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Fabricando novas paisagens Thiago Carrapatoso - 26/11/2012 às 01:00

Como eu disse lá no primeiro post, as paisagens estão em constante mudança. Seja por fenômenos da natureza ou pela ação do homem, o mundo ao nosso redor se modifica a cada segundo. E, agora, chegou a hora de esse blog mudar de paisagens.

Este é o último post do Paisagem Fabricada com este formato e hospedado no portal do Planeta Sustentável. Foram três anos mostrando iniciativas que modificam os códigos para provocar mudanças sociais. Informações que tentaram decifrar o que há por trás da rede, da tela, do computador, que poderia alterar a sociedade como percebemos.

Para esta última mensagem, deixo como exemplo a Constituição colaborativa da Islândia. Em vez de decidir os rumos do país por meio de políticos em prédios fechados e decisões arbitrárias, o governo permitiu com que os cidadãos opinassem na elaboração de uma nova Constituição por meio de Facebook e Twitter. Foram cerca de 117 mil pessoas colaborando para que a nova carta de diretrizes do país fosse composta.

A abertura do governo foi uma resposta à crise de 2008, em que o estado se viu afundado em dívidas com bancos provocadas, em grande parte, por causa da corrupção dos políticos. Já que eles não conseguiram livrar o país da crise, passaram o bastão para os cidadãos, que criaram uma Constituição que traz ao estado maior controle dos recursos naturais da região – e não mais deixa nas mãos das empresas exploradoras.

O país, agora, parece estar em uma situação econômica bem melhor. A Constituição, embora já criada (pode ser lida na tradução em inglês aqui), só será votada entre abril, maio de 2013. Mesmo assim, é um belo exemplo de como o cidadão comum pode mudar o rumo de uma nação inteira, fabricando novas paisagens para o futuro.

O trabalho deste blog continuará no domínio www.paisagemfabricada.com.br. Além de iniciativas que envolvam as tecnologias para fins sociais, ainda comentarei sobre outros processos que fabricam e programam novos mundos. Uma nova perspectiva.

Vejo vocês por lá! :)

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Uma cultura definida por algoritmos Thiago Carrapatoso - 19/11/2012 às 01:00

Virou moda sites que brincam com o autocorretor do celular. São diversas páginas simulando piadas com as sugestões que o aparelho dá na hora de digitar uma mensagem, como mostra o Damn You AutoCorrect. Mas os algoritmos por trás dessas funcionalidades causam muito mais do que piadas.

Um artigo no New York Times desse domingo, escrito por Evgeny Morozov, discute o quanto a nossa cultura pode ser moldada apenas por essas sugestões e trocas automáticas de palavras na rede. Para ilustrar, o autor cita o caso do livro da Naomi Wolf que teve a palavra “vagina” censurada pelo iBooks da Apple. Em vez da palavra completa, o serviço de compra de livros eletrônicos publicou o título como “V****a”. Parece uma troca boba, afinal é uma palavra totalmente aceitável e respeitosa na sociedade contemporânea, mas é um sinal de que o controle sobre a nossa língua fluente não está mais no uso e, sim, na seleção que as empresas fazem. No caso citado, leitores questionaram a decisão da Apple e pediram para publicar a palavra sem censura, mas quantos casos similares acontecem e não sabemos?

Outro exemplo que Morozov comenta é a censura que o Facebook impõe às imagens consideradas pornográficas ou ofensivas. A rede social possui um algoritmo que analisa as imagens publicadas e identifica possíveis situações, digamos, não pudicas. Dessa vez, o serviço tirou do ar uma tirinha em quadrinhos da revista norte-americana The New Yorker, que mostrava Adão e Eva (eles mesmos!) no Éden. O problema: mamilos. De acordo com a política da rede social, qualquer imagem contendo mamilos ou, ér, o famoso “cofrinho” será retirada do ar.

Por trás de atitudes como essas, há a criação de uma cultura de policiamento. Um usuário, por exemplo, que é censurado vários vezes por postar a foto de um bebê tomando banho pode passar a acreditar que, realmente, o conteúdo é ofensivo. A mesma situação pode ser aplicada ao nome do livro. Se for padrão a Apple trocar algumas palavras por asteriscos, editoras poderão evitar usar certas expressões para não ter que se preocupar, e assim, aos poucos, a decisão pode virar uma norma. A palavra original deixa de ser usada e a sugerida pela empresa vira padrão.

O mesmo se aplica ao autocorretor dos celulares. Se todas as vezes que se tentar digitar uma mesma palavra (como “merda”, “vagina”, ou qualquer outra) o algoritmo decidir trocar por uma nova, o usuário, conforme o uso, ficará propenso a já usar a alteração do que esperar o aparelho indicar a mudança. Essas palavras, então, poderão ser vistas como ofensivas ou cair no desuso.

E, como diz o artigo, se antes os gatekeepers (ou os selecionadores de conteúdo) eram os jornalistas, editores e formadores de opinião, hoje, há também o algoritmo para decidir e delinear a nossa cultura. E o mais problemático é que esses algoritmos têm seus códigos fechados, o que deixa as regras e os critérios de seleção apenas acessíveis às empresas que os criaram. Nós, os usuários, não temos como interferir. Fica-se, então, a mercê do que uma organização privada, muitas vezes de um outro país, decide como sendo o correto.

Mesmo com a possibilidade de se customizar a ferramenta (ou seja, acrescentar as palavras e “ensinar” o algoritmo o que deve ou não ser trocado), o acesso do usuário é muito limitado e exige bastante paciência.

No fim, fica a pergunta: quem define o que é o correto no autocorretor?

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A cura: uma medicina de dados abertos Thiago Carrapatoso - 12/11/2012 às 22:17

A licença compulsória de patentes realizada pelo governo brasileiro para fornecer tratamento contra os sintomas da AIDS é um exemplo de como a abertura de patentes e dados pode melhorar a saúde de milhões de pessoas. E o que aconteceria se os tratamentos de pacientes não ficassem restritos somente aos médicos e profissionais contatados, mas a qualquer um que tivesse interesse?

O italiano ativista de mídia Salvatore Iaconesi fez isso. Em setembro de 2012, durante testes de rotina, ele foi diagnosticado com um glioma, um tumor no sistema nervoso central. Quando pediu os dados dos exames para analisar e poder levar para outros médicos, reparou que todas as informações usavam formatos que exigiam programas complexos, caros e acessíveis apenas para os profissionais da área. Ou seja: pessoas com outras profissões praticamente ficavam impedidas de ter acesso aos dados que os exames traziam. Como, então, ele poderia confiar no que o médico dizia se nem ele poderia entender a sua própria condição?

Por causa disso, decodificou todos os exames e os publicou em formatos abertos, acessíveis por meio de programas mais populares para que, assim, qualquer um pudesse analisar o que acontecia com seu tumor. O projeto ganhou o nome de La Cura, como um chamado para que as pessoas sugerissem curas ou tratamentos para sua condição.

Em pouco tempo, as respostas: um trabalho artístico com a visualização dos dados de seu tumor, 35 vídeos criados com as imagens de seus exames, quase 600 poemas dedicados a ele, 15.000 depoimentos de estímulo e sugestões sobre tratamentos, 60 médicos entraram em contato para dar suas opiniões (sendo que 40 deles foram avaliados por outros 500 visitantes contando suas experiências com aqueles profissionais), extraordinárias 50.000 opções de estratégias de tratamentos (que vão desde terapia tradicional a até magia) e 200 pessoas o ajudando a classificar todo o material recebido.

“A primeira coisa que se repara no hospital é que eles não estão conversando com você. Linguagem médica é difícil e complexa, e eles quase nunca tentam fazer algo para que seja mais fácil de se entender. (…) é uma evidência explícita da maneira como a medicina trata seus pacientes: se para de ser ‘humano’ e se torna uma série de parâmetros para um arquivo médico que segue certos padrões e protocolos”, conta Salvatore em uma entrevista.

É impressionante notar que é só mudar a linguagem, torná-la um pouco mais acessível, para que outras pessoas possam se engajar na luta. Graças à tradução, Salvatore deixou de ser apenas um paciente, ou como ele diz, “um caso”, para se tornar alguém de carne e osso com uma condição: estar doente. Ele não é a doença, mas ele está com ela.

E qual o resultado?

“Depende da perspectiva que se olha. Do ponto de vista médico, eu tenho um glioma de baixo-nível com uma intensidade indefinida, entre 1 ou 2 (nós temos que esperar novos exames para ter certeza). Do ponto de vista humano: eu estou bem! Não tenho sintoma aparente. Eu só preciso tomar cuidado, porque se eu entrar em situações estressantes, eu posso encadear um ataque epiléptico. Por isso, não é recomendável eu dirigir ou coisas do tipo – o que é a perfeita desculpa!”

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Thiago Carrapatoso é diretor-presidente da organização sem fins lucrativos Veredas, que trabalha com tecnologias para fins sociais. É jornalista e especialista em Comunicação, Arte e Tecnologia. Escreveu a pesquisa "A Arte do Cibridismo" e colabora com o movimento BaixoCentro. Ajudou a fundar a Casa de Cultura Digital, mas agora dá outros passos pelo mundo. Residente em Nova York, deixa seus rastros pelo delicioustwitter e facebook. Aqui, conta um pouco sobre iniciativas tecnológicas que questionam e mudam o que conhecemos.

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