
Bossa já não tão nova do Tom, sambinhas alegres ou aos prantos do Cartola ou da Maria Rita, não importa. Ali, embora meio desafinada, minha voz procura espaço entre as buzinas, os motores e outros acordes da cidade que deixou de ouvir os sons da natureza – porque não presta atenção a eles.
Ligar o rádio, noutras vezes, também funciona, mas aí é preciso mexer no dial a cada minuto, fugindo das notícias policialescas, dos boletins catastróficos do trânsito e, quem diria, até da previsão apocalíptica do tempo. Difícil.
Ficar em silêncio, vidros fechados, é outra opção, mas exige maior capacidade de concentração, quase meditativa. (Se você é um meditante, ótima oportunidade.) Porque no meio das avenidas já não se ouve passarinho cantar, vento assoviar ou chuva banhar árvores e depois cair, pingo a pingo, sobre a terra.
Morar na cidade grande (muito maior do que nossa memória genética é capaz de perceber como comunidade de escala humana), nos deixa surdos ou apáticos aos sons da natureza. Buzinas, motores, fábricas, pratos e talheres dos restaurantes lotados. Todos esses sons artificiais fazem as vezes de sons naturais quando, na verdade, sua freqüência vibratória em nada lembra qualquer onda sonora produzida pela natureza.
Ao nascermos, um presente precioso nos foi dado: o dom de nos integrarmos à natureza pelos ouvidos, diluindo, através dos sons, os limites entre o nosso corpo e o meio em que vivemos. Em ambientes mais silvestres, esse escutar natural nos aproxima do pulsar do planeta e aumenta nossa intuição e outras percepções mais sutis, numa integração plena e serena com a natureza. Você já se sentiu em êxtase ouvindo, numa praia tranqüila, as ondas do mar? Ou já foi preenchido por dentro pela chuva de uma tarde de primavera?
Livre do trânsito, portanto fora do carro, do ônibus ou do metrô, procuro exercitar esse dom numa caminhada, por exemplo. Abro meus ouvidos para o inusitado que sempre esteve ali: a voz da criança que brinca, galhos de árvores soltos no vento, sabiá e bem-te-vi anunciando a chegada do sol pela manhã. Num outro dial interno, é possível afinar nossos ouvidos para o que ainda está lá, atrás das máquinas e do barulho da cidade. Você já parou para ouvir o vento hoje?
Inspiração nunca é demais
E que tal uma listinha de músicos e discos que nos ajudam a trazer a natureza para mais perto de nós? Tenho alguns palpites, que funcionam comigo. São ótimas companhias no trânsito ou em qualquer lugar. Mas adoraria receber dicas suas também... Espero que goste.
1. Dércio Marques (Segredos vegetais)
2. Ceumar (Sempre Viva / Dindinha)
3. Leal Carvalho (Pela Cura do Planeta)
4. Mawaca (Todos os Cantos)
5. Elomar (simplesmente tudo!)
6. Milton Nascimento (dispensa comentários)
7. Paulinho Pedra Azul (os mineirinhos são o máximo...)
8. Hiroshi Seó (esse violeiro eu ouço sempre ao vivo, lá na Ecovila Clareando...)
9. Almir Sater (trem para um Brasil mais roots)
10. Meeta Ravindra (de voz suave e forte, essa indiana entoa mantras e canções belíssimos)
Foto: Tai Chi na praia de Moçambique, Florianópolis. Tentando sentir o som das ondas... Ninguém é perfeito, né...