
De tudo o que li e vi na imprensa, o que mais me deixou inconformada foi a homogeneidade do discurso. Nenhum economista ou analista financeiro entrevistado citou possíveis vantagens que a crise poderia trazer. Nenhum. Nenhum veículo de comunicação parou para pensar numa pauta que pudesse investigar um outro lado dessa história. Nem um único sequer*.
Chamo essa martelada insistente num único ponto de vista de lesão por esforço repetitivo (LER). De tanto ouvirmos que a economia precisa crescer e crescer, de tanto enfiarem na nossa cabeça que quando cai o consumo, caem também a economia e as pessoas, ficamos assim: acríticos e reféns do medo - do jeitinho que os poucos e grandes jogadores desse pôquer sem graça gostam.
Mas será que o PIB é a melhor maneira de medir o desenvolvimento de um país? Tenho dúvidas. Por quê? Bom, tudo o que movimenta a economia é contabilizado no PIB. Tudo mesmo. De acidentes nas estradas e surtos de doenças a terremotos e tsunamis. Botou dinheiro para circular, entrou no PIB. Sabia que o PIB dos países atingidos pelo tsunami que matou milhares de pessoas no Pacífico, anos atrás, cresceu depois dos desastres, por conta do que se gastou para reerguer os locais atingidos? Dá para chamar isso de desenvolvimento?
Um grande autor e pensador contemporâneo, que morreu dois ou três anos atrás, revolucionou meu modo de enxergar o PIB. O nome dele era André Gorz, criador da idéia de crescimento negativo. Como assim? Ele defendia que os países teriam uma evolução mais significativa e consistente se conseguissem caminhar para um PIB negativo. O que para nós soa como recessão, para ele era uma chance de aumentar a autonomia da população, pois menos atividade econômica monetária significaria mais gente plantando para consumo próprio, trocando bens e serviços, aprendendo a costurar suas roupas, fazer seus móveis, economizar água e energia, fazer cultura (cantar, dançar, interpretar) e não apenas consumir cultura (freqüentar cinemas, teatros e shows de música). Em resumo, menos movimento econômico e mais desenvolvimento de habilidades e trocas interpessoais. Não faz sentido?
Exatamente por isso, ouso dizer que essa crise é uma oportunidade importante para a humanidade, um fôlego extra ao planeta, que respira menos afoito com a diminuição da produção industrial e do consumo. Menos consumo quer dizer menos gente comprando carros, brinquedos de plástico, equipamentos eletrônicos, roupas, sapatos...
Bom mesmo seria se ela levasse a uma reflexão mais profunda a respeito do nosso jeito de encarar a economia e reinventar nossa visão de riqueza e pobreza. Pena que, se depender da imprensa mundial, os altos e baixos nas bolsas de valores continuarão a ser motivo de calafrios para bilhões de nós.
* Ganhei do meu marido o n#1 da recém-lançada revista Sustenta!, da Editora Matraca, que ainda pode ser encontrada nas bancas. E, pasmem, não é que ela traz uma reportagem sobre os efeitos positivos da crise internacional na Amazônia! Vale a pena ler.