Pé de manga?
"Tinha pai que plantava um pé de manga quando o menino nascia. Ou ele mesmo, maiorzinho, chupava a manga e plantava o caroço. O pé crescia com o nome da pessoa. Ficava a tradição, aquele respeito."
Foi um homem cumpridor, ordeiro e positivo, que gosta de ficar sozinho em um barco nas águas do São Francisco quem me contou essa história, há três anos. Menos silencioso que o personagem de Guimarães, na Terceira Margem do Rio, Gumercindo dos Anjos tinha então 63 anos e morava na cidade de Sobradinho, na Bahia, onde estive com mais três amigas quando escrevemos sobre a barragem contruída na região. De tudo o que lamentava ter deixado na Bossoroca, povoado que foi alagado no final da década de 1970, nada o entristece mais que pensar no Pé de Manga Gumercindo.
"Tem hora que eu lembro assim, que ficou debaixo d'água. Eu sonho e acordo chorando, acredita? Até hoje. Com a idade que eu tenho! Pego o barco e vou pro rio, pro lugar do pé-de-pau, e fico assim... que nem cachorro que perde o dono, olhando, com aquela saudade, aquela coisa. Lembro do povo do meu tempo de menino. Nunca mais vimos essa gente. Gente boa, gente idosa. Foi tudo pra São Paulo, outras terras. Ninguém mais viu."
De tudo o que vi e ouvi em três visitas ao sertão, a do seu Gumercindo foi a que mais me marcou. E desde que engravidei do Lucas ela ganhou ainda mais sentidos.
Na época, um padre nos explicou como a ligação com a árvore fortalecia o vínculo do homem com a terra. Desde cedo a criança era responsável por cuidar de seu "pé-de-pau" e era dona dos frutos que ele dava, podia trocar nas feiras por brinquedos, roupas ou doces. Ver os olhos marejados daquele homem, enquanto falava da falta que sentia de seu lugar me fez pensar sobre o meu lugar. Que ligação eu tinha com a minha origem? Com a terra de onde sai meu alimento? Com a vizinhança ao meu redor?
Quando me descobri grávida, desejei um Pé de Manga pro meu filho. Uma ligação com sua essência, como parte desse planeta, como membro de uma comunidade. E no dia 18 de novembro, quando o Lucas completou um mês, nasceu o Pé de Amora Lucas. Com ele, o Pé de Banana Maria e o Pé de Abacate João podemos construir um mundo diferente. O mundo onde gostaria que nossos filhos se encontrassem.
Comentários
19/12/2008 às 00:00Marcio Lozano - diz:Ei Bia, já conversei longamente com a Elza a este respeito. Ela me contou que quando ela ainda morava na Bahia na cidade de Maracá ou Maracás (segundo ela nomeada assim por causa do grupo indígena que vivia naquelas terras do qual seu pai era descendente), eles tinham na propriedade deles alguns Embuzeiros: "... tinha o Embuzeiro de Nezinho o Embuzeiro de meu pai e o de cada um...cada um tinha que varrer em baixo e limpar o seu...a gente sentava alí no terreiro, na sombra, cada um em baixo do seu pé e ficava conversando..."Toda vez que ela fala saudosa dos tempos de sua infância na Bahia me pergunta em tom de pesar e pedido se algum dia vai conseguir voltar lá pra ver os Embuzeiros. No terreno que comprei recentemente lá no Embu das Artes, tem Jaqueira, Amoreira, Goiabeira, Limoeiro, Palmeira, Ameixeira e outras, mas confesso que ainda não somos muito íntimos. Quando eu me mudar pra lá trato logo de descobrir os nomes ou rebatizar todo mundo, ou alguns deles.
19/12/2008 às 00:00Mara - diz:Olá Bianca...Bem achei lindissimo seu relato sobre o parto e apesar de conhecê-la e admirá-la quero dizer que de verdade me surpreendi com tanta consciência acho que é disso que o planeta precisa desse cuidado desse carinho...Enfim o que mais me tocou foi o comentário que fez sobre ter o bebê de cesaria em cima de uma maca, por experiência própria posso dizer que realmente é a situação mais desconfortavel que existe...Tive uma gestação complicada pois no sétimo mês descobrimos que estava com "eclanpcia"(é assim que escreve???), enfim fiquei hipertença durante a gestação tendo que tomar remédio e tudo, por isso a cesária duas semanas antes do previsto pois rompeu a bolsa...O que posso dizer é que realmente me senti jesus na cruz na maca com os braços abertos e presos e muiiiiito insegura...na verdade se pudesse ter escolhido na época escolheria ter a Beatriz por parto normal e concordo que realmente ter o bebê de cesária deixa mãe e filho instáveis, inseguros, pra não dizer apavorados...Parabéns por toda essa consciência e muita Luz pra vocês, e obrigada por todo esse esclarecimento o mundo as pessoas nós precisamos disso informação.Beijos! Mara
12/01/2009 às 00:00Cabelo. - diz:Olá Bianca!Caramba! Que linda essa história, de marejar os olhos mesmo, coisa de avô, né? Quando foi que deixamos de dar valor para essas coisas? Tenho 30 anos e uma filhinha que assim como o seu transformou totalmente minha forma de enxergar as coisas. Vamo que vamo! Aprender tudo de novo! Do jeito certo desta vez.Também tenho um blog, o igualvoce.wordpress.com, passa lá.Valeu!