- ambiente aquecido (afinal o útero é bem quentinho),
- luz baixa (para não agredir os olhos que só abriram no escuro da barriga),
- não pingar nitrato de prata, que é ácido, nos olhos do bebê,
- poucas pessoas no local do parto, falando baixo,
- só cortar o cordão umbilical depois que parar de pulsar (o que significa que o bebezinho já respira sozinho, naturalmente. Ao cortar o cordão ainda pulsando sufocamos a criança que e é forçada a respirar com violência).
Pra garantir que o desejo antigo fosse realizado, o Cacá, neonatologista que atende os bebês de muitas mulheres que optam pelo parto humanizado, receberia o Lucas. Mas naquele 18 de outubro, um mês antes da data provável do parto, não conseguimos falar com ele. Nenhum outro pediatra conhecido da minha equipe, que foge dos procedimentos hospitalares, foi encontrado e o Lucas foi atendido por uma neonatologista de plantão no hospital.
A luz baixa foi respeitada, o silêncio na sala de parto e o momento de cortar o cordão também, mas meu filho sofreu com os outros procedimentos. O pior pra mim foi a oferta constante de "complemento" para o leite materno. Segundo os pediatras do hospital ele precisava ganhar peso rápido por ter nascido antes da hora, com baixo peso (2 quilos e 480 gramas) e com risco de falta de oxigenação por um excesso de glóbulos vermelhos.
Foi bastante estressante! Tenho cópia do prontuário que diz mais de uma vez: "mãe ansiosa, com pouco colostro, não autoriza o complemento à amamentação", "mãe nega novamente a oferta de NAN". Além de querer amamentação exclusiva até os seis meses (conforme recomenda a Organização Mundial de Saúde, o Ministério da Saúde e a Sociedade Brasileira de Pediatria), eu tinha medo de que ele não sugasse meu peito depois que o leite em pó pesasse na barriga. E se o bebê não suga o leite não vem...
A linda Dra Maria Isabel Scuarcialupi foi até o hospital ensinar o Lucas a sugar. Era questão de tempo pra ele ganhar peso. Mas como a pressão pra dar o tal complemento só aumentava, conseguimos falar com o Cacá que deu alta pra mim e pro bebê antes das 48 horas de hospital. Em casa, o Lucas mamou super bem e agora festejamos 3 meses de amamentação exclusiva de muito sucesso :)
Em outro post escrevo mais sobre amamentação. Agora publico duas conversas com neonatologistas, falando sobre os cuidados com o recém-nascido:
A primeira é com a materna Ana Paula Caldas Machado. Pediatra neonatologista do Hospital de Clínicas da Unicamp, Ana Paula é grande defensora e praticante da humanização do nascimento. Depois de algumas conversas informais, formalizei algumas perguntas pra ela:
Bianca: O procedimento padrão hospitalar é: cortar o cordão logo após o nascimento do bebê, limpar a pele, aspirar boca e nariz, medir, pesar, injetar vitamina K, pingar nitrato de prata nos olhos, colocar no berço aquecido, confere? Quais desses procedimentos são realmente necessários? Qual o procedimento num parto humanizado, seja em casa, seja no hospital?
Ana Paula: Na verdade, nenhum desses procedimentos é indispensável, ou devem ser feitos imediatamente. Num parto humanizado, o bebê nasce e vai direto para o colo da mãe, ainda ligado ao cordão umbilical, que só será cortado quando parar de pulsar, o que pode levar vários minutos. No colo da mãe, ele é gentilmente secado com panos aquecidos e pode mamar, se desejar. Depois que o bebê ficou bastante com a mãe, mamou etc, ele pode ser medido e pesado. A crainaça pode receber a vitamina K oral ou injetável, conforme o desejo dos pais. Não é necessário aspiração das vias aéreas, nem berço aquecido, nem colírio.
Bianca: Vi uma resposta do Cremesp a uma consulta que você fez sobre a rotina prestada ao recém-nascido. O que te motivou a recorrer ao Conselho? Em que medida essa resposta te ajuda? Como ela pode ser utilizada por mães e pais que preferem um atendimento humanizado?
Ana Paula: Consultei o Cremesp porque vários colegas tinham dúvidas de como proceder nos casos em que os pais não desejavam que o recém-nascido fosse submetido aos procedimentos de rotina como colírio, vitamina K e vacinas. Os médicos tinham dúvidas se era lícito respeitar o desejo dos pais nestes casos. O parecer no CRM ajuda no sentido de dar respaldo aos médicos que entendem que nos casos que não envolvem risco de vida imediato, deve-se sempre respeitar o desejo e convicções dos pais. As mães e pais que desejarem podem imprimir o parecer do CRM e levar ao hospital onde ocorrerá o parto, junto com um termo de responsabilidade assinado pelos dois, isentando o hospital de quaisquer problemas futuros que a criança possa vir a apresentar em consequência da não realização dos procedimentos. Entretanto, é preciso ficar claro que o médico não é obrigado a acatar a vontade dos pais, pois ele não é obrigado a prestar um atendimento com o qual ele não concorda.
Bianca: Alguns hospitais também adotam como procedimento dar leite artificial para o recém-nascido. Quais as implicações dessa prática? Como os pais podem se defender dela?
Ana Paula: O recém-nascido que recebe leite artificial nas primeiras horas de vida pode não querer sugar no seio, o que retarda a chegada do leite, criando um círculo vicioso de mãe com pouco leite - bebê que toma complemento - bebê que não suga... Os pais devem exigir que a criança permaneça o tempo todo em alojamento conjunto, e de preferência procurar uma maternidade que incentive de verdade o aleitamento, como os hospitais Amigos da Criança.
A segunda conversa foi por telefone com o Dr. Carlos José Silvestre Rodrigues, pediatra neonatologista da Maternidade São Luiz, unidades Anália Franco e Itaim:
Bianca: Qual o procedimento hospitalar com o recém-nascido?
Carlos José: Essencial é que exista um pediatra. Há até uma lei estadual que obriga o precedimento. O local precisa estar aquecido pra o bebê não sentir uma difereça brusca de temperatura.Algumas vezes é necessária aspiração de líquido no nariz e da garganta. Depois o cordão é campleado e o bebê é colocado pele-a-pele com a mãe. Sempre que possível a mãe deve amamentar na sala de parto.Depois o bebê é pesado, medido e avaliado de maneira mais conjunta [é o chamado Apgar, que dá uma nota para o bebê no primeiro minuto de vida e outra no quinto minuto, avaliando batimentos cardíacos, reflexos, tônus muscular, cor da pele e respiração]. Depois é preciso pingar colírio de nitrato de prata para previnir infecção com gonococo e injetar vitamina K, para previnir sangramentos.
Bianca: Todos esses procedimentos são necessários?
Carlos José: Fugir dos procedimentos é discutível. O pessoal mais naturalista faz vitamina K via oral, mas não exite comprovação científica de que tenha o mesmo efeito de quando é injetada. Em um pré-natal bem feito, com todas as culturas, alguns médicos não pingam o colírio no olho do recém-nascido. Eu, pessoalmente, recomendo sempre o procedimento por prudência. Há muita chance de resultado falso-negativo e eu prefiro não correr o risco. [a contaminação da criança pelo gonococo durante o parto pode provocar cegueira]. No São Luiz também campleamos o cordão ainda pulsando. Algumas equipes externas preferem esperar e o hospital dá essa liberdade [muitos hospitais particulares não permitem que equipes externas fujam de seus procedimentos]. Mas o campleamento tardio do cordão pode trazer complicações para o bebê, pode passar muito sangue da mãe pra ele e aumentar o número de glóbulos vermelhos, o que aumenta a hipoglicemia. É necessário monitorar muito bem.
Bianca: Alguns hospitais também adotam como procedimento dar leite em pó para o recém-nascido. Quais as implicações dessa prática?
Carlos José: A amamentação precisa ser agradável pra mãe, não uma tortura ou obrigação. Algumas mães não querem amamentar e ninguém aqui força a amaentação. Mas esse não é o caso da o da maioria. A complementação é indicada para nenês com peso maior ou menor que o adequado pra idade gestacional, pelo risco de baixar a glicemia. Mas sempre oferecemos o leite no copo para a criança. Dependendo de como o leite for administrado ele atrapalha sim a amamentação. Bicos de mamadeira, que deixam o leite escorrer e o bebê não precisa fazer força, podem provocar desmame. Mas no copo não há problema.