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Ciência e altruísmo na visão do monge budista Matthieu Ricard Suzana Camargo - 20/05/2015 às 19:03

ciencia-altruismo-visao-monge-budista-matthieu-ricard-560Ele poderia estar meditando de frente para a belíssima Cordilheira do Himalaia, no templo onde vive no Nepal. Enviando suas energias de bondade, benevolência e amor para o mundo. Dedicando-se à vida de meditação e desapego que decidiu abraçar, ainda jovem, depois de terminar o doutorado em genética celular em Paris.

Mas não. Mantendo seus hábitos simples – característicos daqueles que renunciam aos bens materiais  – Matthieu Ricard tem viajado o mundo todo espalhando seu conhecimento sobre altruísmo e meditação*. Foi assim ontem (19/05) também, diante de uma plateia lotada com profissionais e estudantes de medicina, no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. À tarde, ele conheceu o trabalho da equipe de médicos do Instituto do Cérebro do hospital, onde são incentivadas práticas de meditação para a recuperação de pacientes, com bons resultados.

Esta é a segunda visita do monge ao Brasil. Autor de diversas obras, entre elas o bestseller “O monge e o filósofo” – no qual conversa com seu pai ateu, o filósofo Jean-François Revel, autor dos discursos de François Mitterrand -, Matthieu está no país para o lançamento de seu novo livro, A Revolução do Altruísmo, traduzido aqui com o selo da Associação Palas Athena.

Em São Paulo, o monge já fez seminário na sede da Palas Athena e palestra no Auditório da Editora Abril, promovida pelo Planeta Sustentável, quando falou sobre “Altruísmo e desafio ambiental“.

Há mais de uma década, o monge budista está envolvido com pesquisas científicas sobre os efeitos da meditação sobre o cérebro. Os estudos estão sendo realizados por renomadas universidades americanas – Princeton, Berkeley e Wisconsin. Matthieu e alguns colegas do templo passaram por uma bateria de exames de ressonância magnética, assim como outras pessoas, iniciantes na prática da meditação. O que as imagens dos testes revelaram é surpreendente: durante o período de meditação, diversas áreas do cérebro ligadas à felicidade e bem-estar são ativadas, principalmente quando o foco do pensamento é altruísmo, compaixão e empatia. Foi por este resultado que o monge vem sendo chamado de o homem mais feliz do mundo 

O que o monge tibetano defende é que amor e bondade são inerentes ao ser humano. Ele não concorda com filósofos ocidentais que afirmam que o homem é naturalmente egoísta. “Quem não deseja felicidade ao outro?”, perguntou à plateia presente na palestra do Einstein. Para ele, não há razão para acreditar que o egoísmo faz parte da alma humana. “Não existe nenhum estudo científico que comprove esta hipótese”.

Sua explicação é que outros sentimentos destrutivos como raiva, ressentimento e inveja, por exemplo, acabariam minando o bem nas pessoas. Mas a bondade sempre estará lá, será a base de todos os instintos. Como explicar, então, atos heróicos de gente que salva a vida de desconhecidos? O monge mostrou vídeos em que pessoas comuns arriscam a própria vida para ajudar o próximo em situações de perigo. “É um grande erro pensarmos que a humanidade possui uma índole ruim”, disse. “O homem tem grande alegria em cooperar e dar a mão ao outro”.

De acordo com Matthieu, a própria Teoria da Evolução de Charles Darwin foi mal interpretada. A luta pela sobrevivência não seria um combate entre os mais fracos e fortes, mas sim, uma cooperação entre estes extremos.

Para muitos cientistas se torna realmente difícil acreditar em algo que a lógica não consegue explicar. Todavia, para o monge, parece estranho pensar que justamente na área da medicina é preciso provar os benefícios do altruísmo, afinal o compromisso de qualquer médico é fazer o bem e restabelecer a saúde do paciente.

A meditação, então, seria extremamente benéfica nos tratamentos hospitalares. Ao treinar a mente para pensamentos em amor, compaixão e bondade, médicos e pacientes teriam ganhos não somente em seus cérebros – como já provaram os estudos americanos -, mas na saúde como um todo. “Pessoas que meditam têm mais empatia, ou seja, conseguem ter maior consciência sobre o sofrimento do outro”, explicou o monge.

Ao final da palestra no Hospital Albert Einstein, houve um pedido para que Matthieu Ricard ensinasse a plateia a meditar de forma altruísta. O monge então pediu que todos pensassem em alguém conhecido a quem gostariam de enviar muito amor. Após este momento, ele sugeriu que as pessoas se concentrassem em outros – necessitados, que precisassem de ajuda.

Foram momentos de silêncio e muita paz. Uma comunhão entre o monge e os médicos. Entre a ciência e o transcendental. Entre a lógica e o altruísmo.

ALTRUÍSMO, COMPAIXÃO E EMPATIA
Entenda a diferença entre os conceitos, segundo Matthieu Ricard

- altruísmo – sentimento de motivação, interesse e consideração pelo outro, mas que necessariamente engloba ação
- empatia - consciência do sofrimento alheio
- compaixão – desejo de ajudar

*Matthieu Ricard também é fundador da organização Karuna-Shechen, que leva saúde, educação e ajuda humanitária para 90 mil pessoas necessitadas na Índia, Nepal e Tibete. Só na Índia, 36 mil pacientes são atendidos por ano pelos centro médico e clínica móvel da entidade.

Foto: divulgação Karuna-Shechen

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Altruísmo é a chave para um futuro mais justo e sustentável, diz o monge budista Matthieu Ricard Suzana Camargo - 18/05/2015 às 19:30

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“Por que deveríamos nos importar com o que acontecerá com o planeta daqui a 100 anos, se não estaremos mais aqui?”, pergunta Matthieu Ricard. Não são poucas as pessoas que pensam desta maneira. Elas foram criadas a partir da lógica do egoísmo e individualismo, que nortearam a mentalidade da sociedade de consumo contemporâneo. Mas o que estas pessoas esquecem é que as futuras gerações devem ter o mesmo direito que as atuais. “O que estamos fazendo agora irá impactar milhões e milhões de pessoas que nem existem ainda. O direito à reciprocidade precisa ser respeitado – entre nós e as futuras gerações, entre nós e as milhões de espécies que habitam a Terra”.

Foi desta maneira que Matthieu iniciou sua palestra hoje (18/05) pela manhã, no auditório da Editora Abril, em São Paulo. O monge tibetano está no Brasil  para lançar seu novo livro, A Revolução do Altruísmo, pela Associação Palas Athena, com apoio do Planeta Sustentável e do Hospital Albert Einstein.

Altruísmo e desafio ambiental” foi o tema da conversa, diante de uma plateia lotada.  Especialista em biologia molecular, o francês com doutorado no renomado Instituto Pasteur, deixou Paris para se dedicar ao mundo da meditação. Foi considerado o homem mais feliz do mundo por cientistas, depois de ter passado por diversos testes de mapeamento do cérebro. Hoje, mora no Nepal e se dedica aos projetos humanitários realizados por sua fundação: Karuna-Shechen. Além de ser um super fotógrafo, com livros publicados e exposições realizadas na capital da França, ainda é colaborador da revista National Geographic.

Ao falar sobre meio ambiente, Matthieu Ricard afirmou como a humanidade foi pega de surpresa pelo impacto que vem causando ao planeta. “Estamos à beira de um abismo”, comparou. Entre os anos 1950 e 2000, a intensa atividade humana acelerou a degradação do mundo onde vive: houve uma perda colossal da biodiversidade, uso abusivo da terra e da água, aumento da acidificação dos oceanos.

Este impacto extremamente prejudicial para a natureza foi provocado principalmente pelos países desenvolvidos. O americano, por exemplo, emite 200 vezes mais dióxido de carbono na atmosfera do que um morador da Tanzânia. Ao mostrar um mapa com o maior número de fatalidades do mundo, fica claro ver quem são os que mais sofrem.  “As mudanças climáticas matam os mais vulneráveis. É a chamada injustiça climática, disse.

Matthieu apresentou dados sobre os efeitos arrasadores que o aquecimento global poderá trazer para a vida da população destes países. O degelo do Himalaia – que ele tem acompanhado – levará inundação para centenas de vilarejos da região. Haverá o crescimento de casos de doenças infecciosas, como a malária, por exemplo. “Mesmo que a temperatura global só aumente 2oC, o planeta ficará irreconhecível”.

Então como seria possível mudar este cenário tão desolador? Para ele, o altruísmo é a resposta. O ser humano precisa ser estimulado a agir com mais empatia, benevolência e cooperação. O monge tibetano defende que haja uma revolução – que se articule uma mudança social e institucional para levar as pessoas a serem mais altruístas. “É essencial ter mais consideração pelo outro”.

E não é só. Matthieu Ricard prega que o altruísmo permeie também a economia. Sim, ele acredita que isso é possível. É o que ele chama de caring economics (economia que se importa, em tradução livre). O monge cita exemplos de empresas bem sucedidas que estimulam a cooperação e não a competitividade. “A evolução da humanidade está baseada na cooperação”, afirma.

Na área da educação, diversos experimentos internacionais também apontam que crianças pequenas que são incentivadas a agir de maneira altruísta e cooperativa melhoram seu comportamento e se tornam mais pró-ativas socialmente.

Questionado por um espectador da palestra sobre o papel da mídia nesta nova revolução, o monge destacou que é necessário ressaltar nos noticiários e manchetes a esperança e a capacidade das pessoas em fazer o bem. E como estimular o altruísmo no  mundo dos negócios, perguntou outra pessoa? “Estudos comprovam que empresas com ambientes de trabalho mais felizes são mais bem sucedidas”, respondeu.

Ao final da manhã,  Matthieu Ricard enumerou cinco pontos que seriam a base da revolução que tornaria o mundo um lugar mais sustentável:
- aumento da cooperação;
- harmonia sustentável (buscando acabar com a desigualdade social e mudando a mentalidade do consumismo excessivo; este é o título de um dos capítulos do novo livro);
- caring economics;
- comprometimento local, responsabilidade global e;
- disseminação do altruísmo  para todos os seres do planeta.

Indagado sobre como enfrentar a paralisia e a alienação das pessoas ao mundo real, o monge respondeu sorridente: “Be Good! Do good!” Seja bom e faça o bem!

altruismo-chave-futuro-sustentavel-diz-monge-budista-matthieu-ricard-plateia-560 Matthieu Ricard diante da plateia lotada no Auditório da Editora Abril

altruismo-chave-futuro-sustentavel-diz-monge-budista-matthieu-ricard-geral-560“O direito à reciprocidade precisa ser respeitado”, defende o monge budista.

Assista abaixo a palestra completa de Matthieu Ricard, que teve transmissão ao vivo pelo Planeta Sustentável:

Fotos: Fellipe Abreu

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Somos todos iguais: a luta pela diversidade e contra o preconceito Suzana Camargo - 15/04/2015 às 14:58

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“Eu tenho um sonho que um dia meus filhos irão viver numa nação onde eles não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter”.

A frase, que faz parte de um dos textos mais famosos da história – não somente a americana, mas a mundial – foi dita pelo reverendo e ativista negro Martin Luther King, durante seu discurso “I have a dream”, em 1963, em Washington D.C., capital dos Estados Unidos, diante de uma plateia enorme de pessoas, que lutavam pelos direitos raciais.

Se Martin Luther King não tivesse sido assassinado e ainda estivesse vivo, ele veria um país bem diferente nos dias de hoje. Menos de 50 anos depois de seu inesquecível discurso, os Estados Unidos elegeram seu primeiro presidente negro, que se chama Barack Hussein Obama. Filho de um queniano com uma americana, formou-se em Direito na mais prestigiada universidade daquele país: Harvard.

Assim como Obama, o americano Raphaël Sambou acredita que muito de seu sucesso pessoal e profissional se deve a Luther King. Foi o diplomata quem relembrou a história acima. “Eu não estaria aqui hoje se não fosse por ele e outros tantos ativistas americanos”, disse.

Sambou foi um dos convidados a participar da 12ª Semana Martin Luther King, promovida pela Associação Palas Athena, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Com apoio institucional da Unesco e do Consulado Geral dos Estados Unidos, o encontro teve dois temas “Diversidade nos Estados Unidos – Uma Perspectiva Atual” e “Linha de Montagem do Preconceito – Reprodução de Uma Mentira”.

Para a  primeira rodada de conversa, além de Raphaël Sambou, outro diplomata do Consulado Americano, Christopher Johnson também deu seu depoimento. Já sobre preconceito, falaram Alexandra Loras, consulesa da França em São Paulo, Renato Janine Ribeiro, ministro da Educação e Thiago Tobias, representante da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) do Ministério da Educação.

Logo no início do evento, Raphaël Sambou contou sobre sua trajetória e os avanços que a comunidade negra conquistou em seu país. Apesar da abolição da escravatura ter sido proclamada em 1863 nos Estados Unidos, apenas cem anos depois os negros ganharam direito ao voto. “Mas hoje, além de Barack Obama, temos muitos negros à frente de grandes multinacionais também”, afirmou. “Já percorremos um longo caminho, entretanto, temos muito ainda a vencer. A marcha de Selma não terminou”, referindo-se à caminhada histórica de manifestantes no Alabama, estado onde aconteceram confrontos trágicos por causa do racismo.

O diplomata americano destacou que o preconceito contra os negros persiste nos Estados Unidos. Recentemente, jovens foram assassinados no país por policiais –claramente por causa da cor de sua pele. Nas prisões americanas, 1,7 milhão de detentos são negros.

somos-todos-iguais-luta-diversidade-contra-preconceito-diplomatas-560Raphael Sambou e Christopher Johnson falaram sobre racismo e preconceito nos Estados Unidos

Filho de uma imigrante da Nicarágua e pai caribenho, o diplomata negro Christopher Johnson contou que sofreu muito preconceito mesmo dentro de sua comunidade. Por não ter a pele tão negra, era visto como “mais branco do que os outros”. “A imagem do americano africano em meu país ainda é negativa”, acredita.

É justamente como é passada a imagem dos negros, não somente nos Estados Unidos, como em todo mundo – mesmo aqui no Brasil e sobretudo na França – que Alexandra Loras se tornou uma ativista e palestrante sobre o assunto. “Por gerações e gerações fomos condicionados a pensar que homens eram superiores às mulheres, assim como negros eram inferiores aos brancos”.

A consulesa mostrou um vídeo chocante, realizado na década de 50, em que crianças americanas eram confrontadas com bonecas negras e brancas e questionadas quais eram boas ou más. “Imaginem um mundo em que todos os inventores, filósofos e artistas fossem negros. E nas páginas dos livros, só aparecessem duas páginas de seus ancestrais – brancos – que haviam sido escravizados”, disse.

somos-todos-iguais-luta-diversidade-contra-preconceito-alexandra-loras-560Alexandra Loras acredita que a história dos negros precisa ser recontada

Ao comparar a quantidade de escravos trazida para o Brasil com a daqueles levados aos Estados Unidos, Alexandra falou que em nosso país, o número foi muito maior. Todavia, eles se transformaram numa massa invisível. Ela defende que a imagem do negro deva ser trabalhada de maneira diferente nos livros didáticos e nomes como Teodoro Sampaio, Machado de Assis ou André Rebouças – todos negros – sejam mais valorizados. É hora de parar de buscar culpados. “Precisamos contar coisas positivas, melhorar a autoestima. Não são brancos contra negros, somos todos iguais”.

Filósofo e professor de Ética e Filosofia Política da USP, o ministro da Educação Renato Janine Ribeiro falou sobre tolerância. Segundo ele, temos que aprender com os outros, mesmo que pensemos de forma diferente. Como único branco do debate, como se intitulou, o ministro afirmou que os brancos não são culpados pelo preconceito, mas são responsáveis.

“A maior vergonha é sermos indiferentes ao racismo e ao preconceito”, ressalta Ribeiro. Ele citou Charles Darwin, que ao deixar o Brasil, teria dito que nunca mais queria pisar num país onde houvesse escravidão.

somos-todos-iguais-luta-diversidade-contra-preconceito-ministro-educacao-560“A maior vergonha  é sermos indiferentes ao preconceito”, afirmou o ministro da Educação Renato Janine Ribeiro

Convidado pelo ministro, Thiago Tobias explicou como é o trabalho da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do governo. O órgão busca integrar ao ensino do país as minorias – negros, mulheres,  indígenas. “Somente o encontro entre inclusão, tolerância e ética vai conseguir superar as desigualdades no Brasil”.

Uma das principais lições que ficou da noite que discutiu diversidade e preconceito veio da francesa Alexandra Loras. Depois de uma infância difícil, em que sofreu muito com o racismo, hoje a mulher linda e bem-sucedida – orgulhosa da cor de sua pele – prega que “o passado não pode definir nosso futuro”.

Ela é certamente um exemplo disso. E é nosso dever fazer com que todos tenham oportunidades iguais e nossa sociedade seja tolerante e aberta à diversidade.

Leia também:
Quem foi Martin Luther King?
Martin Luther King: 50 anos depois
O amor (de verdade) não tem idade, cor, credo, gênero …
O preconceito está em nós

Fotos: United Nations Photo (abertura) e Luiz Henrique Goes

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