre foi um grande problema. Porque a PM não tem como foco o trânsito, mas a segurança pública. O maior índice de erros, de absurdos, de equívocos bem ou mal intencionados vinham das operações da Polícia Militar. Sem contar que, muitas vezes, a motivação do policial militar para a atuação no trânsito era tão condenável quanto a indústria do radar: o policial ia para o trânsito para ganhar um pró-labore, ganhar um pouco mais.

A lógica de operação do trânsito não é militar, é civil. Agora, é um desperdício haver um exército de homens na rua, cujo papel é garantir a ordem pública, mas que não pode olhar. Mas um camburão de polícia andando na rua dá todos os maus exemplos que podemos imaginar. E nem sempre estão perseguindo um bandido ou um marciano; eles fazem isso porque vêem nos filmes americanos e querem fazer igual. É uma "descultura", um anti-exemplo.

Para comemorar a entrada da Polícia Militar no trânsito, ela precisaria ser requalificada -- no sentido da cidadania, não no sentido da ética. Para ser um agente de trânsito, o guarda precisa ser exemplar e não pode parar o carro em cima da calçada ou andar na contramão. O policial que faz tudo errado e depois vai parar um motorista está fazendo o quê?

Na realidade, não comemoro, mas acho que a Polícia Militar pode ser uma ferramenta de apoio importante. Se a PM atuar na fiscalização dos documentos dos veículos e da carteira de habilitação, estará ajudando muito mais para um trânsito melhor do que multando.



Pra lá
e pra cá


Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é, antes de tudo, paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. É autor de "Pedágio urbano: teoria e prática", estudo que recebeu da Universidade de São Paulo (USP) o Prêmio de Excelência Acadêmica de 2007. Aqui, neste blog, quer promover discussões e reflexões sobre mobilidade urbana com todos que se preocupam com o futuro das cidades.
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