Gaiatos e Gaianos
14/04/2009 às 16:03
Encontro de ecovilas!


Reencontrar amigos, conhecer gente nova, fazer contatos, compartilhar afinidades e desafios em comum. Tudo isso num lugar lindo e muito, muito especial: Nazaré Uniluz. Pela segunda vez, a comunidade e escola de meditação e vivências para o autoconhecimento sediou, no feriado de Páscoa, um encontro com representantes de ecovilas brasileiras.

Durante quase quatro dias, 80 pessoas concentraram energia para refletir sobre conquistas e desafios que permeiam o cotidiano de quem optou por viver em comunidade – ou está tentando criar condições para isso.

Tinha gente de São Paulo, Minas Gerais, Rio, Bahia, Santa Catarina, Goiás, Curitiba. O evento reuniu pessoas que já têm anos de estrada em ecovilas, gente que está iniciando um processo de formação de uma comunidade e outras que foram buscar informações e sonhar – quem sabe – com a possibilidade de uma mudança mais radical de vida. Em comum, todos tinham o desejo e a esperança de construir um lugar mais vivo e saudável para viver, um estilo de vida mais compatível com seus valores de respeito e reverência à mãe Terra.

Foram dias de trabalho intenso, num ritmo que variava muito. Tínhamos muito para conversar, compartilhar e vivenciar e, ao mesmo tempo, estávamos num local de meditação e recolhimento. Talvez esse tenha sido para mim o maior desafio: mudar o ritmo várias vezes ao dia e passar do silêncio absoluto entre 22 h e 8h15 da manhã (o que incluía a meditação das 7h e o café da manhã) para uma sala com 80 pessoas loucas para um bom e longo papo.

Fui para Nazaré de carona com os amigos Victor e Rosana e, já no caminho, conheci a Pomei, também caronista. Depois de sete anos vivendo na ecovila Crystal Waters, na Austrália, famosa pelo design permacultural pioneiro, Pomei voltou ao Brasil para conhecer o que está acontecendo por aqui e desenvolver um projeto pessoal importante. Em nossas conversas, ela relatou um pouco do dia-a-dia na ecovila e me surpreendeu quando apontou pontos em comum com a Ecovila Clareando, da qual faço parte. Foi como se, por um momento, eu acreditasse que a Clareando pode, daqui uns 20 anos, estar no nível de desenvolvimento e maturidade da comunidade australiana que eu tanto admiro. Sonhar não custa nada, certo?

Já na Uniluz, reencontrei o amigo Marcelo Bueno, do IPEMA, e o casal Jéssica e Gui Castagna, que foram divulgar os livros socioambientais da livraria virtual Tapioca, criada por eles.

Da ecovila Terra Una, em Minas Gerais, conheci o casal Manu e Marina, que hoje são praticamente os únicos moradores efetivos da terra – os demais, por enquanto, passam feriados, férias e algumas temporadas breves enquanto se preparam para criar condições de ir para lá de mala e cuia. Manu e Marina também estavam na organização do evento e conduziram boa parte das atividades do evento, na companhia das parceiras Larissa, Flávia e Taísa.

Conversar com eles sobre as dificuldades de encontrar formas para garantir o sustento na ecovila me deu mais força e vontade de seguir em frente. Aqui em São Paulo, tantas pessoas me questionam sobre o caminho que escolhi que, às vezes (ou melhor, somente naqueles dias de TPM brava), chego a me perguntar se não estou cometendo algum ato insano ou absurdo.

Encontrar ressonância em outras pessoas conforta, anima, energiza. Vi ali gente afim de mudar de vida, de criar os filhos de uma maneira diferente, de trabalhar na terra para botar alimento na mesa, com vontade de aprender a conviver harmoniosamente com a diversidade - de pessoas, ideias, situações e conflitos. De tudo o que vi, vivi e senti durante o encontro, ficou a certeza de que estou trilhando meu caminho de forma cada vez mais consciente, o que significa sem a ilusão de encontrar o paraíso na terra e sem a sensação de estar deixando de lado oportunidades que “só a cidade grande tem a oferecer”.

Sentir o interesse dos jovens no tema inspirou veteranos a conter, em alguns momentos, as amarguras inerentes à vida comunitária e ressaltar as delícias e alegrias de um cotidiano mais simples exteriormente e mais rico interiormente. Os desafios são inúmeros: aumentar a autossuficiência alimentar, construir casas ecológicas, garantir acesso à educação (dentro ou fora das ecovilas, outra questão), cuidar das relações interpessoais, criar processos saudáveis de tomada de decisões, separar de forma agradável a vida privada da vida comunitária, garantir fontes de renda e trabalho e, ainda, trabalhar (muito!) para servir de inspiração para políticas públicas, para uma economia mais solidária, para as novas gerações, para criar condições de manter os jovens felizes nas comunidades quando os estímulos externos soam forte em seus corações.

Por isso que foi tão bom conviver um pouco mais de perto com pessoas que estão na mesma caminhada. Me senti até menos esquisita (rsrs), menos peixe-fora-d’água. Apesar de ser ainda pouco conhecido, o movimento de ecovilas no Brasil e no mundo tem crescido exponencialmente nos últimos anos. Já somos mais de 15 mil comunidades em todo o planeta, mais de 100 só no Brasil. Acho que está mais do que na hora de nos unirmos, não? Uma boa rede para intercâmbio de experiências, por exemplo, pode ser uma excelente maneira de fortalecer as comunidades e de servir de referência para novos empreendimentos... Até que isso aconteça, o bom mesmo é curtir esses momentos presenciais marcantes, que recarregam nossas baterias por mais um bom tempo...






Comentários

15/04/2009 às 11:26
Mara - diz:
Olá Giuliana vc ñ me conhece, mas tenho entrado no seu blog e de verdade acho o maximo todo esse seu trabalho e de forma alguma imagino q seja insano ou absurdo de sua parte...comecei entrando no blog da Bianca que é minha amiga, fomos vizinhas e conheço a mãe dela q é uma pessoa linda...enfim, acho que entendo seu desabafo qdo diz que muitas vezes as pessoas acham essa idéia de ecovila ou esse negocio de ecologicamente correto uma grande utopia ou te enchem de perguntas e te olham com aquelas caras do tipo "que louco", mas penso que isso é pq toda a nossa sociedade ainda está num padrão e tudo que é novo e diferente causa grande impacto...Bem diferente de vc nunca estive numa ecovila e comecei a conhecer através do seu blog, mas é algo que acho, que de certa forma sempre esteve na minha cabeça e acho que na de muitas pessoas,digo isso, ñ participando como vc, mas sempre imaginei um lugar lindo onde as pessoas trocassem e muitas vezes tbém pensei...nooossa que louco viajo na maionese(como o Bob do desenho...rsrsrsrsr...justamente pelo padrão)...pq claro num projeto desse tem que abrir mão de alguns confortos talvez, e a pessoa está tão no padrão que acaba desistindo talvez por isso o espanto de muitos com a sua coragem e determinaçaõ...também adorei sobre a parte em que se reunem para meditar isso é maravilhoso pq traz muita consciência e nos renova sempre, medito em casa e ja morei em S.Paulo isso a quatro anos, inclusive qdo eu e a Bianca eramos vizinhas, na realidade tinha mais contato com a Maria mãe da Bianca... e hj estou aqui no interior de S.Paulo próximo a Pres.Prudente e mesmo tendo nascido nessa cidade do interior sai daqui com 11 anos então imagina...tive q criar uma certa intimidade com toda essa natureza novamente, ñ deixou de ser engraçado as vezes...Santa Ignorância minha em alguns momentos...Mas, como uma simples e humilde admiradora e curiosa do seu trabalho na ecovila posso dizer acho que tudo isso é maravilhoso e corajoso e de muita consciência...Por isso posso dizer que qto a ser insano ou absurdo sempre achei que como dizem "O NORMAL É SER DIFERENTE"...nesse caso sejamos loucos e santos...ah! Quanto a meditação percebi que gosta muito por isso vou tomar a liberdade de passar o endereço de um site que entro pq meditei durante algum tempo com uma Terapeuta que faz alguns trabalhos nesse espaço por isso tomei a liberdade de te passar o endereço do site.Pra falar a verdade nunca estive la, mas imagino que deve ser um lugar lindo também e como vc devem ter enfrentado muitas barreiras apesar de ñ ser uma ecovila...Parabéns pelo trabalhoso na ecovila, então aí está: www.namaste.com.br...Bjs!

23/04/2009 às 11:39
Giuliana - diz:
Oi, Mara, muito grata pelo seu relato. Adorei a dica do site namastê. Realmente gosto de meditar... Sobre toda a história de mudança para a ecovila e as perguntas que chegam, enfim, agradeço pela força, e aproveito para deixar uma frase que uma amiga usa na assinatura dos emails dela: "Você quer mudar o mundo? Você não é louco. É um dos meus." Que tal? Grande abraço pra vc.

06/12/2009 às 23:57
lucien - diz:
Giuliana, eu quando era mais jovem também quis mudar o sistema , mas muita pedra rolou ribanceira abaxo e bem em cima de mim e eu mudei o foco e parei de lutar. Mas cá dentro de mim meu coração sonhava ainda com minha casa verde muita água limpa gente que planta e colhe paz e amor.

07/12/2009 às 00:05
lucien - diz:
gostaria muito de conhecer o modo de vida das eco vilas,mas infelismente não possuo muitos recursos financeiros eu soube que precisa de muito dinheiro. vocês teem algum tipo de programa que troca serviços por hospedagem? eu sou costureira e também sei cozinhar muito bem comida sáudável.

07/12/2009 às 10:56
Giuliana - diz:
Oi, Lucien, nem sempre é preciso ter muito dinheiro para morar numa ecovila. Mas isso depende muito do formato e dos acordos estabelecidos em cada comunidade. Adorei saber de seus talentos como cozinheira e costureira. Em ecovilas, eles valem muito, sabia? Se quiser conhecer a Ecovila Clareando, será muito bem-vinda. Entre no site www.clareando.com.br e veja quando será nosso próximo piquenique aberto para visitantes. Será um prazer contar um pouquinho da nossa história a você. Grande abraço.



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Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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