Pra lá e pra cá
02/04/2009 às 16:33
Mil quilômetros de ciclovias até 2020

Foi publicado em julho um livro que tem feito bastante barulho pelo menos entre os técnicos de transporte que conseguem decifrar o alemão escrito. "Planungshandbuch Radverkehr" (ou o "Manual do planejamento cicloviário") está sendo vendido por € 79,95 como a bíblia das ciclovias e do ciclismo. Que a bicicleta pode ser, sim, parte da solução da mobilidade intraurbana, estamos cansados de saber. Agora, como fazer para promovê-la? Ao que se deve concretamente atentar? É sobre isso que Michael Meschik, professor universitário dedicado há mais de vinte anos ao tema da mobilidade não motorizada, escreve nesta obra.

E qual a importância disso para nós, brasileiros? É que o livro surge para um público ambientado em países que se pensavam repletos de informações e leis que asseguravam os direitos dos ciclistas. Ou seja, surge a países onde muitos acreditavam que não havia nada mais a escrever. A Alemanha, assim como a Áustria e a Suíça, conta com leis e diretrizes em todos os níveis de governo promovendo e fomentando o uso da bicicleta como meio de transporte. No entanto, as condições de circulação de bicicletas nas cidades estão ainda longe de serem ideais e são presumivelmente piores do que as encontradas pelos usuários de automóvel. O livro achou bem seu espaço.

São Paulo, por sua vez, ainda engatinha no campo da promoção ao transporte não motorizado. Isso ficou claro na conversa com Laura Ceneviva, publicada há duas semanas no blog. Segundo levantamento do Pró-Ciclista, as primeiras ciclovias de São Paulo foram inauguradas durante a gestão de Paulo Maluf (1993-1996), dentro de parques públicos. Em 1996, a Prefeitura abriu ciclovias nos parques Ibirapuera (5,5 km de extensão), Anhanguera (2,7 km) e Cernucam (2,6 km). Durante os primeiros dois anos do mandato de seu sucessor, Celso Pitta, foram abertas ciclovias na Avenida Sumaré (1,4 km) e na Avenida Faria Lima (1,3 km), que havia sido palco de uma operação urbana. Em 1998, foi construída a mais longa ciclovia da cidade até hoje: o trecho de 8,2 km que se estende pelo Parque do Carmo.

Devido às dificuldades legais de se abrir novas pistas para bicicletas fora dos parques, São Paulo não ganhou nenhuma ciclovia de 1999 a 2006. Mas, nesse período, o debate na prefeitura e na sociedade amadureceu. A administração de Marta Suplicy criou um inédito grupo de trabalho, envolvendo profissionais de diversos órgãos municipais e da sociedade civil. O GT Bicicleta foi o embrião do Pró-Ciclista, grupo formal e interinstitucional que trata da mobilidade não motorizada na cidade de São Paulo. Em 2006, portanto já na gestão Serra/Kassab, foi aberta a ciclovia na Estrada da Colônia (1,8 km) e, no ano passado, foi inaugurado o trecho de 6 quilômetros da ciclovia da Radial Leste.

Ao todo, a cidade conta hoje com 29,5 km de ciclovias (dois terços delas em parques e apenas um terço fora deles). As próximas ciclovias a serem abertas na cidade devem ampliar a rede para 47,6 km. Outros 70 quilômetros estão em projeto. O Pró-Ciclista trabalha com a meta de 1.000 quilômetros de ciclovias em São Paulo até 2020.

Diante do histórico de construção de ciclovias e de nossa cultura de mobilidade, essa meta é evidentemente irrealista. Representa mais um desejo pessoal do secretário do Verde e do Meio Ambiente Eduardo Jorge e de membros de sua equipe do que um plano exequível no prazo estipulado. Uma obra como a de Meschik – não simplesmente traduzida, mas devidamente adaptada ao contexto brasileiro, onde os próprios técnicos e gestores municipais ignoram ou “atropelam” ciclistas – certamente ajudaria a promover o transporte não motorizado e fazer dessa meta algo mais palpável.




Comentários

05/09/2009 às 21:59
PAULO DE TARSO MARTIN BARRIONUEVO - diz:
A criação de CICLOVIAS , é uma iniciativa importantissima na grande maioria das cidades em que o congestionamento veicular está presente. Num mundo globalizado e consumista , onde degrade-se cada dia mais o meio ambiente , pontos de equilibreio devem ser explorados , como a ciclovia , contribui para a diminuição de emissão de poluentes na atmosféra bem como na redução de combustíveis,além de que faz com que seus usuários tenham melhor qualidade de vida, pois se exercitam no trajeto. As ciclovias já são realidade em algumas ciadades, a exemplo de São Bernardo do Campo,que implementou na Avenida Pery Ronchety um trecho inicial que já atende muitos ciclistas e recebe adeptos a cada dia,tal iniciativa contribui e muito para a população de baixa renda, que ganha tempo diminuindo o tempo de percurso até o terminal de onibus,pela utilização dos BICICLETARIOS. O poder Público , deve e tem a responsabilidade de contribuir através de ações que minimizem os impactos do crescimento populacional.Nota-se pela verticalização das cidades que algo deve ser feito,além das ciclovias deve também investir em transporte público , mesmo que seja em detrimento do transporte veicular individual.



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Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
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