Gaiatos e Gaianos
09/10/2007 ÀS 09:39
Dividir a lavanderia com o vizinho?!?


Amar a humanidade é fácil, difícil é aturar o vizinho. Mas há quem pense diferente (ufa!). Você já ouviu falar em cohousings? Elas são uma espécie de comunidade alternativa formada, em geral, por vinte e poucas famílias e um objetivo comum: tirar proveito da convivência comunitária para tornar o dia-a-dia mais rico cultural e socialmente, além de mais sustentável econômica e ambientalmente.

Como isso acontece? Basicamente, as famílias têm sua casa com seus ambientes privativos, mas compartilham alguns outros espaços e facilidades com quem mora ao lado. Assim, numa cohousing, em vez de cada família ter uma lavanderia em casa, por exemplo, elas dividem uma grande lavanderia com as famílias vizinhas.

Em alguns casos, é preciso fazer uma escala de usuários para conseguir atender a todos. Mas isso não chega a ser um problema, já que ninguém usa as máquinas de lavar e secar ou mesmo o ferro de passar roupa todos os dias.

Da mesma forma, toda cohousing tem um refeitório comum para refeições preparadas coletivamente. Em suas casas, as famílias têm uma cozinha, sim, mas ela é mais simples, sem muitos eletrodomésticos e equipamentos pesados, que ficam concentrados no ambiente compartilhado por todos.

A horta e o jardim são cultivados por muitas mãos. Por isso, a oficina onde ficam guardadas as ferramentas de jardinagem e marcenaria também é de uso comum. Ou seja, cada morador não precisa ter todas as ferramentas para cuidar do seu quintal e da horta comunitária. Basta um conjunto de equipamentos, dividido por todos. Muito mais lógico, não?

Ah, e há também a biblioteca, a creche, o escritório com pontos de internet, a sala de ginástica e de brinquedos, a oficina de artes, o ateliê de moda, a padaria. Nesses espaços, tudo é compartilhado e todos têm acesso a tudo, consumindo, para tanto, muito menos dinheiro, produtos e matérias-primas. Sem falar nas relações sociais baseadas na confiança, que se fortalecem amorosamente dia após dia.

Essa possibilidade de interagir com os outros faz do discurso ecológico ou ambientalista uma prática diária, dizem os especialistas. Graham Meltzer viveu muitos anos de sua vida em comunidades alternativas, de kibbutz a cohousing nos Estados Unidos, Austrália, Canadá, Japão, entre outros cantos do mundo.

Em seu livro Sustainable Community - Learning from the cohousing model, Meltzer reúne histórias de diversas cohousings por onde ele passou e mostra como compartilhar e criar um senso de comunidade pode transformar o cotidiano das pessoas em experiências vivas de sustentabilidade, baseadas no comunitarismo, solidariedade e respeito ao meio ambiente.

Esses princípios podem ser inspiradores para nós. Imagine o tamanho da biblioteca que podemos criar ao reunir nossos livros com os dos vizinhos? E o acervo de CDs e DVDs? E o ateliê de cerâmica ou oficina de costura? Ou que tal trocar o tão sonhado home theater por uma sala de projeção?

Tudo fica mais fácil quando se sabe que é possível contar com amigos. Que o digam as mães da Cohousing Cooperative, em Hobart, Tasmânia, que fazem escala para levar e buscar as crianças da comunidade na escola. Ou ainda a Cascade Cohousing, também na Tasmânia, onde até a despensa é coletiva. Ou os moradores de Findhorn (de novo, por aqui), que compartilham os carros e as bicicletas.

E nós, que compartilhamos o mesmo planeta? Será que podemos fazer algo também?


Para saber mais sobre Cohousing:

Uma simples pesquisa na internet sobre Cohousing pode ser um deleite de experiências bacanas de sustentabilidade urbana. Sites de associações também ajudam, como estes que eu listei abaixo:

The Cohousing Association of United States: http://www.cohousing.org/

Canadian Cohousing Network: http://www.cohousing.ca/

UK Co-housing Network: http://www.cohousing.org.uk/


Foto: Reprodução da capa do livro do Graham Meltzer, talvez o maior conhecedor de Cohousing do planeta. Ainda não está disponível no Brasil, mas é possível encomendar em lojas virtuais - se você puder tomar emprestado de alguém na biblioteca comunitária do seu prédio, melhor ainda...




Gaiatos e
Gaianos


Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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