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O dia em que a internet parou Thiago Carrapatoso - 23/01/2012 às 19:12
Foi a maior manifestação online do mundo. 10 milhões de assinaturas, mais de 3 milhões de e-mails enviados aos governantes, mais de 115 mil sites participando do protesto. Esses números são demonstrativos do dia em que a internet parou. Tudo por causa de leis estapafúrdias que tentam controlar algo incontrolável. Graças à movimentação, os projetos de lei SOPA (Stop Online Piracy Act) e PIPA (Protect IP Act), que eu já comentei aqui, perdem cada vez mais força no Senado norteamericano. Só que ainda não é o fim.
Durante a semana, a polícia federal dos EUA resolveu fechar um dos sites mais famosos de disponibilização e compartilhamento de arquivos, o MegaUpload. A grande questão, porém, é que o serviço é baseado em Hong Kong, e não no país que ordenou seu fechamento e a prisão de seus diretores. A justiça estadunidense pegou como brecha para a ordem o fato de que alguns servidores do serviço estarem sediados em solo norteamericano. As acusações de lavagem de dinheiro e violações de copyright contra a empresa chegam ao montante de US$ 175 milhões em danos desde sua criação em 2005. E outro problema é que o conteúdo listado e hospedado no site não é criado pelos donos da companhia, mas sim pelos usuários.
Ao dar andamento a este tipo de acusação, a justiça dos EUA lança uma bandeira de ir contra o compartilhamento de arquivos, e não mais contra apenas à pirataria ou ao conteúdo ilegal. O site, embora tenha hospedado diversos filmes e músicas para download sem autorização, também era um veículo usado para compartilhar produções independentes e arquivos liberados dos direitos de autor. Fechar o site demonstra até que leis como o SOPA e PIPA só oficializaria o que já se faz atualmente. Então, o que fazer?
Foi nesse momento que entrou um dos maiores movimentos de contra-ataque já vistos na internet mundial. Mais uma vez o grupo Anonymous (que há uns meses tomou as manchetes dos jornais ao protestar contra o embargo das companhias bancárias ao Wikileaks) retirou diversos sites que representam a ação contra o MegaUpload: departamento de justiça norteamericano, associação de empresas de animação, Universal Music, federação anti-pirataria belga, RIAA, FBI, lei francesa HADOPI, site sobre o copyright, entre vários outros (a lista está aqui). Todos foram tirados do ar em protesto à prisão dos funcionários e ao fechamento do serviço do site de compartilhamento.
Só por eles terem conseguido tirar do ar sites como o da justiça e da polícia federal norteamericanas já demonstra a força que o grupo tem. E é uma força até então nunca vista na história. Em uma semana, graças a manifestações online, duas leis restritivas podem ser barradas e o caso de um site pôde ser conhecido pelo mundo inteiro. O mundo online está ficando cada vez mais presente no offline, definindo e sendo ouvido como um meio legítimo e forte para protestos.
Vale ler a carta-protesto que o Pirate Bay publicou sobre as propostas SOPA e PIPA que segue abaixo (traduzida pelo caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo):
INTERNETS, 18 de janeiro de 2012
Há mais de um século, Thomas Edison conseguiu a patente para um aparelho que faria “para o olho o que o fonógrafo fez para o ouvido”. Ele o chamou de cinetoscópio [Kinetoscope]. Edison não foi apenas o primeiro a gravar vídeo, mas foi também a primeira pessoa a ser dono do copyright de um filme cinematográfico.Por causa das patentes de Edison para filmes cinematográficos, quase foi financeiramente impossível criar filmes de cinema na costa oeste norte-americana. Os estúdios de cinema, assim, mudaram para a Califórnia e fundaram o que hoje chamamos de Hollywood. A principal razão é que ali não haviam patentes.
Não havia também nada de copyright, então os estúdios podiam copiar velhas histórias e fazer filmes a partir delas – como Fantasia, um dos maiores hits da história da Disney.
Portanto, toda a base dessa indústria, que está hoje aos gritos sobre perda de controle sobre direitos não-materiais, é que eles driblaram direitos não-materiais. Eles copiaram (ou, de acordo com sua terminologia,”roubaram”) as obras criativas de outras pessoas sem pagar por isso. Eles o fizeram para obter grandes lucros. Hoje, eles são todos bem-sucedidos e a maior parte dos estúdios está na lista da Fortune das 500 empresas mais ricas do mundo. Parabéns – está tudo baseado em ser capaz de reutilizar criações de outras pessoas. E hoje eles detém os direitos das criações de outras pessoas. Se você quer lançar alguma coisa, você tem que seguir as regras deles. As regras que eles criaram depois de driblar as regras de outras pessoas.
A razão pela qual eles estão sempre reclamando dos “piratas” hoje é simples. Nós fizemos o que eles fizeram. Nós driblamos as regras que eles criaram e criamos as nossas próprias. Nós esmagamos o seu monopólio ao dar às pessoas algo mais eficiente. Nós permitimos que as pessoas tenham comunicação direta entre si, driblando o intermediário lucrativo, que em alguns casos levar mais que 107% dos lucros (sim, você paga para trabalhar para eles).
Tudo se baseia no fato de que representamos competição.
Provamos que a forma atual como existem não é mais necessária. Somos simplesmente do que eles são.
E a parte engraçada é que as nossas regras são muito similares às ideias que fundaram os EUA. Lutamos pela liberdade de expressão. Enxergamos as pessoas como iguais. Acreditamos que o público, não a elite, deveria governar a nação. Acreditamos que leis deveriam ser criadas para servir o público, não corporações ricas.
O Pirate Bay é uma comunidade verdadeiramente internacional. Nossa equipe está espalhada por todo o globo – mas ficamos fora dos EUA. Temos raízes suecas e um amigo sueco nos disse isso:
A palavra SOPA significa “lixo” em sueco. A palavra PIPA significa “um cano” em sueco. É claro que isso não é coincidência. Eles querem tornar a internet um cano de mão única. Eles por cima empurrando lixo cano abaixo para o resto de nós, consumidores obedientes.
A opinião pública nesse assunto é clara. Pergunte a qualquer um na rua e você vai descobrir que ninguém quer ser alimentado com lixo. Por que o governo americano quer que o povo americano seja alimentado com lixo foge à nossa compreensão, mas esperamos que você o impeça, antes que afoguemos todos.
A Sopa não pode fazer nada para brecar o Pirate Bay. Na pior das hipóteses, mudaremos o domínio principal: do atual .org para uma das centenas de nomes que também já usamos. Em países onde estamos bloqueados (os nomes China e Arábia Saudita são os primeiros que vêm à cabeça), eles bloqueiam centenas de nomes de domínios nossos. E adianta? Não muito.
Para consertar o “problema da pirataria” deveria se ir à raiz do problema. A indústria do entretenimento diz que eles estão criando “cultura”, mas o que eles realmente fazem é vender coisas como bonecas caríssimas e fazer meninas de 11 anos se tornar anoréxicas. Seja de trabalhar nas fábricas que criam as bonecas por praticamente salário nenhum, seja por assistir filmes e programas de TV que as fazem pensar que são gordas.
No grande jogo de computador de Sid Meiers, Civilization, você pode construir maravilhas do mundo. Um dos mais poderosos é Hollywood. Com ele, você controla toda a cultura e mídia do mundo. Rupert Murdoch ficou feliz com MySpace e não via problemas com sua própria pirataria até seu fracasso. Agora ele reclama que o Google é a maior fonte de pirataria do mundo — porque ele está com ciúmes. Ele deseja manter seu controle mental sobre as pessoas e está claro que você consegue um visão mais honesta das coisas na Wikipedia e no Google do que na Fox News.
Alguns dos fatos (anos, datas) nesse texto estão provavelmente erradas. O motivo é que não podemos acessar essas informações quando a Wikipedia está fora do ar. Por causa da pressão de nossos rivais decadentes. Pedimos desculpas por isso.
—THE PIRATE BAY, (K)2012
ver este postcomente
24/01/2012 às 14:11 Cesário Simões - diz:
A indústria da mídia (Hollywood) pirateou contos de Grimm, Andersen, e outros. Patrimônio imaterial da Alemanha, Dinamarca, etc.
Branca de Neve – http://pt.wikipedia.org/wiki/Branca_de_Neve – Schneewittchen) conto de fadas originário da tradição oral alemã, foi compilado pelos Irmãos Grimm.
A Sereiazinha – http://pt.wikipedia.org/wiki/A_sereiazinha – Conto de Hans Christian Andersen sobre jovem sereia disposta a dar sua vida pelo amor de um humano.
Aladim – http://pt.wikipedia.org/wiki/Aladin – É um dos mais famosos da coletânea árabe As Mil e Uma Noites. Patrimônio imaterial da cultura árabe.
Piratas não querem ser pirateados!?
31/01/2012 às 15:39 As mais curtidas do Facebook, de 24 a 30/01 - Blog da Redação - diz:
[...] 1) O dia em que a internet parou [...]
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Thiago Carrapatoso é diretor-presidente da organização sem fins lucrativos Veredas, que trabalha com tecnologias para fins sociais e é uma das instituições que fundaram a Casa de Cultura Digital. É jornalista e especialista em Comunicação, Arte e Tecnologia. Acredita no potencial do digital para modificar as estruturas da sociedade e melhorar o mundo em que vivemos. Deixa seus rastros pelo delicious, twitter e no blog coletivo Trezentos. Aqui, conta um pouco sobre iniciativas tecnológicas que questionam e mudam o que conhecemos.
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