
Durante quase quatro dias, 80 pessoas concentraram energia para refletir sobre conquistas e desafios que permeiam o cotidiano de quem optou por viver em comunidade – ou está tentando criar condições para isso.
Tinha gente de São Paulo, Minas Gerais, Rio, Bahia, Santa Catarina, Goiás, Curitiba. O evento reuniu pessoas que já têm anos de estrada em ecovilas, gente que está iniciando um processo de formação de uma comunidade e outras que foram buscar informações e sonhar – quem sabe – com a possibilidade de uma mudança mais radical de vida. Em comum, todos tinham o desejo e a esperança de construir um lugar mais vivo e saudável para viver, um estilo de vida mais compatível com seus valores de respeito e reverência à mãe Terra.
Foram dias de trabalho intenso, num ritmo que variava muito. Tínhamos muito para conversar, compartilhar e vivenciar e, ao mesmo tempo, estávamos num local de meditação e recolhimento. Talvez esse tenha sido para mim o maior desafio: mudar o ritmo várias vezes ao dia e passar do silêncio absoluto entre 22 h e 8h15 da manhã (o que incluía a meditação das 7h e o café da manhã) para uma sala com 80 pessoas loucas para um bom e longo papo.
Fui para Nazaré de carona com os amigos Victor e Rosana e, já no caminho, conheci a Pomei, também caronista. Depois de sete anos vivendo na ecovila Crystal Waters, na Austrália, famosa pelo design permacultural pioneiro, Pomei voltou ao Brasil para conhecer o que está acontecendo por aqui e desenvolver um projeto pessoal importante. Em nossas conversas, ela relatou um pouco do dia-a-dia na ecovila e me surpreendeu quando apontou pontos em comum com a Ecovila Clareando, da qual faço parte. Foi como se, por um momento, eu acreditasse que a Clareando pode, daqui uns 20 anos, estar no nível de desenvolvimento e maturidade da comunidade australiana que eu tanto admiro. Sonhar não custa nada, certo?
Já na Uniluz, reencontrei o amigo Marcelo Bueno, do IPEMA, e o casal Jéssica e Gui Castagna, que foram divulgar os livros socioambientais da livraria virtual Tapioca, criada por eles.
Da ecovila Terra Una, em Minas Gerais, conheci o casal Manu e Marina, que hoje são praticamente os únicos moradores efetivos da terra – os demais, por enquanto, passam feriados, férias e algumas temporadas breves enquanto se preparam para criar condições de ir para lá de mala e cuia. Manu e Marina também estavam na organização do evento e conduziram boa parte das atividades do evento, na companhia das parceiras Larissa, Flávia e Taísa.
Conversar com eles sobre as dificuldades de encontrar formas para garantir o sustento na ecovila me deu mais força e vontade de seguir em frente. Aqui em São Paulo, tantas pessoas me questionam sobre o caminho que escolhi que, às vezes (ou melhor, somente naqueles dias de TPM brava), chego a me perguntar se não estou cometendo algum ato insano ou absurdo.
Encontrar ressonância em outras pessoas conforta, anima, energiza. Vi ali gente afim de mudar de vida, de criar os filhos de uma maneira diferente, de trabalhar na terra para botar alimento na mesa, com vontade de aprender a conviver harmoniosamente com a diversidade - de pessoas, ideias, situações e conflitos. De tudo o que vi, vivi e senti durante o encontro, ficou a certeza de que estou trilhando meu caminho de forma cada vez mais consciente, o que significa sem a ilusão de encontrar o paraíso na terra e sem a sensação de estar deixando de lado oportunidades que “só a cidade grande tem a oferecer”.
Sentir o interesse dos jovens no tema inspirou veteranos a conter, em alguns momentos, as amarguras inerentes à vida comunitária e ressaltar as delícias e alegrias de um cotidiano mais simples exteriormente e mais rico interiormente. Os desafios são inúmeros: aumentar a autossuficiência alimentar, construir casas ecológicas, garantir acesso à educação (dentro ou fora das ecovilas, outra questão), cuidar das relações interpessoais, criar processos saudáveis de tomada de decisões, separar de forma agradável a vida privada da vida comunitária, garantir fontes de renda e trabalho e, ainda, trabalhar (muito!) para servir de inspiração para políticas públicas, para uma economia mais solidária, para as novas gerações, para criar condições de manter os jovens felizes nas comunidades quando os estímulos externos soam forte em seus corações.
Por isso que foi tão bom conviver um pouco mais de perto com pessoas que estão na mesma caminhada. Me senti até menos esquisita (rsrs), menos peixe-fora-d’água. Apesar de ser ainda pouco conhecido, o movimento de ecovilas no Brasil e no mundo tem crescido exponencialmente nos últimos anos. Já somos mais de 15 mil comunidades em todo o planeta, mais de 100 só no Brasil. Acho que está mais do que na hora de nos unirmos, não? Uma boa rede para intercâmbio de experiências, por exemplo, pode ser uma excelente maneira de fortalecer as comunidades e de servir de referência para novos empreendimentos... Até que isso aconteça, o bom mesmo é curtir esses momentos presenciais marcantes, que recarregam nossas baterias por mais um bom tempo...