Pra lá e pra cá
24/09/2007 ÀS 13:20
Os "pontos autos" do Dia Sem Carro


Não foi dessa vez que o Dia Sem Carro foi de fato incorporado ao calendário dos paulistanos que costumam andar de carro. Apenas duzentas pessoas participaram da caminhada pela Avenida Paulista, que deveria ser o ápice do evento. Os organizadores não esconderam a frustração com a baixa adesão às dezenas de eventos programados para ontem.

A bela exposição da história das bicicletas, montada sobre o Elevado Costa e Silva, foi vista por raros visitantes sob um calor de mais de 30°C. Talvez por má divulgação. Moradores vizinhos ao Minhocão e motoristas mal sabiam do evento, apesar das notícias e propagandas nos meios de comunicação.

No Parque Villa-Lobos, uma apresentação de chorinho foi cancelada momentos antes de os músicos subirem ao palco. O pesquisador Paulo Saldiva simplesmente não deu as caras no Parque Ibirapuera para a decepção de algumas pessoas que estavam lá só para vê-lo. O especialista em poluição atmosférica perdeu a oportunidade de falar na hora certa e no local certo: durante o Dia Sem Carro, o ar do Ibirapuera registrou alta concentração de ozônio, fazendo com que a Cetesb disparasse alerta.

Na Avenida Paulista (que, aparentemente, tinha o tráfego normal para um sábado), manifestantes tentaram, com criatividade, convencer motoristas a desembarcar dos automóveis. No final da tarde, tomaram uma das faixas da avenida para caminhar do Conjunto Nacional ao SESC Paulista. Ao contrário do combinado, os ciclistas -- um tanto quanto sectários -- não se juntaram à marcha.

Além disso, justamente nesse dia, uma das bicicletadas terminou em confusão com a Polícia Militar. Conforme a jornalista e ciclista Renata Falzoni, que diz ter gravado tudo em vídeo, até gás de pimenta foi disparado contra os ciclistas que estavam no seu devido lugar, ou seja, na rua.

O Dia Sem Carro não teve um ponto alto, mas, paradoxalmente, tristes "pontos autos": dois graves acidentes de trânsito com vítimas. Um logo pela manhã causou ferimentos em seis pessoas. E o outro levou à UTI um ex-jogador de futebol. O congestionamento nas Marginais também se fez presente durante alguns momentos do Dia Mundial Sem Carro. Observando as vagas de estacionamento em seu prédio, um amigo meu ironizou: "É o dia sem carro na garagem".

Por volta das 17h30, o empresário Oded Grajew discursou para poucos, frisando que o movimento era apartidário. Logo em seguida, o secretário do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge, não resistiu e também subiu à tribuna. Avaliou que o Dia Sem Carro de 2007 foi melhor que o do ano passado e que o próximo será ainda melhor. Na opinião dele (e na minha também), o Dia, mesmo com todos os problemas, valeu a pena.

Valeu a pena, porque mostrou que alguém -- pelo menos alguém -- está incomodado e preocupado com os problemas relacionados ao trânsito em São Paulo. Valeu a pena, porque jogou uma luz para a continuidade desse tipo de iniciativa nos anos que vêm. Valeu a pena, porque mostra que sempre é melhor tentar amadurecer nossa consciência cidadã do que esperar que uma situação crítica de congestionamentos e de poluição atmosférica bata à nossa porta.



Pra lá
e pra cá


Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é, antes de tudo, paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. É autor de "Pedágio urbano: teoria e prática", estudo que recebeu da Universidade de São Paulo (USP) o Prêmio de Excelência Acadêmica de 2007. Aqui, neste blog, quer promover discussões e reflexões sobre mobilidade urbana com todos que se preocupam com o futuro das cidades.
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