É sábado, mas é hoje também

O Dia Mundial sem Carro acontece no sábado, 22. Mas hoje à tarde ocorrerá, na prática, a inauguração simbólica do evento. Chama-se Desafio Intermodal essa espécie de competição entre diferentes meios de transporte.
Usuários de carro, bicicleta, ônibus, trem ou metrô devem partir às 18 horas da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini em direção ao Viaduto do Chá. Repito: será às
18 horas, então já se pode imaginar quem perderá e quem sairá ganhando. Ainda bem que a graça do Desafio nem é seu resultado final, mas poder compartilhar diferentes percepções da cidade durante o caminho.
500? Não, quase isso
Uma verdadeira enxurrada de notícias interessantes foi publicada na primeira metade desta semana. (Abaixo há uma listinha.) A que chama mais a atenção foi reportagem de capa no jornal O Estado de S. Paulo no último domingo. Nele, lê-se: "Embora a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) costume informar que 500 veículos entram em circulação em São Paulo por dia, o número é bem maior. Tomando por base dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) de janeiro a julho, são emplacados em média 635 carros e 235 motocicletas por dia", escreveram Rodrigo Brancatelli e Fabiane Leite.
A notícia prossegue, fazendo um alerta para o aumento da emissão de poluentes em São Paulo -- que já é a sexta do mundo no quesito pior ar para respirar, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. A Universidade de São Paulo projeta que, em 13 anos, aumentará o nível de diversos poluentes associados ao uso de carros e motocicletas. Dióxido de nitrogênio: +72,6%. Material particulado: +72%. Ozônio: +74%. Números realmente assustadores para quem já sofre de doenças respiratórias ou para quem quer evitar visitar um pronto-socorro nos próximos anos.
No entanto, essa notícia tem um outro lado não devidamente explorado. Como assim a CET transmite à população e aos jornalistas um dado errado? Todas as reportagens sobre trânsito veiculadas pela imprensa nos últimos anos repetiram à exaustão a informação de 500 emplacamentos por dia. E só agora se descobre que o número é, na verdade, 74% maior?! A CET não se pronuncia sobre essa, digamos, "margem de erro"?
Minha hipótese é que informar bem o cidadão nunca foi o forte do poder público no Brasil -- e particularmente da CET. Mas, para ninguém sair dizendo que parti para a generalização de um caso isolado, cito outro exemplo. Dia desses procurei os índices de lentidão nos horários de pico da manhã e da tarde. Eu tinha a série de dados até agosto de 2000, mas gostaria de atualizar a tabela. Busquei a informação no site da Companhia. Como eu esperava, não as encontrei. Resolvi telefonar para lá. Perguntaram a mim de onde eu era e me pediram para formalizar o pedido por escrito. Esperei, esperei um retorno. Não me responderam. Depois de outro e-mail, disseram-me que a série havia sido descontinuada. Passeando pela internet outro dia, deparei-me, sem querer, com a informação de que precisava, com todos os números que eu procurava, até 2006. E nos créditos, claro, constava "Fonte: CET". Era óbvio que só eles podiam fornecer essa informação.
Isso mostra, no mínimo, o pouco caso que o órgão responsável por administrar o trânsito de São Paulo faz para informar bem os cidadãos sobre um dos principais problemas da metrópole paulistana. Qualquer cidade que realmente quer buscar soluções para a mobilidade urbana parte do princípio da transparência e facilitar o acesso a informações básicas. Nos países desenvolvidos, as políticas públicas estão sustentadas sobre um arsenal de estudos e dados públicos disponíveis para os gestores das políticas de trânsito e transporte, para a comunidade acadêmica e para cidadãos em geral, não importando "de onde são". Mas no Brasil não é assim. Com raras exceções (uma iniciativa na contramão é o projeto
São Paulo em Movimento), os administradores públicos parecem preferir esconder informações a torná-las efetivamente acessíveis a todos. E nesse jogo de esconde-esconde e de brincadeira com números, é que a qualidade do ar de São Paulo "caminha para virar emergência de saúde pública", como escreve o Estadão.
É como se, de repente, os meios de comunicação despertassem para o tema. A começar pela infeliz novidade vinda dos túneis da Linha 4 do Metrô (sim, ela de novo!). Erros de engenharia provocaram um desalinhamento de 80 centímetros dos túneis cavados a partir de pontos diferentes e que deveriam se encontrar. Um desvio de até 10 centímetros seria razoável, disseram os especialistas ouvidos pela Folha de S. Paulo na quarta-feira (19). O mesmo periódico traz ainda -- embora sem o mesmo entusiasmo -- a notícia do anúncio de construção de uma ciclovia de 15 km no Butantã. É esperar para ver.
Também no dia 19, o Jornal da Tarde dá como manchete um título que pode causar estranhamento à primeira leitura: "Trânsito de SP é o que menos mata no País". São Paulo registra 2,8 mortes por 100 mil habitantes, enquanto a média nacional é 8,5/100 mil. O JT publica as sensações de um repórter que fugiu da rotina e tentou andar de bicicleta em São Paulo, além de um artigo criticando a falta de investimento em sinalização nas ruas -- é o poder público contrariando as leis.
Na terça-feira, ouvi o Milton Jung fazendo entrevistas com especialistas de trânsito na CBN, vi a repórter do Cultura Meio-Dia conversando com um coordenador (sic) do movimento Nossa São Paulo e até o Lobão mediando um debate bem propício para a MTV: muita gente em torno da mesa, certa desorganização e quase nenhum raciocínio desenvolvido em profundidade. Mas valeu a intenção.
Por fim, dois artigos na Folha: domingo (16), o empresário Oded Grajew preencheu a página 3 em defesa do Dia Mundial Sem Carro. Três dias depois, Marcelo Coelho revela uma posição paradoxal, um pouco esquiva, mas certamente bastante representativa. Escreve o colunista: "Para resumir, tenho a sensação de ser um pouco otário se participar desses Dias Sem Isto ou Aquilo, e ao mesmo tempo sei que sou otário no meu cotidiano, feito de Dias Com Isto e Mais Alguma Coisa".
Acompanho o tema na mídia há um tempinho e confesso que me surpreendi com a quantidade de notícias. Seria tudo isso conseqüência do auê em torno do Dia Sem Carro? Ou só porque estamos na Semana Nacional do Trânsito? Ou os fatos em si justificam tudo isso? Por via das dúvidas, continuemos de olhos abertos.