Gaiatos e Gaianos
20/05/2008 ÀS 00:07
Democracia, consenso ou autocracia??


Fazer escolhas sozinho(a) nem sempre é simples. E quando adotamos valores ligados à sustentabilidade, então, decidir que marca de creme dental comprar pode render alguns minutos a mais em frente à prateleira do supermercado. Agora, imagine ter que fazer escolhas numa comunidade com cerca de 50 famílias...

Pois é exatamente isso que estou vivendo desde que eu e meu companheiro adquirimos um lote na Ecovila Clareando, no interior de São Paulo. Nas reuniões mensais em que discutimos e refletimos sobre o que é preciso fazer para desenharmos o futuro que queremos ter na comunidade, inevitavelmente nos deparamos com dúvidas sobre como decidir um e outro assunto, desde a compra de uma roçadeira até a escolha de um caseiro para cuidar das áreas comunitárias da ecovila nesse primeiro período, em que as famílias ainda estão construindo suas futuras casas.

Falo dos processos de tomada de decisão, formas diferentes de decidir em grupo. Muitas ecovilas, ao longo de sua trajetória, foram descobrindo maneiras mais interessantes de tornar os processos de escolhas mais confortáveis e tranqüilos para todos os seus integrantes. Comunidades mais maduras primam pelas decisões por consenso, considerado por grande parte das ecovilas o modelo mais difícil e, ao mesmo tempo, mais instigante e inspirador.

Antes de dizer um pouquinho mais sobre ele, gostaria de retomar o modelo mais conhecido nosso, a tal da democracia. Eita bicho complicado! É só ficar na dúvida sobre algum assunto que lá vem votação. “Levanta a mão quem acha que a ecovila deve ter uma escola dentro de suas fronteiras” ou “levanta a mão quem é a favor do aumento da mensalidade da associação para que possamos acelerar a construção do centro comunitário”. E, assim, certos de que estamos fazendo o melhor, vamos cultivando uma maioria satisfeita e uma minoria (que pode chegar a 49%) de insatisfeitos e desesperançosos, prontos para boicotar, em alguns casos mais graves, o que foi decidido pela maioria.

Pelo amor de Gaia que eu esteja indo contra a democracia que conquistamos nesse país! Longe de mim. Queria apenas levantar a bola para um processo que tem tido sucesso em comunidades e que leva o nome de democracia profunda. Em poucas palavras, nas ecovilas que adotam essa forma de tomada de decisão, o desafio está em conseguir obter uma maioria de, pelo menos, 70% e, mais do que isso, conseguir uma minoria fiel, ou seja, que se comprometirá a fazer o possível para que a decisão tomada pela comunidade tenha êxito – ao invés de ficar na outra ponta do cabo de guerra, torcendo para que dê tudo errado e ela possa dizer, gloriosa, ao final: “eu avisei que isso não ia dar certo”...

É claro que não é fácil chegar nesse grau de comprometimento e confiança. Também seria tolice imaginar que todas as decisões devam ser tomadas desta ou de outra forma. Em algumas situações, por exemplo, a melhor opção é deixar que uma única pessoa na ecovila tome a decisão. Quando alguém está precisando de socorro médico, ninguém vai convocar uma assembléia para definir o que fazer. O morador médico terá autonomia para decidir o que fazer, certo? Ou, na ausência dele, quem estiver com o doente buscará socorro o mais rápido possível. Esta seria, então, uma decisão por autocracia, quando um indivíduo decide por todos.

Da mesma forma, decisões técnicas requerem apoio de uma equipe especializada no tema. Se o grupo precisa definir metodologias sobre como cultivar hortaliças orgânicas, por exemplo, pode ser mais interessante ouvir os agrônomos e/ou permacultores da comunidade. Nesse caso, a decisão poderá ser tomada por essa minoria.

Já por consenso, o que se deseja é que todos (sem exceção) participem do processo de tomada de decisão e, ao longo de muitas rodadas de discussões, possam se sentir confortáveis e satisfeitos por terem decidido qual vai ser a cara do centro comunitário, do refeitório coletivo ou da pavimentação das ruas da ecovila. No início das discussões, que sempre partem de uma proposta, cada um oferece ao grupo a sua posição. Depois, caberá ao mediador (que pode ser alguém de fora da comunidade ou um integrante que não esteja muito envolvido com a questão em pauta), conduzir o grupo durante alguns (ou muitos) encontros, sempre com o objetivo de encontrar uma decisão que contemple cada um dos integrantes da comunidade. É como se naturalmente, o tempo (e o mediador também) se encarregasse de convergir os interesses e, ops, “de repente”, todos estão prontos para tomar a decisão, seja ela qual for.

Que sonho seria se a minha comunidade estivesse nesse ponto de desenvolvimento... Mas que bom sentir que ela ainda não está, porque assim poderei fazer parte dessa gostosa trajetória de descobrir como viver em grupo, com harmonia. Será um caminho tortuoso, cheio de desafios, mas, tenho certeza, de que a cada passo conquistado, será um grande prazer olhar para trás e sentir o quanto já avançamos nessa jornada que não termina nunca.

Foto: conjunto de casas da ecovila escocesa Findhorn, onde o consenso já é uma prática bem conhecida dos moradores...




Gaiatos e
Gaianos


Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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