Bioconstrução e desastres naturais

O que uma coisa tem a ver com a outra? Muito mais do que se imagina. Em 2004, um tsunami assustou o mundo ao provocar a morte de milhares de pessoas no Sri Lanka. Lembro-me, na época, de contabilizar o tempo que seria necessário para reerguer aquelas comunidades destruídas e oferecer aos desabrigados uma nova moradia, mais digna do que a tenda de lona improvisada pelos grupos de ajuda internacional.
Meses depois, tive a oportunidade de assistir a uma palestra de um representante da ecovila Sarvodaya, no Sri Lanka, em que ele defendia o modelo de habitação das ecovilas como alternativa para a reconstrução de regiões atingidas por desastres naturais. “Logo depois do tsunami, fomos ao governo pedir ajuda financeira para casas ecológicas que pudessem ser erguidas pela própria população, explicando que o modelo de moradia proposto por nossa ecovila poderia mobilizar os habitantes em mutirões de construção capazes de agilizar o processo, sem grandes impactos ambientais. Não demorou muito e, meses depois, já havíamos levantado centenas e centenas de moradias”, contou, entusiasmado.
Acasos à parte, em 1998, as ecovilas foram incluídas pela ONU na lista das 100 Melhores Práticas para um mundo mais sustentável. Via GEN – Global Ecovillage Network, o modelo das ecovilas tem sido disseminado em importantes fóruns de discussão em todo o mundo, inclusive no treinamento de equipes das Nações Unidas que são enviadas para ajudar governos locais a implementar a Agenda 21 e a Agenda Habitat.
Ecovilas, nas palavras da GEN, são “assentamentos humanos, rurais ou urbanos, no Norte ou no Sul, que buscam a criação de modelos de vida sustentável. Elas surgem de acordo com as características de suas próprias biorregiões e englobam tipicamente quatro dimensões: a social, a ecológica, a cultural e a espiritual, combinadas numa abordagem que estimula o desenvolvimento comunitário e pessoal”. Sem dúvida, são um desafio e tanto, mas, acima de tudo, apontam um caminho, uma rota de saída em meio a um túnel que parecia não encontrar uma luz.
De volta ao presente, há nessa história uma janela interessante a ser aberta. As ecovilas não têm um único modelo de habitação, mas sim princípios de bioconstrução: uso de materiais locais, resgate de sabedoria popular, baixo impacto ambiental, tecnologia adequada à região, otimização de energia e recursos naturais, entre outros. Isso significa que não se constrói da mesma forma na Tailândia, na Itália e no Equador. Cada clima, cada povo tem sua história própria de arquitetura e construção e, acredite, passou milhares de anos tentando aprimorar técnicas aparentemente rudimentares, mas que, no fundo, são altamente sábias e complexas.
Basta lembrar do bambu, por exemplo. Você sabia que ele sustenta a casa de mais de um bilhão de pessoas em todo o planeta? E que a maioria dessas moradias está em regiões propensas a abalos sísmicos? E mais: você sabia que o bambu é mais resistente a terremotos do que qualquer construção de cimento e concreto? Pois é, sabedoria do povo é isso, nem sempre com CREA, diploma universitário ou MBA...
Foto: do projeto mineiro Maria de Barro, que ajuda a resgatar técnicas tradicionais de construção com terra. Vale a pena conhecer mais.