Vivemos numa espécie de corrida maluca, em que a maioria absoluta grita e esperneia o tempo todo: “mais rápido, mais rápido”! Veja, por exemplo, algumas qualidades muito valorizadas por aí afora. Uma pessoa é considerada organizada quando é capaz de fazer muitas coisas em pouco tempo (agenda cheia, então, é sinônimo de gente importante – e isso dá até status). Se ela dá conta de fazer várias coisas ao mesmo tempo – que incrível! - é sinal de que ela é muito eficiente (afinal, nem é tão difícil assim dirigir e falar ao celular, ou resolver problemas do trabalho durante o almoço de dez minutos com as crianças).
Da Revolução Industrial para cá, não temos feito outra coisa a não ser acelerar nossa rotina, com a falsa idéia de que “otimizando” o tempo (leia: correndo daqui prá lá sem parar) teríamos mais... tempo. Curioso, não? Lembra da promessa das máquinas e da tecnologia, que iriam aumentar nosso tempo livre? Balela. O tempo que seria livre (nosso, só nosso!) foi corroído pelos deslocamentos cada vez maiores, pelo trânsito infernal das cidades, pela necessidade-angústia de nos mantermos “atualizados” no trabalho e pelas horas extras que fazemos para garantir as compras daquilo que a TV, as revistas e os amigos dizem ser essencial para a nossa vida.
E o que acontece mais à frente nessa roda-viva que só ganha velocidade e mais velocidade? Uma hora soa o alerta vermelho e você sente no corpo os prejuízos causados pelo descompasso entre o seu tempo interno e esse tempo artificial, do relógio inventado pelo homem num dia de pouca inspiração. Daí é hora de parar, ir ao médico, fazer exames, se entupir de remédios, ler livros de auto-ajuda escritos por executivos que sobreviveram a infartos, acumular tarefas no trabalho, rezar pela compreensão do chefe e ver, ao final, o tempo escoar ainda mais rapidamente diante de nossos olhos, até começarmos tudo de novo, igualzinho.
No plano macro, o mesmo ocorre com o planeta. O que é esse crescimento insustentável dos países ditos emergentes e do lucro abusivo de algumas grandes corporações senão reflexo de um desequilíbrio na linha do tempo? Ir rápido demais com a extração de matérias-primas, engordar animais com hormônios para encurtar o tempo até o abate, usar combustíveis fósseis para gerar energia e criar organismos geneticamente modificados em busca de lavouras mais fartas e precoces implica roubar da natureza o tempo de que ela precisa para se recuperar, desenvolver e se sustentar.
Mas, afinal, quem roubou o nosso tempo? Nós mesmos, meu caro. E o primeiro passo para tirarmos o tempo do cativeiro em que o colocamos há séculos é: descobrir o quanto ir devagar pode ser mais gostoso. (Sim, porque ninguém precisa botar mais sacrifícios na vida...)
Depois de quase sacar dinheiro do bolso para comprar (aos filhos) o bizarro título Histórias para fazer dormir em um minuto, o historiador Carl Honoré, autor do livro Devagar (recomendo fortemente), resolveu desacelerar. E descobriu que a vida podia fazer mais sentido. De um jantar curtido por inteiro a uma caminhada matinal com direito a paradas para o xixi do cachorro, ir devagar não equivale a perder tempo. Ao contrário. Desacelerar pode literalmente ser mais prazeroso e nos levar a uma vida mais intensa – que o digam os adeptos da simplicidade voluntária, do slow life, do consumo consciente e do sexo tântrico.
Diminuir o passo requer mudanças de valores. E para reduzir a marcha, talvez você perceba que anda comprando coisas demais, que o fazem trabalhar mais, para comprar mais, para precisar de mais dinheiro, e aí trabalhar mais e... ter menos tempo para o que realmente vale a pena.
Não tenha medo de ser lento! A vida é uma só (ou, pelo menos, vivemos uma vida de cada vez) e se você ficar o tempo todo acelerando tudo nem vai perceber a beleza de viver e assistir à passagem do tempo. Viver devagar é usar a memória para guardar os compromissos do dia, sem precisar anotá-los numa agenda e cair no erro de sempre achar que cabe mais uma tarefa. É, por fim, viver no presente, sem a ansiedade inútil do futuro que se esconde nos próximos segundos.
P.S.: Paradoxalmente, hoje foi difícil encontrar tempo para escrever aqui. É que eu não queria escrever com pressa, só para tirar da frente mais uma das tantas tarefas do dia...