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Jornalismo hiperlocal para o seu bairro Thiago Carrapatoso - 20/02/2012 às 15:45
Na eterna busca para achar um lugar para morar por aqui (parece que isso nunca acaba e já me mudei três vezes em sete meses), caí, não mais que de repente, em um bairro chamado Fort Greene. Em pouco tempo, andando por suas ruas, fiquei apaixonado e intrigado pela região. É uma das poucas regiões de Nova York em que a gentrificação (retirada das classes mais baixas pelas mais altas, por meio de reformas estruturais e especulação imobiliária) não é sinômino de segregação racial. Negros, brancos, imigrantes, latinos e outros tantos tipos de pessoas frequentam e moram no mesmo local, em aparente harmonia.
Pesquisando sobre a região, descobri que Fort Greene é a segunda área coberta pelo projeto de jornalismo local do The New York Times, o The Local. Em parceria com a universidade de jornalismo CUNY (The City Universtiy of New York), o site cobre os acontecimentos apenas daquele bairro, em um jornalismo hiperlocal. No blog, pode-se ver performances de artistas que acontecem no parque que dá nome ao bairro histórico; perfis de moradores considerados interessantes, como o produtor de música “afro-punk” e a estilista que ganhou um reality show de moda; e até a seleção do cachorro do dia (nhóm!).
As reportagens e o conteúdo são feitos tanto pelos alunos da universidade, quanto por moradores e colaboradores da região. É o jornalismo colaborativo (ou cidadão, para usar a expressão) como meio para engajar as pessoas na comunidade. Esse tipo de cobertura é um belo jeito para melhorar a noção de, realmente, pertencer a um determinado lugar – e não apenas considerar os bairros como locais para dormir e/ou guardar os objetos pessoais. Há a história, vizinhos, notícias e eventos que podem fazer com que se tenha uma vida mais social e menos corrida. O engajamento pode até melhorar a qualidade de vida, pois amplia as atuações das pessoas e faz com que, inclusive, os vizinhos se conheçam e compartilhem informações.
As ferramentas digitais trouxeram o conteúdo local de volta à tona pela facilidade de que, agora, qualquer um pode cobrir o bairro que mora. Se antes era necessário um jornal (que depende de arte, diagramação, impressão e distribuição), hoje se pode relatar o que acontece na rua diretamente de casa e postando em um blog.
A Knight Foundation, uma das maiores fundações que financiam projetos pioneiros de jornalismo e engajamento cívico, por exemplo, já ajudou diversas iniciativas, como o Community PlanIT (que traz a sociedade civil para decisões estruturais) ou o Center for Collaborative Journalism (Centro de jornalismo colaborativo, em tradução livre e que é auto-explicativo).
Que tal começar a relatar o que acontece em seu bairro?
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O caminho digital de NY Thiago Carrapatoso - 13/02/2012 às 21:12
As cidades digitais não são apenas lugares utópicos em que tudo parece funcionar mecânica e automaticamente. Elas são estruturas e políticas públicas que facilitam a vida do cidadão comum, diminuindo a burocracia e ampliando a participação política. E engana-se quem acredita que essa discussão é apenas virtual.
Se sua cidade colocar serviços burocráticos simples em sua página na internet, o cidadão não só economiza tempo (já que não precisaria sair de casa para resolver aquele pepino), como também financeiramente (pois, como disse, não precisará sair de casa e economizará o dinheiro do transporte, estadia, alimentação e tudo o mais). Sem precisar ir a um determinado local para resolver o problema, serão menores as filas, o tráfego na região e até o espaço destinado para o arquivamento dos documentos em forma física (se resolvido virtualmente é mais fácil deixar hospedado em bancos de dados na rede).
A cidade de Nova York, por exemplo, publicou em 2010 um guia sobre seu planos para tornar a maior metrópole do mundo em referência no uso das tecnologias em espaços públicos. E, para se ter uma ideia, os esforços para disponibilizar e abrir os dados dos 350 departamentos da prefeitura geraram e atraíram mais de US$ 6 milhões em investimentos do setor privado, isso por causa de aplicativos para celular, sites e start-ups que surgiram graças à abertura.
O governo da cidade separou a ação para torná-la mais digital em quatro pilares: acesso à tecnologia, governo aberto, engajamento e indústria.
Para possibilitar um serviço digital de qualidade, todos os cidadãos devem poder acessar à internet e usufruir a ferramenta. A prefeitura quer investir para que cada vez mais espaços públicos, como parques, praças e até estações de metrô, tenham conexão à internet. O Bryant Park é um grande exemplo de conectividade em áreas abertas, provendo internet gratuita ao público desde 2001 (até comentei rapidamente sobre ele aqui).
Desde 2010, muitas discussões sobre governo aberto têm acontecido por aqui, inclusive tendo o Brasil como pioneiro e abrindo espaço para que a transparência de órgãos públicos seja uma realidade. E, além de dados e tudo o mais, é importante abrir a comunicação com o público, promovendo canais para que qualquer um possa ser atendido. Nova York estima que cerca de 24 milhões de usuários frequentam seu site por ano. O tumblr, com notícias rápidas e constantes sobre a parte digital do governo, facilita ainda mais a divulgação e dá avisos importantes, como aconteceu quando o furacão Irene atingiu a costa oeste dos Estados Unidos. Além disso, é importante ressaltar que todos os dados disponibilizados pela prefeitura estão com a API aberta, ou seja, qualquer desenvolvedor pode reutilizar de uma outra forma.
E quanto mais pessoas envolvidas em todo o processo, mais resultados se têm. Os “hackatons” foram organizados para que funcionários, desenvolvedores e curiosos se reunam, discutam e produzam em cima dos dados disponíveis. Neles, se propôs um redesenho do site atual da prefeitura, um serviço de busca de ocorrências baseado no CEP do morador e um serviço de perguntas direto ao governo. Ao todo, são mais de 250 canais em mídias sociais para o cidadão interagir com as autoridades, gerando aproximadamente 1,5 milhão de seguidores.
Por último, há a preocupação de expandir ainda mais o número de startups que utiliza as informações abertas como modelo de negócio. Para se ter uma ideia, o prefeito Michael Bloomberg até ampliou as formas de imigrar as startups para a cidade, além de criar um campus apenas para engenheiros em parceria com a New York Economic Development Corporation. Há diversas parcerias também para que não se precise criar serviços do zero e se estimule com que serviços populares possam também servir de canal de comunicação com o governo, como o Twitter, tumblr, Foursquare e Facebook.
No Brasil, há vários experimentos e projetos para viabilizar com que as cidades digitais sejam uma realidade, como o Plano Nacional de Banda Larga e a Lei de Acesso à Informação. Mas o mais importante é ressaltar que essas mudanças não são apenas no plano virtual, mas também influem na relação entre os cidadãos e a sua cidade, na parte física. Quanto mais fácil for para o cidadão resolver a burocracia com o governo ou ter voz para reclamar e apontar defeitos, mais bem resolvida será sua relação com a cidade e melhor será o convívio nela – ou seja, no fim, isso reverte em qualidade de vida diretamente. Eu gosto de chamar isso de “urbanismo tecnológico”, que é como pensar nas estruturas da cidade com o viés digital e da tecnologia.
Em breve, assim como acontece em Nova York, todas as cidades terão alguém para pensar nessa estrutura digital, até isso estar inserido na sociedade de forma orgânica e todos já considerarem isso como algo essencial, assim como se pensa em mesas e cadeiras para se trabalhar.
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Qual será o futuro da escrita? Thiago Carrapatoso - 06/02/2012 às 23:04
Várias notícias recentes têm me instigado a fazer algo contra políticas públicas cada vez mais controversas. Eu, que nasci e cresci em São Paulo, tenho uma predileção por problemas urbanos, como o caso das drogas no centro da cidade, desocupação de moradias consideradas ilegais e mobilidade. Esses temas mexem bastante comigo. Só que eu tenho um problema: o que fazer quando o problema está a mais de 7 mil quilômetros de distância?
Daí, o primeiro ato que se pensa é postar meus argumentos sobre o que considero ser legal na minha página no Facebook, a rede social que agora já até passou o Orkut no Brasil no número de integrantes, pois lá posso atingir várias pessoas ao mesmo tempo sobre o meu ponto de vista. Fico, então, empenhado em postar análises, vídeos, comentários e todos os tipos de mídia e conteúdo possíveis para embasar o argumento que determinado ato é ilegal, imoral, higienista e todos os achismos possíveis e imagináveis. Na minha cabeça, estou sendo escutado pelos cerca de 750 amigos que tenho – mais uns 10 que se inscreveram à minha página. A verdade, porém, é que tudo o que eu falo deve ser lido por 5, 6 pessoas, no máximo, tudo por causa dos vários filtros automáticos que a rede social aplica nos perfis das pessoas.
Decido ir para uma outra tática, postando no twitter, outra rede que me conecta com muitas pessoas ao mesmo tempo. Da mesma forma que no Facebook, me aplico a postar análises, vídeos, comentários e todos os tipos de mídia e conteúdo possíveis, mas dessa vez em apenas 140 caracteres, incluindo os links. O trabalho é mais árduo ainda, mas, teoricamente, eu atingiria um público maior, já que tenho um pouco mais de seguidores do que na outra rede. A verdade, porém e mais uma vez, é que o que eu falo deve ser lido por 5, 6 pessoas, no máximo, tudo por causa da quantidade de informações que os outros usuários também postam. Ou seja, seu conteúdo entra na luta – e na fé – de que seja lido naquele momento por todos os seus seguidores.
Tudo isso me deixa pensando em como eu poderia atingir o maior número de pessoas sobre problemas ou reflexões gerais. Eu tenho uma facilidade maior de escrever textos, longos, confusos, que seguem a lógica do meu pensamento. Só que, principalmente por seguirem a lógica do meu pensamento, eles não são muito lidos ou compartilhados (até gosto de fazer mais experimentações ainda por aqui).
Nesse processo, lembrei de alguns livros e frases que li há uns tempos. O filósofo Pierre Levy, em seu livro “A inteligência coletiva”, sentecia que estamos em direção à “superlíngua”, ou seja, uma língua que não é apenas escrita, focada em idiomas e separadas por comunidades, mas que usa imagens para atingir um público mais vasto por meio de ferramentas representacionais (até símbolos).
Lembrei também de outro filósofo, Vilém Flusser, que escreveu um livro questionando se a escrita teria futuro. Para ele, há uma diferença grande entre o texto e a imagem, que pode ser ilustrada pelo paralelo entre as linhas (escrita) e a superfície (imagem). As linhas só seriam entendíveis seguindo uma ordem específica, pois se precisa estruturar frases e parágrafos para transmitir uma ideia. A superfície, ao contrário, pode ser interpretada em qualquer ordem, de qualquer maneira, apenas olhando para a imagem. E, outra, a superfície poderia ter diversas mensagens em uma única imagem, e não apenas exatamente como as palavras dizem. É essa “facilidade” que colocaria em risco a escrita como forma de comunicação oficial.
Então, por que não experimentar o vídeo mais a fundo, como uma linguagem para se passar uma determinada mensagem? Foi a partir daí que comecei a fazer experimentos com câmeras amadoras de gravação para ver até que ponto produzir um vídeo seria tão ou mais trabalhoso do que um texto.
A primeira experimentação foi para dar atenção à espera nas grandes cidades. É uma mensagem simples, sem muitos questionamentos (por enquanto), e que faz parte de uma série.
E a segunda foi trazer o questionamento para dentro de casa.
Depois dessas duas experiências, percebi ainda que nem precisaria me preocupar com a captação (que pode envolver custos e disponibilidade para sair e gravar as imagens). Na verdade, eu poderia reaproveitar o material que já estava online e circulando por aí para representar as questões que me surgiam. Afinal, como diria Lavoisier, “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Então, vamos remixar!
O vídeo em homenagem ao aniversário de São Paulo, no fim, pareceu uma ferramenta muito mais eficaz para passar essa mensagem do que se eu tivesse escrito um texto. A aceptividade ao conteúdo foi muito maior (só nos dois primeiros dias, foram mais de 2.300 visualizações). E o processo é tão interessante quanto escolher a próxima palavra para compor a frase.
Será que as imagens poderão substituir o texto?
A imagem é um retrato de Glauber Rocha, para quem só bastava “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”.
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Thiago Carrapatoso é diretor-presidente da organização sem fins lucrativos Veredas, que trabalha com tecnologias para fins sociais e é uma das instituições que fundaram a Casa de Cultura Digital. É jornalista e especialista em Comunicação, Arte e Tecnologia. Acredita no potencial do digital para modificar as estruturas da sociedade e melhorar o mundo em que vivemos. Deixa seus rastros pelo delicious, twitter e no blog coletivo Trezentos. Aqui, conta um pouco sobre iniciativas tecnológicas que questionam e mudam o que conhecemos.
• Jornalismo hiperlocal para o seu bairro
• Qual será o futuro da escrita?
• O dia em que a internet parou
• Festival BaixoCentro: as ruas são para dançar
• TrashTrack: rastreando o seu lixo
• Educação e tecnologia para todos
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• Queremos Saber: acesso às informações públicas
• Libre Graphics Magazine: a cobertura da cultura livre
• Casa da Cultura Digital recebe doações para o Wikileaks
• CulturaDigital.BR: apropriação tecnológica brasileira
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• Não imprimir é realmente sustentável?
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• Tecnologia para além do mercado
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• Para prever o futuro do clima, veja o passado
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