Enquanto São Paulo e as grandes cidades brasileiras são corroídas por problemas seriíssimos, os candidatos mal sabem o que defendem. Pelo contrário, algumas de suas idéias não resistem a um exame minimamente crítico. Ferem até o bom senso.
Sinto dizer, mas candidato nenhum apresentou um projeto, no melhor sentido do termo. Um projeto com fundamento e com metas, que delimite bem o problema a ser enfrentado, que explique por que e como algo deve ser feito, que aponte os recursos necessários. É exigir demais? Poderiam ter realizado isso, aproveitando sobretudo o potencial do alcance da internet e as possibilidades que esse meio apresenta. No entanto, as idéias mostradas na campanha eleitoral - se é que têm nível de elaboração suficiente para que possam ser chamadas de "propostas" - até agora são essas que nós aqui poderíamos ter numa conversa de bar e que ganharam uma roupagem elegante e dinâmica dos marqueteiros na propaganda no rádio, na TV e na internet.
A síndrome das propostas ocas parece afetar todos os candidatos, mas é ainda mais grave entre aqueles que já têm experiência administrativa. Afinal, aqueles que em bom português se chamam "macacos velhos" deveriam ter aprendido alguma coisa no trato com o bem público durante o tempo que ficaram no Executivo.
À frente da corrupção, esse tipo de picaretagem é, na minha opinião, a principal causa de desilusão com a política que os eleitores brasileiros expressam já tão precocemente. Em São Paulo, o baixo nível do debate público também está presente quando o assunto é mobilidade. Leves e soltas, as idéias dos candidatos trazem três tipos principais de armadilhas:
1. Falar bonito é o que importa. "Redimensionar o tempo de validade do bilhete único" demonstra perfeito domínio do idioma. Mas o que isso quer dizer? O bilhete valerá por mais ou por menos tempo? E principalmente: com base em que critérios será feita a mudança?
2. O ideal do prefeito realizador. "Construir novos terminais de ônibus" Onde, quantos e com que dinheiro são detalhes que, mesmo após os resultados das urnas, não serão revelados. O que importa é que serão construídos. E, como se não bastasse: serão novos!
3. Usar a lógica do leilão. Aqui, o candidato usou a mesma frase do concorrente, adicionando apenas um número. "Construir ao menos 8 novos terminais de ônibus." Bom, se o candidato escreveu oito, supõe-se que saiba onde serão construídos. Ou será que oito é apenas seu número de sorte?
Apesar de tudo, não prego o voto nulo e acho importante comparecer às eleições e votar em alguém. Mas como escolher alguém? Um conselho prático? Aproveitar a manhã de sábado para comparar as diretrizes do programa de governo dos candidatos (a de quase todos pode ser encontrada na internet), fazer o difícil exercício de imaginar qual a cidade que eles imaginam e verificar qual das cidades imaginárias é a menos ruim. No domingo, digitar os números com atenção, apertar o botão verde e sair da urna dizendo "Seja o que Deus quiser".