
Mas como alguns (bons e maus) hábitos passam de geração para geração, muita gente nem chega a questionar a real necessidade de zelar por sua continuidade. Passar roupas, por exemplo. Para mim, que não faço isso há quase cinco anos, não há nada de mais. Porém, quando eu conto isso a alguém, a reação costuma ser de total espanto. Como assim você não passa as suas roupas?!?!
Essa é uma história que começou meio sem querer. Eu nunca gostei de passar roupas. Aí, resolvi testar se era possível pular essa etapa. E não é que dá! Aliás, é totalmente indolor e inofensivo. Ah, claro, e econômico também. O ferro de passar roupas é um dos aparelhos que mais consomem energia elétrica. Em tempos de combate ao aquecimento global, quem diria, andar por aí ligeiramente amarrotado poupa o planeta, o seu dinheiro e o seu tempo.
Desenvolvi até algumas técnicas para a roupa ficar menos amassada. Quando tiro da máquina de lavar, dou uma chacoalhada nas peças, antes de estendê-las no varal. Assim, as fibras se soltam e a roupa seca mais esticada e, portanto, menos amassada. Outra dica que funciona é pendurar as camisas limpas e já secas no banheiro, enquanto você toma o seu banho. O vapor d’água que fica no ar ajuda a desamassar o tecido.
E, cá entre nós, para quê passar toalhas, lençóis, fronhas e meias? No inverno, então, uma camisa um pouco amassada por baixo da blusa de lã não faz mal a ninguém. Nem você vai se lembrar desse pequeno detalhe. Além disso, o próprio calor humano (também já notei isso) faz a roupa “relaxar” no corpo, como se tivesse sido passada.
Donos e donas-de-casa, não percam tempo com tarefas que podem ser dispensadas e ainda trazer inúmeras vantagens. Até os tecidos usados atualmente favorecem essa, digamos, rebeldia. Alguns, inclusive, são fabricados para dispensar o ferro de “engomar” e, na hora de vender, essa vantagem vira até diferencial de mercado. Então, aproveite! Esqueça o ferro de passar!
Em casa, com o tempo, esse hábito tornou-se tão natural que, um dia, quando, por bom senso (sim, ele é sempre nosso grande aliado), achei por bem passar um vestido de festa, tive que revirar a casa inteira para achar o tal ferro de passar. Foi um sacrifício. Eu nem sabia segurar aquele negócio direito. E ainda me senti desajeitada e gastando mais energia do que precisava, por pura falta de habilidade e treino.
Semanas atrás, quando oficializei meu casamento no cartório (história à parte), vivi outra situação parecida. Meu “vestido de noiva” foi um vestido branco bem simples, com flores bordadas artesanalmente. Minha avó, costureira excepcional, foi quem fez os pequenos ajustes finais. E ela me disse: no dia do casamento, passe bem o vestido antes de vestir.
Fiquei com aquilo na cabeça, pensando se seria mesmo necessário ou simbolicamente importante, sei lá. Dividi a dúvida com meu companheiro que, “solidariamente”, disse que não estava pensando em passar a roupa que usaria no casamento. Fim da história: deixamos o ferro de passar escondido no armário e fomos para o cartório, felizes da vida e quase impecáveis – minha avó, pelo menos, não notou nada...
Foto: um antigo ferro de passar roupa à carvão.