Gaiatos e Gaianos
18/11/2008 às 20:01
Devagar é mais gostoso

Quer ser um revolucionário do século XXI? Então, desacelere! Isso mesmo. Simples assim. Nada pode ser mais absurdo ou utópico hoje em dia do que querer resgatar o controle sobre o ritmo de nossas vidas. Um luxo tão raro que quando alguém o atinge (por sorte ou persistência) é logo taxado de folgado, burguês ou desajustado.

Vivemos numa espécie de corrida maluca, em que a maioria absoluta grita e esperneia o tempo todo: “mais rápido, mais rápido”! Veja, por exemplo, algumas qualidades muito valorizadas por aí afora. Uma pessoa é considerada organizada quando é capaz de fazer muitas coisas em pouco tempo (agenda cheia, então, é sinônimo de gente importante – e isso dá até status). Se ela dá conta de fazer várias coisas ao mesmo tempo – que incrível! - é sinal de que ela é muito eficiente (afinal, nem é tão difícil assim dirigir e falar ao celular, ou resolver problemas do trabalho durante o almoço de dez minutos com as crianças).

Da Revolução Industrial para cá, não temos feito outra coisa a não ser acelerar nossa rotina, com a falsa idéia de que “otimizando” o tempo (leia: correndo daqui prá lá sem parar) teríamos mais... tempo. Curioso, não? Lembra da promessa das máquinas e da tecnologia, que iriam aumentar nosso tempo livre? Balela. O tempo que seria livre (nosso, só nosso!) foi corroído pelos deslocamentos cada vez maiores, pelo trânsito infernal das cidades, pela necessidade-angústia de nos mantermos “atualizados” no trabalho e pelas horas extras que fazemos para garantir as compras daquilo que a TV, as revistas e os amigos dizem ser essencial para a nossa vida.

E o que acontece mais à frente nessa roda-viva que só ganha velocidade e mais velocidade? Uma hora soa o alerta vermelho e você sente no corpo os prejuízos causados pelo descompasso entre o seu tempo interno e esse tempo artificial, do relógio inventado pelo homem num dia de pouca inspiração. Daí é hora de parar, ir ao médico, fazer exames, se entupir de remédios, ler livros de auto-ajuda escritos por executivos que sobreviveram a infartos, acumular tarefas no trabalho, rezar pela compreensão do chefe e ver, ao final, o tempo escoar ainda mais rapidamente diante de nossos olhos, até começarmos tudo de novo, igualzinho.

No plano macro, o mesmo ocorre com o planeta. O que é esse crescimento insustentável dos países ditos emergentes e do lucro abusivo de algumas grandes corporações senão reflexo de um desequilíbrio na linha do tempo? Ir rápido demais com a extração de matérias-primas, engordar animais com hormônios para encurtar o tempo até o abate, usar combustíveis fósseis para gerar energia e criar organismos geneticamente modificados em busca de lavouras mais fartas e precoces implica roubar da natureza o tempo de que ela precisa para se recuperar, desenvolver e se sustentar.
 
Mas, afinal, quem roubou o nosso tempo? Nós mesmos, meu caro. E o primeiro passo para tirarmos o tempo do cativeiro em que o colocamos há séculos é: descobrir o quanto ir devagar pode ser mais gostoso.  (Sim, porque ninguém precisa botar mais sacrifícios na vida...)

Depois de quase sacar dinheiro do bolso para comprar (aos filhos) o bizarro título Histórias para fazer dormir em um minuto, o historiador Carl Honoré, autor do livro Devagar (recomendo fortemente), resolveu desacelerar. E descobriu que a vida podia fazer mais sentido. De um jantar curtido por inteiro a uma caminhada matinal com direito a paradas para o xixi do cachorro, ir devagar não equivale a perder tempo. Ao contrário. Desacelerar pode literalmente ser mais prazeroso e nos levar a uma vida mais intensa – que o digam os adeptos da simplicidade voluntária, do slow life, do consumo consciente e do sexo tântrico.

Diminuir o passo requer mudanças de valores. E para reduzir a marcha, talvez você perceba que anda comprando coisas demais, que o fazem trabalhar mais, para comprar mais, para precisar de mais dinheiro, e aí trabalhar mais e... ter menos tempo para o que realmente vale a pena.

Não tenha medo de ser lento! A vida é uma só (ou, pelo menos, vivemos uma vida de cada vez) e se você ficar o tempo todo acelerando tudo nem vai perceber a beleza de viver e assistir à passagem do tempo. Viver devagar é usar a memória para guardar os compromissos do dia, sem precisar anotá-los numa agenda e cair no erro de sempre achar que cabe mais uma tarefa. É, por fim, viver no presente, sem a ansiedade inútil do futuro que se esconde nos próximos segundos.


P.S.: Paradoxalmente, hoje foi difícil encontrar tempo para escrever aqui. É que eu não queria escrever com pressa, só para tirar da frente mais uma das tantas tarefas do dia...






Comentários

18/10/2009 às 05:21
Alexandre Puga Cano - diz:
Adorei o artigo e me identifiquei muito,que bom que não estou sozinho, tirei o pé do acelerador há bastante tempo, revi os meus conceitos de consumo, voltei a trabalhar em casa e minha qualidade de vida aumentou muito.

19/10/2009 às 21:22
vinicius - diz:
Sim, muito bom o artigo. Já me chamaram algumas vezes de devagar por fazer as coisas com calma, por exemplo comer, me arrumar... Só acho que não vale a pena correr tanto. Vamos viver a vida com mais calma!

28/01/2010 às 18:46
Nira - diz:
Um artigo ótimo nos tempos que vivemos, sem viver...

04/02/2010 às 15:25
Marcos Diniz - diz:
Separei 5 minutos da correia do dia a dia para ler este artigo, e gostei. Sempre tentei levar uma vida tranquila e até tenho fama de ser um dos mais calmos da turma, mas infelizmente o mundo atual nos empurra ou puxa para uma corrida exaustiva. Quanto ao mundo sustentável e consumo consciente, tento tanto interesse que até estou estudando esta área e tem mudado ainda mais o meu pensamento sobre o planeta.



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Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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