Histórias de uma outra gastronomia

Desconectada da terra e refém exclusiva do supermercado, uma pessoa poderia dizer que um belo banquete para um jantar especial deve ter um bom vinho, um queijo exótico (leia “caro”) e uma iguaria do tipo caviar, trufas ou o cruel patê de foie gras (fígado gordo, de ganso ou pato).
Mas nem é preciso chegar a extremos para ver o quanto nossa alimentação se desvinculou de uma produção sustentável de alimentos. Até a chamada Revolução Verde, nos anos 60 e 70 - quando a tecnologia (sementes melhoradas, agrotóxicos, fertilizantes e muita mecanização) prometeu o milagre da explosão agrícola em países do Sul como Brasil e Índia – as mesas de boa parte da população mundial eram abastecidas com produtos que vinham do próprio quintal ou de pequenos produtores locais.
Isso significa, entre outras coisas, que a diversidade de alimentos estava ligada à época do ano. Algumas verduras só eram saboreadas no inverno, enquanto certas frutas serviam de sobremesa apenas no verão.
Nas ecovilas mais consolidadas, como
Findhorn (Escócia) e
Auroville (Índia), parte importante da alimentação de seus moradores é produzida pela própria comunidade. E para garantir alimentos saudáveis, nada de agrotóxicos ou fertilizantes químicos. Tudo é orgânico e respeita o ritmo e os ciclos da natureza - diferentemente de nós, que muitas vezes nem nos damos conta de que comemos papaya no inverno ou abacate no verão.
Nessas comunidades que buscam uma vida mais simples, em harmonia com o meio ambiente e as pessoas, a culinária é um meio de estreitar os laços com a terra. Lembro-me de quando visitei Findhorn, dois anos atrás. Era época da colheita de tomates. Na semana em que fiquei hospedada lá, experimentei os mais diversos pratos feitos com tomates frescos e 100% orgânicos – sim, isso é possível!
O que para nós seria, à primeira vista, uma grande restrição, para eles é motivo de orgulho e de festa. As pessoas trocam receitas entre si, inventam novos pratos, compotas, geléias, tortas, molhos, sopas, bolos. E mais: elas acreditam que a saúde fica mais fortalecida quando ingerimos alimentos típicos de cada época do ano.
Castanhas ou frutos mais gordurosos ajudam a aquecer o corpo no inverno, ao passo que legumes e frutas ricos em água refrescam e hidratam o organismo no verão. Assim, comer o que a terra fornece nas diferentes estações do ano aumenta nossa integração com a natureza – e também nossa percepção do que é, de fato, saudável.
Foto: Moradores de Findhorn cuidando da produção orgânica de alimentos para toda a comunidade.