Permacultura: do linear ao cíclico

Quase tudo o que consumimos durante a vida implicou a extração de matéria-prima, que foi processada numa fábrica, que gerou resíduos, virou produto, foi levado às lojas, de lá para a nossa casa e, em minutos, horas ou dias depois, acabou no lixo.
Embalagens de pizza, garrafas plásticas, revistas, jornais, absorventes femininos, camisinhas, pilhas, papel higiênico, saco de pão e batata frita, restos de comida, baterias de celular, frascos de shampoo e por aí vai.
O grande problema é que esse processo (que se repete aos milhões todo pagão e santo dia) é majoritariamente linear, ao contrário do que acontece na natureza, onde tudo tem seus ciclos. É triste dizer isso, mas a velha máxima que diz que ‘na natureza nada se perde, tudo se transforma’ foi esquecida no banco da escola durante gerações e gerações.
De tempos pra cá muitos estudos, porém, mostram que transformar a “linha de produção” em “ciclos produtivos” é uma maneira eficiente de lidar com aquilo que “sobra” nas indústrias e nas nossas casas. Trocando em miúdos, o que sobra é desperdício, porque poderia ser reaproveitado para aumentar sua vida útil, ou reciclado para voltar a ser matéria-prima outra vez.
Na última semana, passei nove dias inteiros estudando Permacultura na
Morada da Floresta (como relatei
aqui brevemente no post anterior). Ela pode ser definida de várias formas mas, aqui, tomo a liberdade de interpretá-la como uma ferramenta para tornar cíclico o que antes era linear. Exemplos: por que jogar no lixo uma garrafa plástica se eu posso reutilizá-la no escritório e evitar o consumo de dez copinhos descartáveis por dia? Por que jogar fora os restos de comida da minha casa se eu posso colocá-los numa composteira e transformá-los em adubo orgânico para os canteiros e floreiras do jardim? E por que jogar no lixo aqueles cacos de cerâmica se eles podem virar mosaicos para enfeitar a casa? E por que não armazenar parte da água da chuva que escorre pelo telhado para usar na limpeza da casa ou na máquina de lavar roupa?
Essas questões todas fazem parte de um planejamento sustentável, projeto que materializa diversos princípios da Permacultura. Para isso, é necessário fazer um levantamento de tudo o que acontece numa casa (ou na escola, na empresa, no sítio etc.): quantas pessoas moram lá, quantas freqüentam o lugar, o que entra e o que sai, que atividades são realizadas, quais as necessidades energéticas, os problemas e as mudanças de comportamento que devem acontecer para que o local se torne mais e mais sustentável. Está aí o grande desafio do permalcultor.
Criar conexões e posicionar os elementos (cozinha, composteira, jardim, materiais recicláveis, caixas d’água, coletores solares e tudo o que puderes imaginar) de maneira mais racional são as chaves para um bom planejamento sustentável. Numa casa, o ideal é que existam vários pequenos ciclos ou conexões que se integram no conjunto das atividades da casa.
É como num jogo de xadrez, só que na Permacultura a estratégia não está em derrotar o “inimigo” (os restos de comida, o cocô do cachorro, o calor do sol, a água da chuva ou o mundo infinito dos sacos plásticos), mas sim em descobrir de que maneira eles podem interagir para solucionar problemas e diminuir a necessidade de comprar produtos industrializados e jogar fora materiais que parecem não ter mais nenhuma utilidade.
Foto: Experiências de Permacultura urbana estão por toda parte na Casa dos Hólons, em São Paulo, como as garrafas de água que viram vasos e criam uma horta vertical, otimizando o uso do espaço do corredor da casa. Ah, sim, a moça bonita que aparece na imagem é a amiga Chantal...
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