Lixograma
10/04/2009 às 12:24
Da lama ao caos


Há pouco mais de um mês visitamos uma central de cooperativas em São Paulo. No local estão instaladas 3 cooperativas onde antes funcionava a Usina de Compostagem da Vila Leopoldina. São eles que recebem os resíduos coletados pela Eco Urbis. Você conseguiria imaginar como é o aspecto de uma cooperativa que recebe os resíduos recicláveis de uma cidade como a nossa?

Eu tinha uma vaga idéia, mas infelizmente a surpresa não foi a mais positiva.

Era uma sexta-feira e choveu bastante no dia anterior. Por isso foi um verdadeiro rally cruzar os cento e poucos metros de barro fresquinho que separava a guarita do galpão da cooperativa. Meu carro, que não é nenhum 4x4, quase atolou nesse lamaçal, por isso seguimos a outra metade do caminho a pé.

Depois de um verdadeiro zig-zag para encontrar pontos em que o barro não encobria os pés, começamos a perceber que realmente estávamos num local que tratava resíduos. Na verdade, arrisco a dizer que é um local que recebe lixo. Havia muito resíduo espalhado pelo chão ou esquecido em bigbags. No Google Earth você tem uma idéia da quantidade de sacos espalhados a céu aberto. Coordenadas 23º31’10.73” S e 46º43’59.26” O.
Sim, essa massa branca são os sacos de lixo, bigbags lotadas, etc...

O caminhão da prefeitura chega e vai despejando pra dentro do galpão os milhões de sacos plásticos que foram coletados. Aqui um ponto positivo, o caminhão que chegou durante nossa visita não era um compactador, mas uma caminhonete com um baú gradeado.

Dentro do galpão uma verdadeira montanha de sacos plásticos ia até o teto (juro). Do alto, uma pessoa ia mandando os resíduos pra baixo e outra colocando tudo numa esteira de triagem. O lugar está tão super lotado que para eu chegar perto dessa esteira, tive que escalar um pequena montanha. Quem está na esteira, trabalha quase espremido por aqueles milhares de sacolinhas plásticas, garrafas PET e a embalagem do nuggets do jantar do mês passado.

A quantidade de resíduo triado é menor do que o volume que chega. Os cooperados, que são remunerados de acordo com a quantidade de resíduo triada, já não estão indo pra lá depois que o valor dos resíduos despencou com essa tal crise. Com isso o resíduo vai acumulando mais e mais.

A impressão que tiramos disso tudo é que falta atenção do poder público para esse gargalo, pois pequenos ajustes fariam o processo ganhar muito mais agilidade e condição de trabalho. Acredito que essa é uma grande oportunidade para surgir PPPs (parceria público-privado) que eu, Alexandre, acredito ser a melhor saída, porém, esse papo é extenso demais e, com a fome que estou, se eu ficar mais 20 minutos aqui, estarei tentado a ir até a loja de conveniência em frente ao escritório e abrir um saquinho de Doritos (aquele que vai ficar alguns vários meses parado dentro de uma bigbag).
 




Comentários

12/04/2009 às 14:52
Ana Luisa Beall - diz:
Gostei do post, Alexandre! É importante que não deixemos somente à cargo do governo essa questão do lixo, uma vez que nosso consumo está diretamente ligado ao volume de lixo que produzimos.Em geral, temos a impressão de que ao colocarmos o lixo pra fora de casa durante a noite e não o vermos pela manhã, é como se uma fadinha mágica o tivesse feito desaparecer.Vemos aqui, que não é bem assim que acontece. A casa da tal fadinha mágica tá aí, nessa foto. E enquanto a varinha mágica dela não faz nosso lixo desaparecer de fato, consumir de forma consciente é ainda o melhor remédio.

14/04/2009 às 12:33
Rafael Dang - diz:
Post muito interessante, eu nao tinha a ideia de como era uma central de triagem de reciclaveis. Concordo com a Ana Beall.grande abraço

14/04/2009 às 12:34
Rafael Dang - diz:
Post muito interessante, eu nao tinha a ideia de como era uma central de triagem de reciclaveis. Concordo com a Ana Beall.grande abraço

14/04/2009 às 16:38
ULISSES DE BRITO - diz:
Caro Alexandre, apesar de São Paulo ser tão GRANDIOSA em tudo, não me espanto com o q vc encontrou nessa cooperativa. Este problema tb o encontro aqui na minha cidade de Arcoverde-PE de pouco mais de 65.000 hab. O problema, creio, é que ainda não temos a devida conciência da importância de se fazer a separação seletiva do nosso lixo, em casda. facilitaria e muito esse honroso trabalho destas cooperativas.

16/04/2009 às 20:14
Antonio da Ponte - diz:
Caro Alexandre, todo habitante desta Metropole, pelo menos a grande maioria, pensa igual, além do problema cultural.Todos acham que basta colocar o lixo em um saco ou sacolinha e resolveu-se o problema, forte engano, é aí que começa o problema.Temos que consumir menos, separar os reciclaveis, aumentar o numero de cooperativas e recicladoras, estas com incentivo e ajuda do poder público, utilizando tecnologias avançadas, estamos sómente com 40 anos de atraso.Além da falta de Educação Ambiental e da consciencia ambiental.

16/04/2009 às 20:15
Scheila - diz:
Muito bom post. Infelizmente somos muito egoistas e deixamos sempre para que o outro faça. Um papel de bala que colocamos na lixeira irá fazer uma grande diferença no final..

17/04/2009 às 07:42
Alexandre Almeida - diz:
Olá Antonio,Com certeza as pessoas são parte do problema, mas não é uma exclusividade da nossa cidade, sao paulo. Estamos em Brasília por uns dias e percebemos que os problemas são os mesmos.Aqui existem várias cooperativas e até um sistemas mais organizado que o de SP, pois conta com uma central de cooperativas (CentCoop) que administra e divide o trabalho entre os associados.Os problemas no gargalo são os mesmos que você citou: desorganização (tanto administrativa quanto operacional), falta de infraestrutura e falta de um trabalho sólido de comunicação com a população.Grande Abraço



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Lixograma

Por Erich Burger e
Alexandre Almeida

Lixo é o tema preferido de Erich Burger, administrador de empresas, e Alexandre Almeida, publicitário. Eles são Gêmeos, nasceram em três de junho, mas em anos distintos. Aqui, apresentam e discutem alternativas para a forma como a sociedade se relaciona com ele. Convictos de que as mudanças no atual cenário de degradação do planeta dependem de ações de impacto – apoiadas em muita informação e mobilização empresarial, governamental e comunitária, criaram a Recicleiros e a Ambon. Ambas são empresas sociais, inspiradas no modelo proposto por Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz (2006): uma empresa social pode ser tão ou mais competitiva que uma convencional, só que com reflexo mais positivo sobre a sociedade e o meio ambiente.
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