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Mudanças climáticas são um caso de embate cultural Ricardo Abramovay - 22/04/2015 às 17:20

Artigo publicado originalmente no Jornal Valor Econômico, em 14/04/2015

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É na psicologia e na cultura e não na informação e na ciência que podem ser buscadas as raízes dos mais importantes debates políticos e ideológicos contemporâneos. A visão de mundo das pessoas explica muito mais suas tomadas de posição em diferentes domínios da vida social do que o veiculado nos jornais e nas revistas especializadas. Longe de atenuar as opiniões arraigadas, o maior nível educacional e a leitura de materiais técnicos contribuem para reforça-las. O próprio raciocínio dos indivíduos e a maneira como justificam suas crenças passam por filtros que refletem sua identidade cultural, ou seja, sua adesão às expectativas comportamentais dos diferentes grupos a que pertencem.

A gigantesca literatura sobre o ceticismo de parte importante da opinião pública diante das mudanças climáticas é sintetizada no mais recente livro do sociólogo norte-americano Andrew Hoffman a partir de um paradoxo crucial - How Culture Shapes the Climate Change Debate. Dos 11.944 artigos científicos publicados em revistas com sistema de arbitragem e revisão pelos pares entre 1991 e 2011, nada menos que 97,1% endossam a posição de que as mudanças climáticas existem e têm origem antrópica. Mas se é assim, como então explicar que em 2013, segundo pesquisa da Universidade de Yale, 37% dos americanos não acreditassem na ocorrência do aquecimento global? Ou que, em 2010, nada menos que 47% o atribuíssem a causas naturais? A resposta de Hoffman pode ser sintetizada numa frase de efeito: as mudanças climáticas são uma guerra cultural.

As armas nesta batalha não se restringem ao mundo das ideias, das palavras e das imagens. Andrew Hoffman, professor da Universidade de Michigan, consultor empresarial, pioneiro nos estudos sobre responsabilidade socioambiental corporativa e cuja tese de doutoramento ganhou, no início do milênio, o Prêmio Rachel Carson, conhece bem os setores econômicos mais emissores de gases de efeito estufa. Assim, ele mostra não só que o combate ao aquecimento global fere poderosos interesses, mas revela também que o debate público sobre o tema está seriamente influenciado pelo poder do dinheiro. Dos 107 livros negacionistas publicados, globalmente, entre 1989 e 2010 a maioria foi patrocinada por organizações conservadoras e 90% não passou por qualquer processo de revisão pelos pares.

Além disso, a complexidade do tema torna-o cada vez menos apetitoso. Em 2013, o New York Times fechou sua editoria ambiental e apenas doze repórteres voltados especificamente ao tema trabalham hoje nos cinco maiores jornais norte-americanos. Com isso, o poder de difusão das mensagens sem qualquer fundamento científico se amplia. Um estudo de 2013, citado por Hoffman, constata que 72% do transmitido pela Fox News em matéria de mudanças climáticas continham erros, proporção que se reduzia a 8% no canal pago e pouco expressivo MSNBC.

Mas o livro de Hoffman não se limita a apresentar as bases culturais e materiais que explicam o contraste flagrante entre ciência e opinião pública e aos quais ele dedica seus três primeiros capítulos. Seu interesse maior está no esforço, que tem início no capítulo quatro, de superar o verdadeiro cisma cultural que marca o debate climático. Ele expõe uma teoria da mudança (termo cada vez mais usado por organizações de desenvolvimento no mundo todo) com base na qual são apresentadas táticas e habilidades para enfrentar a atual polarização. E sua recomendação básica é que não se vence uma guerra cultural acentuando e levando até a caricatura as concepções opostas que imprimem coesão a cada um de seus lados.

O essencial (e claro que isso não se refere apenas às mudanças climáticas) é a construção de pontes que podem permitir diálogo, audiência e, portanto, alguma permeabilidade no tecido cerrado das verdades já conhecidas. O confronto direto, na visão de Hoffman pode ser útil para fortalecer a cola que une cada um dos extremos da polêmica. Mas quando se trata de pontes, as táticas e as habilidades são outras.

Em primeiro lugar tão importante quanto as mensagens são os mensageiros que as transmitem. É mais fácil que os segmentos conservadores da opinião pública se preocupem com as mudanças climáticas se mensagens nesta direção vierem de grandes empresas do que se forem veiculadas pelo Greenpeace ou pelo WWF. A norte-americana Union of Concerned Scientists, saudou com entusiasmo que diversas grandes empresas tenham abandonado a Câmara Americana de Comércio em 2009 por suas posições retrógradas sobre mudanças climáticas.

Em segundo lugar, Hoffman cita vários estudos mostrando que os cenários catastrofistas são úteis para fortalecer as convicções dos convertidos, mas despertam a desconfiança dos céticos. Em terceiro lugar, a comunicação científica tem que ganhar maior eficiência e se apoiar no que ensinam os mais recentes estudos de psicologia, falando para as pessoas a partir de suas preocupações e repertórios. Estas táticas (que supõem habilidades nada óbvias) é que permitem ir além do quadro de “nós contra eles”, que tem marcado e em grande parte esterilizado o atual debate.

As propostas de Andrew Hoffman não devem ser encaradas como uma espécie de ética da complacência. O que ele propõe não é reduzir o alcance da descarbonização da vida econômica, nem mesmo a denúncia da destruição sistemática que os gigantes fósseis hoje promovem. Em nenhum momento ele escamoteia a força e o cinismo dos interesses que até dominaram globalmente a produção de energia, nem o fato de os EUA, com 4,6% da população mundial responder por um quarto do consumo de todo o petróleo.

Seu ponto é outro. As mudanças sociais necessárias ao desenvolvimento sustentável supõem a arte da persuasão e não o exercício tão comum da demonização das crenças alheias. É assim que os movimentos que hoje pressionam grandes fundações, universidades e fundos de pensão a não mais investirem em fósseis conseguiram legitimação que lhes garantiu sucesso crescente. O papel das ruas é fundamental, claro, mas delas, por si só, não emergirão as pontes necessárias à vitória nesta guerra cultural.

Leia também:
Ciência, cultura e a estagnação da agenda ambiental 

Ilustração: Frits Ahlefeldt-Laurvig/Creative Commons

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A inovação pelos pares veio para ficar Ricardo Abramovay - 10/04/2015 às 11:50

Artigo publicado originalmente na revista Página 22, em 02/04/2015

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Ganham força os processos descentralizados, conduzidos por razões não necessariamente econômicas e com base em governança distante da que rege empresas e governos

As empresas e os governos são cada vez menos as principais fontes da inovação tecnológica contemporânea. Essa constatação é feita por uma das maiores autoridades na pesquisa do tema, Eric von Hippel, professor do MIT – Massachussets Institute of Technology, num paper em coautoria com seu colega de Harvard, Carliss Baldwin. Por maior que seja a importância dos investimentos das empresas e dos governos, esses dois protagonistas não dominam mais sozinhos a cena. A inovação pelos pares, descentralizada, levada adiante por razões não necessariamente econômicas e com base em mecanismos de governança distantes dos que regem as empresas e os governos, ganha força crescente.

Trata-se de uma conclusão contraintuitiva. À primeira vista, quem inova são produtores cujo trabalho científico e tecnológico tem que ser protegido rigorosamente por patentes, na ausência das quais seus lucros (e portanto sua motivação para inovar) estariam irremediavelmente comprometidos. Aí reside, por exemplo, a essência da noção schumpeteriana de empresário inovador.

Mas, segundo Baldwin e Von Hippel, novas tecnologias (que reduzem os custos de comunicação e que permitem design digitalizado e modularizado juntamente com acesso barato a computadores operando em rede) competem vantajosamente com a figura individualizada do produtor inovador em muitos setores da economia. Para Baldwin e Von Hippel, o que está em jogo é o paradigma com base no qual o progresso científico e tecnológico vem sendo pensado desde meados do século XIX.

E, para quem ainda acha que direitos de propriedade bem estabelecidos são a quintessência da inovação, é importante ler o artigo de Michele Boldrin e David Levine, na prestigiosa Journal of Economic Perspectives, em que se mostram evidências empíricas de que “sistemas fortes de patentes retardam a inovação e têm muitos efeitos colaterais negativos”.

Claro que o papel dos investimentos privados e públicos na pesquisa é e será decisivo. Mas a inovação pelos pares veio para ficar. Na verdade, tais formas descentralizadas de inovação sempre existiram e os usuários das ferramentas, das máquinas, das sementes e dos tratores souberam com frequência adaptar e aprimorar seu uso. Mas, só agora, na era digital, é que essas inovações tornam-se verdadeiramente abertas, o que influi na própria estratégia das empresas. A decisão da Tesla de abrir suas patentes em armazenagem de energia, por exemplo, reflete o princípio de que as chances de alcançar melhor desempenho na área aumentam com a ampliação descentralizada da pesquisa. Por mais que a Tesla tenha interesse no assunto por causa de seus carros elétricos, o avanço tecnológico em armazenagem será um dos elementos decisivos para ampliar o uso de energia solar e eólica em todo o mundo.

Projetos de inovação aberta e colaborativa, segundo Baldwin e Von Hippel, envolvem pessoas que partilham o trabalho de gerar um design e também de revelar os produtos de seu esforço individual e coletivo a quem quer que seja. É claro que existem regras e mecanismos jurídicos para esse compartilhamento. Nesse sentido, é fértil a aproximação entre os trabalhos de Elinor Ostrom sobre a gestão de recursos naturais de uso comum (que lhe valeu, há cinco anos, o Prêmio Nobel de Economia) e a pesquisa em torno do conhecimento como patrimônio comum da espécie humana e não como objeto de apropriação privada e patenteada.

É sobre a base dessa aproximação que foram reunidos em livro recente vários estudos de caso sobre a produção compartilhada de conhecimentos em áreas que vão do projeto genoma às doenças raras, passando pela astronomia, a aeronáutica e a própria informação jornalística. Um dos trabalhos mais interessantes do livro estuda uma plataforma de “inteligência coletiva em ciência cidadã”, que possuía 30 projetos em janeiro de 2014 e mobilizava 250 mil usuários, dos quais 40% participavam tanto na classificação de dados empíricos como em sua discussão.

A geração compartilhada de conhecimento nas sociedades contemporâneas não se limita aos exemplos conhecidos dos softwares livres e da Wikipédia. Para que o Brasil possa alcançar a fronteira da inovação científica e tecnológica será necessário muito investimento privado e governamental. Mas é importante que as universidades, as agências públicas e o setor privado não ignorem esse fascinante movimento social em torno da inovação pelos pares.

Ilustração: hvoin min/creative commons

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O extrativismo progressista Ricardo Abramovay - 20/12/2014 às 17:06

Artigo publicado originalmente na revista Página 22, em 03/12/2014

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A redistribuição de renda na América Latina se dá em bases frágeis, ao estimular um modelo econômico de extração de recursos finitos com imensos custos ambientais e humanos

A expressão que dá título a este artigo é usada por Naomi Klein em seu recente e indispensável livro, This Changes Everything: Capitalism X Climate (1). Tomada de empréstimo a pesquisadores latino-americanos (2), ela contém o maior paradoxo vivido pelo continente e, particularmente, por sua esquerda. Por um lado, a América Latina, nos últimos dez anos, passou por um processo impressionante não apenas de redução da pobreza, mas também de desconcentração da renda. A permanência no poder dos blocos governistas da Venezuela, da Argentina, da Bolívia, do Equador e do Brasil apoia-se, em grande parte, nessas conquistas, como ficou claro na reeleição de Dilma Rousseff.

this-changes-everything-naomi-klein-abramovay-postAs bases desse processo redistributivo não poderiam, entretanto, ser mais frágeis. Cada um desses governos estimula um modelo econômico de extração de recursos finitos com imensos custos ambientais e humanos.

O equatoriano rasgou sua Constituição e desencadeou perseguição a jornalistas que denunciaram a transformação da reserva de biosfera de Yasuni em campo aberto para exploração de petróleo. A Bolívia aprofundou sua dependência com relação ao gás e, mais que isso, violentou a integridade dos territórios de populações indígenas, onde construtoras brasileiras se empenham em fazer rodovias e gigantescas hidrelétricas. A Argentina está na fronteira das formas não convencionais de exploração de fósseis (com suas imensas reservas de shale gas), da mesma forma que o Brasil com o pre-sal (leia mais sobre o pre-sal no artigo de Magali Cabral, Mão e Contramão, também publicado na revista Página 22).

Cada um desses países vai-se tornando cada vez mais dependente da exploração de recursos materiais, energéticos e bióticos com baixo valor agregado e alto impacto sobre sistemas naturais valiosos e, muitas vezes, populações tradicionais.

Pela amplitude e profundidade de seu trabalho, Naomi Klein é hoje certamente o nome mais respeitado do pensamento global de esquerda. Seu livro mostra, de maneira persuasiva, que a destruição do sistema climático não é apenas produto de uma externalidade, uma falha de mercado ou uma anomalia.

É a consequência de uma organização econômica que privatizou a esfera pública da vida social, afrouxou a regulamentação das corporações, reduziu seus impostos e não lhes cobra os danos que provocam. Mais que isso, perdeu-se, globalmente, o horizonte estratégico do planejamento que deveria fazer das infraestruturas atuais a base para uma economia regenerativa dos ecossistemas de cujos serviços dependemos todos.

O importante, porém, é que Naomi Klein coloca em questão o preceito de que mais Estado é a quintessência política das aspirações de esquerda. Na verdade, na América Latina (mas ela cita também o exemplo do Syriza, partido grego de esquerda que apoia a exploração petróleo e gás como meio de sair da crise), formou-se uma lógica de extração-e-redistribuição cujos efeitos imediatos benéficos não têm como escamotear suas consequências nefastas na maneira como se organiza a própria relação entre economia e sociedade.

O extrativismo progressista que domina, hoje, os governos considerados de esquerda da América Latina representa uma tríplice ameaça ao processo de desenvolvimento.

Em primeiro lugar, está sendo fortalecida a infraestrutura típica do século XX, com predomínio de formas centralizadas e predatórias de exploração de energia. São infraestruturas que colocam o continente numa trajetória da qual será cada vez mais difícil sair, uma vez que elas precisam ser usadas, rentabilizadas e pagas. Como consequência, em segundo lugar, a inserção da América Latina nas cadeias globais de valor se faz por baixo, a partir do que elas têm de menos valioso.

O resultado disso é que estamos na retaguarda e operando puramente como consumidores dos frutos mais importantes da inovação contemporânea. Por isso, a discussão sobre a desindustrialização brasileira vai muito além do interesse dos industriais. O que está em jogo é o papel decrescente que a informação e a inteligência desempenham no sistema econômico, em benefício das formas imediatamente extrativas de riqueza.

Para Naomi Klein, a liberalização econômica generalizada não é e não pode ser resposta a esses problemas. Mas o culto tóxico aos bilhetes premiados dos combustíveis fósseis não faz jus ao que de mais inteligente e generoso a esquerda, desde Marx, tem trazido para a cultura humana.
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(1) This Changes Everything. Capitalism vs. Climate. New York. Simon&Schuster.
(2) Ver, entre outros, Eduardo Gudynas

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Foto: Frits Ahlefeldt/Hiking Artist/Creative Commons

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Muito além da economia verde

Muito Além da Economia Verde, de autoria do sociólogo Ricardo Abramovay, é o primeiro livro com o selo Planeta Sustentável, lançado em junho de 2012 (em parceria com a Fundação Avina), não por acaso: nesse mês foi realizada a Rio+20 – Conferência Internacional para o Desenvolvimento Sustentável. Por ser um projeto muito especial do nosso movimento, ganhou este blog e um Twitter: @ECOmaisqueVERDE. Para a estreia deste espaço, contamos a história da concepção do livro e reproduzimos os textos de Marina Silva, ex-Ministra do Meio Ambiente, e Fábio Barbosa, presidente da Abril S.A., para o prefácio e a “orelha” do livro, respectivamente. Neste blog, estão publicados trechos do livro escolhidos pelo próprio autor para ampliar a reflexão sobre os temas que lhe são caros, além de resenhas sobre a obra e notícias sobre futuros lançamentos. O livro está à venda, com exclusividade, no site e nas lojas da Livraria Cultura das principais capitais e também no Iba. Acompanhe!

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