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Deixe sucatear tgrodrigues - 29/01/2009 às 20:49

Antes de 14 de janeiro, um cenário desolador. Lojas vazias, vendedor às moscas. Cliente, na melhor das hipóteses, saindo com um catálogo de informações. Depois de 14 de janeiro, a coisa mudou. "Sensivelmente melhor" nas palavras dos gerentes de vendas, que costumam evitar fornecer números. Consumidores chegam a formar filas, a se espremer. A paisagem melancólica sai de cena e agora a mesma revendedora é um lugar vibrante. Alguns dizem que o país passa por uma febre.

Mas afinal o que mudou há duas semanas? A novidade foi o anúncio da cereja do bolo, ou melhor, do pacote econômico da "grande coalizão" que governa o país. Para afastar a economia mais forte da Europa da rota de recessão, cristãos-democratas e social-democratas comemoram a genial idéia de combinar crescimento econômico com responsabilidade ambiental. O governo dá 2.500 euros ao comprador de carro novo que levar para o ferro velho seu veiculo antigo. Alguns revendedores aproveitam a política para criar slogans como "Deixe sua lata virar sucata"…

Pelo pacote (que conta com recursos públicos da ordem de 1,5 bilhão de euros), pode-se ter uma boa impressão de que tipo de país é a Alemanha. Faz pose de boazinha, apóia ações de sustentabilidade no mundo todo, tem uma opinião pública relativamente bem atenta aos crimes que os brasileiros cometem na Amazônia e rivaliza o tempo todo com o "way of life" gastão norte-americano. Mas quando a crise aperta para o lado deles, o que fazem? Correm para salvar justamente a indústria automobilística.

Ao lado de uma foto com carros empilhados no ferro velho, a revista "Der Spiegel" pergunta se essa estratégia é mesmo inteligente. Os pontos negativos analisados pela reportagem são claros. Primeiro, as distorções econômicas que podem vir junto com um bônus constante de 2.500 euros. Já que o valor da bolsa-carro-novo é sempre o mesmo, os motoristas têm um grande incentivo para comprar o veículo mais barato. O veículo mais barato, porém, não costuma ser fabricado na Alemanha, não leva mão-de-obra alemã em sua produção. Então, a pergunta que fica no ar é se o governo alemão não estaria ajudando mais os países onde estão instaladas as fábricas de Kia, Nissan e Dacia do que a terra da Volkswagen, BMW e companhia.

Uma segunda pergunta que fica no ar é o quão "sustentável" essa política é. Os veículos a serem comprados têm de obedecer ao já existente padrão Euro 4 para que o subsídio seja concedido. Isso é muito pouco, na opinião de organizações ligadas a causas ambientais. Afinal, o governo pode dar esse empurrãozinho para quem comprar uma geringonça que faz menos de 7 quilômetros por litro. Dessa forma, não há estimulo para a aquisição dos veículos menos poluidores e nem para o desenvolvimento de tecnologias mais limpas.

Tecnologias essas que, se depender da indústria automobilística, nem serão tão limpas assim, pelo menos no futuro próximo. Na palestra de ontem para um público predominantemente masculino e engenheiro, Frank Seyfried, diretor do departamento de pesquisas energéticas da Volkswagen deixou claro que energia solar ou hidrogênio só terão chance bem, mas bem depois que o petróleo atingir seu pico de produção. Nos próximos anos, a corporação segue seus concorrentes e aposta mesmo é na evolução do motor a combustão, à base de diesel e gasolina mesmo. E, claro, durante a palestra, alguém tinha de perguntar: Mas e o etanol? Qual a garantia que vocês têm de que utilizar combustível do Brasil não é estimular a destruição da Amazônia?

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Pra Lá e Pra CáThiago Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.

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