Gaiatos e Gaianos
18/08/2009 às 16:44
Tijolos de adobe


Na onda do faça-você-mesmo, minha casa na ecovila terá algumas paredes de adobe, um tipo de tijolo de terra crua, que é excelente isolante térmico e acústico. Essas qualidades são importantes em Piracaia, especialmente por conta da grande amplitude térmica da região, com temperaturas altas no verão (que, mesmo assim, tem noites frias) e muito baixas no inverno. Numa metáfora didática (que o amigo Hiroshi, idealizador da ecovila, costuma usar em conversas com os visitantes), o adobe é como uma camisa de algodão, que deixa o corpo transpirar. Já a parede de tijolo queimado e cimento é como um tecido de náilon, que dificulta bastante a troca de calor entre o corpo e o meio ambiente. Vem daí a ideia de que as paredes de terra “respiram”.

Como isso funciona? Bom, no verão, o tijolo de terra crua reduz a velocidade de entrada do calor na casa, que leva horas para penetrar a parede do tijolo (os nossos, por exemplo, têm cerca de 20 cm de largura). Assim, somente quando a tarde cai e a noite chega com temperaturas mais amenas é que o calor entra, de fato, na casa. Seguindo a mesma lógica, se demora para entrar, demora também para sair, o que torna essa característica perfeita para as noites de frio intenso: quando a lua desponta no céu, o calor armazenado na casa irá manter a casa mais quentinha até o dia amanhecer.

Além disso, o tijolo de adobe consome muito menos energia para ser produzido, já que não vai ao forno. E isso significa também que ele emite menos CO2 para a atmosfera. Outra vantagem: pode ser produzido localmente, com a terra do próprio terreno. Na minha casa, pensando em termos de sustentabilidade, tivemos que botar na balança dois fatores: o desejo de não mexer na topografia do terreno e a vontade de construir com terra. Bom, sem cortar o terreno seria difícil usar a terra local. Em contrapartida, para construir com terra, o ideal seria não trazê-la de longe, por conta do transporte que aumentaria a pegada ecológica da construção – e da extração, nem sempre feita com baixo impacto ambiental.

A solução foi ficar no meio termo. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Fizemos um pequeno corte (manual) no terreno e aproveitamos a terra para a construção. Desse modo, a fundação da casa ficou menos complicada e também um pouco menos cara, e ainda pudemos usar a terra disponível no terreno. É verdade que, no meio do caminho, a demanda por terra superou o corte feito no solo. A saída foi aproveitar a terra de alguns vizinhos que fizeram terraplanagem e, em último caso, comprar na loja de materiais de construção.

No mês de julho, férias na universidade, meu marido-companheiro conseguiu tempo para passar vários dias na ecovila fazendo tijolos de adobe – enquanto eu estava em São Paulo, trabalhando mais do que deveria... Um a um, ele enformou, desenformou e botou para secar na sombra 250 unidades. A cura demora cerca de 20 dias, dependendo do clima.

No último fim de semana, transportamos os tijolos da “fabriquinha comunitária” da ecovila até a nossa casa, usando a caçamba do carro. Depois, fizemos uma argamassa de terra e areia e começamos a subir uma parede do nosso futuro quarto. Tijolo por tijolo, juntos, começamos a trabalhar na construção do nosso abrigo. Uma sensação pra lá de gostosa, de poder construir o próprio ninho - e sem sequer precisar de luvas para se proteger de produtos tóxicos ou agressivos. A terra, costumo brincar, é um ótimo peeling para as mãos...

Para quem gosta de construções mais rústicas, o adobe não precisa receber reboco. Pode ficar aparente, apenas com uma proteção hidrorrepelente nas áreas úmidas e externas. Na minha casa, usamos uma mistura de areia, cal e baba de cacto palma na fachada. Receita natural e eficiente, que não impermeabiliza a superfície – pois isso implicaria perder a qualidade de troca de calor com o ambiente externo. Essa gororoba apenas impede a penetração da água. Se a vontade for deixar a parede lisinha, com cara de construção convencional, sem problemas. Também dá. É só fazer o acabamento com terra, areia e pigmento (opcional).

Por tudo isso, o adobe é, sem dúvida, uma tecnologia que merece mais espaço no Brasil, especialmente em locais mais remotos e carentes de infraestrutura. Conheci, ainda que de longe, um projeto muito bacana de construção de casas populares de adobe na Bahia. Em regiões quentes, ele torna a casa mais agradável termicamente, reduz consideravelmente o custo da obra e ainda leva o conforto ambiental e a autoestima das famílias, que aprendem o valor da autonomia. Grupos de moradores são capacitados na técnica e se revezam na construção das moradias das famílias da comunidade. Um jeito inteligente, solidário e ecológico de construir, que só traz vantagens para todos.

Foto: Sofia faz o controle de qualidade da construção...






Comentários

19/08/2009 às 01:24
Fernanda - diz:
Olá Giuliana, parabéns pelo seu trabalho. Cheguei aqui por acaso, e adorei. Um abraço.

19/08/2009 às 11:00
yuri azeredo - diz:
parabens pela iniciativa, adoro esse site planeta sustentavelfaço gestao ambiental no senac de goianiae estou muito afim ampliar conhecimentos na area de sustentabilidade, ai esta meu e-mail pra que possamos manter contatos e trocas de experiencias... onde fica a ecovila? quero conhecer também!

19/08/2009 às 11:14
renato - diz:
Oi Giuliana,moro em Piracaia e conheço sua casa!Estou construindo tbm num terreno perto da cidade e estudo permacultura há 3 anos. Gostaria de conhecê-la e trocar idéias. Um grande abraço.Renato

19/08/2009 às 13:20
Priscilla Mieli - diz:
Olá Giuliana! Muito legal essa matéria. Vc conhece o tijolo modular ecologico? É uma alternativa bem legal tb! Se tiver interesse, podemos trocar informações sobre esse material ... tenho uma fábrica chamada Construecol, que fica em Itaboraí - RJ.Bjs, Priscilla

22/08/2009 às 07:45
Marcus Balsimelli - diz:
Parabens e obrigado pela aula! Trabalho com sustentabilidade na construção e temos a ECOhabitat em Florianópolis - SC

22/08/2009 às 11:06
Zara - diz:
Olá, parabéns.Como sugestão, poderia ter colocado mais fotos desta reportagem para que tivéssemos melhor idéia desta fabricação e corte de terra. Mas valeu assim mesmo.Obrigada

23/08/2009 às 15:49
Jorge - diz:
Oi, Giuliana, tudo bem! Adorei a parede, mais uma decisão certeira.Quanto mais você divulga, mais vontade nos dá de praticar e aplicar. Aliás, iniciei semana passada um curso, "Master em Arquitetura Sustentável", c/duração de 1 ano, o Francisco Lima "o Xico", já deu uma aula. Com certeza terei oportunidade de comentar com os demais colegas de sala sobre a excelente atuação de vocês. Parabéns mais uma vez. OBS. Eu sou prova de que a Sofia faz um ótimo trabalho.Ecoabraço a todos.

25/08/2009 às 07:57
Claudio - diz:
Olá!Em primeiro parabéns pelo trabalho, se possível de detalhes da fabricação do tijolo. Abraços.

25/08/2009 às 16:42
Giuliana - diz:
Olá a todos! Que bom sentir o interesse de vocês pelo tema! Muito legal. Descobri até um vizinho piracaiense! Renato, você já esteve na ecovila? Vamos combinar um fim de semana para você ir até lá. Será um prazer fazer um intercâmbio de ideias. Yuri, a ecovila fica em Piracaia, interior de São Paulo. Entre no site www.clareando.com.br e conheça mais detalhes. Quando vier a SP, quem sabe você não marca uma visita? Priscilla, gostaria de saber mais sobre sua fábrica de tijolos modulares. Na minha casa, também usei um tijolo de solo-cimento em algumas paredes... Marcus, se puder, me manda mais informações sobre a Ecohabitat. Zara e Claudio, no site da ecovila tem uma galeria de fotos da nossa "fábrica" de adobes. Jorge, boa sorte no curso (manda um beijo para o Xico) e obrigada pelo carinho de sempre. Um abraço ecovileiro a todos!

04/09/2009 às 05:45
Lucia Aya Shimizu - diz:
Oi!Gostei muito do blog.Acabamos de comprar umas terras em Mato Grosso do Sul. Penso em fazer uma casa de adobe. É indicado para clima úmido e quente? Que tipo de estrutura tenho q fazer para um pé direito duplo? Vc conhece alguém em Campo Grande (MS) q possa me indicar para acessorar a construçäo? Queria fazer uma área de convivência com cobertura de palha, näo dá problema com "barbeiro"?Desculpa fazer tanta pergunta, mas estou no início dos meus planos...Obrigadäo

08/09/2009 às 19:46
Claudia G. Prada - diz:
Ola Giuliana. Fiquei muito feliz de conhecer o seu blog!E maravilhoso ver que a sustentabilidade seria esta se espalhando pelo nosso pais!Faz pouco cheguei da Escocia onde morei na comunidade de Findhorn por 10 anos.Adquiri e moro num sitio na Mata Altantica, em Ilhabela-SP.Tambem fiz cursos de Permacultura e Ecovilas la e agora preciso reciclar e adaptar os conceitos as nossas realidades daqui.Para falar a verdade me sinto meio estrangeira pelo fato estar me adaptando ainda e nao conhecer a "minha tribo".Gostaria de trocar ideias e tambem de conhecer a sua Ecovila.Parabens a tribo ecologica e a voce particularmente, pela opcao e sucesso.Claudia

21/10/2009 às 10:50
Alcimar Chaves - diz:
Ola, eu comprei um terreno em Lavras Novas MG, fica na estrada real e quero fazer algo bem ecologico, adorei a informação, pois lá existe uma pessoa que faz, mas é caro, agora eu sei que posso eu mesmo (irmãos, pais amigos...rs..rs..) fazer...

25/10/2009 às 16:00
Lígia Zamaro - diz:
Puxa, Giuliana! Fiquei extremamente feliz de encontrar um inspirador oásis (literalmente) por aqui. Obrigada por compartilhar todas estas descobertas e experiências em torno de uma forma de vida sustentável, mostrando que é possível uma opção de vida-mais-viva.Boa sorte e muita FIBRA nos seus projetos pessoais!

03/11/2009 às 14:42
Grasiele - diz:
acho super interessante o projeto adobe, as casas ficam lindas e o mais interessante q se o clima está quente, dentro a temperatura é fria e vice - versa, e com imaginação podemos fazer lindas casas.parabéns pela divulgação.

03/11/2009 às 14:43
Grasiele - diz:
Grasiele - diz:
acho super interessante o projeto adobe, as casas ficam lindas e o mais interessante q se o clima está quente, dentro a temperatura é fria e vice - versa, e com imaginação podemos fazer lindas casas.parabéns pela divulgação.

14/01/2010 às 17:48
ricardo - diz:
Como consigo fornecedor desse tijolo de adobe? ou ainda como posso fabricá-lo.Parece uma solução fantastica para construção de casas para população debaixa renda. Vc conhece alguma aplicação desse material em projetos de governo para construção de casas populares?gratoRicardo



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Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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